Origem: Revista O Cristão – Andando Dignamente

O Poder para Andar Dignamente

Todas as nossas bênçãos são realizadas por meio de Cristo e estão investidas n’Ele, nosso lugar é de possuir e desfrutar delas. Para possuirmos e desfrutarmos dos dons de Deus, devemos primeiramente valorizá-los como dons de Deus, e aqui está a nossa dificuldade: nosso orgulho nos cega quanto à nossa necessidade. A graça providenciou e colocou tudo em Cristo e eu posso desfrutar disso quando estou em uma posição de desfrute. Podemos ver isto na oração do apóstolo em Efésios. Primeiramente, ele ora para que os santos possam conhecer o poder que operou em Cristo e o que Ele realizou para eles; em segundo lugar, para que possam conhecer o próprio Cristo – para que sejam cheios de toda a plenitude de Deus. Por conhecer sua posição n’Ele, eles poderiam desfrutar d’Ele e de sua posição.

Quando a alma toma conhecimento do lugar ao qual ela foi trazida; ela aprende a respeito do poder que operou em Cristo. Verdadeiramente, o poder de Deus deve primeiramente operar em mim para me elevar a esta posição, e, estando na posição, eu não apenas conheço o poder como também desfruto de seus frutos, e enquanto os mantenho posso desfrutar deste poder eficazmente. Eu não ganho a posição, pois é por meio da graça que ela é minha, e então eu a tomo. Há um poder em tomá-la, e um poder ainda maior, evidentemente, em mantê-la, pois é seu efeito.

Sou compelido a me apossar de cada posição na qual a graça de Cristo me colocou, e a minha fraqueza é que não faço isso. A posição é a confirmação do poder de Cristo, e em a tomando e a mantendo, estou conhecendo mais a Ele, mesmo que nesta posição as minhas próprias fraquezas são mais abertamente reveladas. Quando estamos impressionados com a magnitude da obra de Cristo e com o que é a graça, nós tomamos a posição para a qual somos chamados, à medida que temos luz. Também somos ensinados instintivamente que é um erro moral desistir de nossa posição em nossa caminhada, porque fazendo isso é como se houvesse um retorno ao estado natural.

Aptidão para andar dignamente 

Estamos, no entanto, constantemente permitindo que a questão da aptidão prejudique nosso desfrutar. Nossa aptidão não nos colocou lá. A graça nos colocou lá, e enquanto confessamos Cristo e Sua obra nós podemos desfrutar dos efeitos dela. Nosso olho repousa sobre a bondade e o valor do Doador, não sobre a indignidade do recebedor. Nosso trabalho não é o de nos preparar para expressar a graça que nos é mostrada, mas de caminhar dignamente da vocação. Se uma alma se recusar a reconhecer a vocação como sua, suas ações, por mais sinceras que sejam, devem, no mínimo, ser legais e forçadas.

Outro obstáculo é a tendência de nos medirmos com as dificuldades do caminho e não de olhar para Aquele que nos pôs lá. Dificuldades no caminho sempre ocorrem para aqueles que não têm coração pronto para enfrentá-las. Assim, Israel perdeu Canaã para os gigantes, e as cidades fortificadas até o céu excluíram a bondade e a majestade de Deus. Calebe, como indivíduo, manteve a posição e ele tinha o poder para isso. Anos depois, quando ele conquistou os gigantes e as cidades, ele teve o pleno gozo disso.

Perder 

É possível ter desfrutado de nossa posição e depois perdê-la, ou melhor, a sensação dela. Nós não andamos dignos dela, e o efeito é um desejo de gozo e libertação que já foram conhecidos. Ai de mim! Neste estado, quantas coisas são oferecidas para compensar nossa perda! Atenção às formas, boas obras, atos de obediência e similares são livremente propostos e adotados, mas se tivéssemos mantido nossa posição, não deveríamos apenas conhecer o poder que operou em Cristo, mas o alcance, de acordo com a segunda oração em Efésios, seria para o próprio Cristo e toda a plenitude de Deus. Não podemos ter poder genuíno para agir em qualquer posição se duvidarmos de nosso título dessa posição. Se eu aprendi distintamente o real valor de Cristo para mim, embora eu possa cometer muitos erros, ainda assim a luz gradualmente invade meu entendimento e eu avanço em conhecimento do poder que operou em Cristo.

Nunca se render 

Que nunca abandonemos qualquer posição a que somos levados pela graça de Deus. “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste” (2 Tm 3:14). Se a abandonamos, isso é questionar a excelência da posição, pois como, então poderíamos provar nossa apreciação de seu valor como sendo o chamado de Deus? Isso se aplica a toda verdade que aprendemos. Se um Cristão não age como um filho de Deus, ele pode abandonar o entendimento do fato de que é um filho de Deus, ou ele pode até manter o pensamento de que é um, e sendo humilde, lançar-se na graça que o deu tal imerecido chamado. No primeiro caso ele escapa da correção, pois ele nega a responsabilidade, mas no outro caso ele aprende com a correção, embora esteja afligido por ela. Este desejo de escapar da correção negando a responsabilidade é um grande mal e vem de um estado de pouca comunhão, porque a alma tem sido preenchida imperceptivelmente com outras coisas, e a sensação da graça se tornou fraca. Tribulação ou mais mortificação se segue.

O lugar de poder 

Eu poderia tentar manter minha posição, mas de um jeito descuidado. Isso não seria poder e levaria a julgamento. Isso acontece quando há mais imitação dos outros do que aprender por mim mesmo. A posição de poder deve ser em espírito e energia de acordo com Deus, ou é meramente humana, o que é inútil. Eli é um exemplo. Sendo justamente um sacerdote, ele não tinha discernimento nem energia adequados para tal posição. O homem que não é fiel a Deus é fiel a qualquer outra pessoa.

Que não nos desviemos de uma posição para escapar das responsabilidades dela. Há direitos e privilégios inalienáveis e sempre existentes para a Igreja – privilégios dos quais ela pode perder o desfrutar pelo fracasso. Ainda assim, o arrependimento sempre nos coloca à porta aberta da possessão. A Igreja nunca perdeu seu direito às afeições de Cristo ou ao privilégio de Seu senhorio. No momento em que ela ocupa uma posição verdadeira, mesmo sendo seu estado cada vez mais baixo, está no poder adequado para ela. Desejo insistir nisso, que tomar minha posição correta, independentemente do fracasso anterior, é o lugar do poder. Poderia a alma fazer uma coisa pior do que procurar um lugar mais baixo do que aquele designado por Deus? Certamente não. E isso não é humildade.

Considere Esdras e Neemias 

Esdras e Neemias ansiosamente e sem hesitação retornam à posição para a qual Deus chamou sua nação. É verdade que eles também voltaram a Jerusalém despojados judicialmente do poder físico com o qual a nação já foi honrada. Mas, embora conscientes de tudo isso, ainda assim, eles confiantemente retomaram sua antiga posição com Deus e, embora houvesse muitos inimigos, enquanto eles a mantivessem, eles tinham poder e bênçãos. Alguns diriam a eles: “Não veio ainda o tempo” (Ag 1:2), e o resultado foi: “Olhastes para muito Eu lhe assoprei” (Ag 1:9). Mas quando eles foram admoestados e retomaram a obra, o Senhor disse: “desde este dia vos abençoarei” (Ag 2:19). Agora aprendemos aqui o que tem sido um mal ainda hoje, a saber, porque não somos capazes de apresentar uma oposição tão grande para o mundo quanto uma vez fomos autorizados a fazer, consequentemente dizemos que “a hora não chegou”. Estou persuadido que daí vem toda a nossa fraqueza.

Queremos aprender tudo para o que Deus nos chamou desde o princípio; nada menos do que a Sua vocação irá satisfazê-Lo, e abençoar-nos. Que nossa alma de fato aprenda que, se quisermos ter poder para servi-Lo, devemos reconhecer o lugar e tomar o lugar em que Sua graça nos coloca. Voltar para uma posição mais baixa ou permanecer assim é fazer com que o Senhor “assoprará o que trouxermos à casa”. A Igreja pode ser fraca e vacilante, mas ela é amada apesar de tudo, e ela apenas coroa seu pecado quando não o confessa. Se temos conflitos com espíritos malignos nos lugares celestiais, é porque estamos em lugares celestiais e temos comunhão com a vitória de Cristo sobre todo o poder do mal. A verdadeira alma sempre quer o sentido dessa vitória, e enquanto ela possui o serviço completo de Cristo e onde Sua graça nos estabelece, ela fica satisfeita e progride com energia. Mas se perdermos o nosso lugar, como estamos propensos a fazer nesta jornada sombria, nos ocuparemos em expressar nossa própria vitória em vez da de Cristo. Tais tentativas são insatisfatórias e tão impotentes que há um insensível mas decidido retorno ao mundanismo. Nada além da posição verdadeira é poder, pois nada mais é graça.

G. V. Wigram (adaptado)

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