Origem: Revista O Cristão – O Propósito de Deus para a Igreja

A Igreja nos Caminhos de Deus

Na primeira parte da Epístola aos Efésios, capítulos 1 e 2:1-10, a Igreja é apresentada em relação a Cristo em glória, de acordo com os conselhos de Deus. Isso prepara o caminho para uma visão muito diferente da Igreja – sua formação e testemunho na Terra, de acordo com os caminhos de Deus.

Há uma vasta diferença entre os conselhos de Deus para a glória e os caminhos de Deus na Terra. Compreendendo essa distinção, veremos que não apenas a Igreja tem um destino glorioso como unida a Cristo no céu, de acordo com o propósito eterno de Deus, mas também tem uma existência na Terra e um ótimo lugar nos caminhos de Deus aqui abaixo. É esse aspecto da Igreja que nos é apresentado em Efésios 2:11-22.

Judeus e gentios 

Para que possamos entender esse aspecto muito importante da Igreja, o apóstolo nos lembra a posição distinta mantida por Israel nos tempos que antecederam a cruz. Naquela época, eles desfrutavam de um lugar de privilégio ao qual o gentio era um completo estranho. Nos caminhos de Deus na Terra, Ele separou Israel dos gentios e deu a Israel um lugar de privilégio exterior especial. Os gentios não tinham tal posição no mundo, e as próprias ordenanças que regulavam a vida dos Judeus mantinham severamente os Judeus e os gentios separados.

Mas Israel falhou completamente em corresponder a seus privilégios e, como resultado, eles perderam, por enquanto, seu lugar especial de privilégio na Terra. O fato de Israel ter sido colocado de lado prepara o caminho para a maravilhosa mudança que ocorreu nos caminhos de Deus na Terra. Após a rejeição de Israel, Deus trouxe à luz a Igreja e, assim, estabeleceu um círculo inteiramente novo de bênção, totalmente fora dos círculos Judaico e gentio. Esse novo início se torna a ocasião de a graça de Deus fluir de uma maneira muito especial para os gentios. A chamada é dirigida aos gentios; não que o Judeu seja excluído do novo círculo de bênçãos, pois a Igreja é composta de crentes dentre Judeus e gentios.

Mas, para que os gentios participem da Igreja, deve ser em uma base justa. Portanto, a cruz é imediatamente trazida (v. 13). Pelo sangue de Cristo, os pecadores dentre os gentios são trazidos para perto de Deus, sendo transportados do local distante em que o pecado os havia colocado, em um local de proximidade – não uma mera proximidade exterior, por meio de ordenanças e cerimônias, mas uma proximidade vital que só é totalmente expressa no próprio Cristo, ressuscitado dentre os mortos e aparecendo diante de Deus por nós. Assim, é dito: “Em Cristo Jesus, vós já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. Nossos pecados nos afastam, porém o precioso sangue não apenas nos lava de nossos pecados; mas ele nos aproxima. O sangue de Cristo declara a enormidade do pecado que exigia tal preço, proclama a santidade de Deus que não poderia ser satisfeita com um preço menor e revela o amor infinito que poderia pagar o preço.

O corpo de Cristo 

Mas a Igreja não é simplesmente um número de indivíduos que foram “aproximados” (ARA), pois isso será verdade para todo santo comprado pelo sangue de todas as épocas. É preciso mais; Os crentes Judeus e gentios devem ser feitos “um” (v. 14). Isso também a cruz de Cristo realizou. A inimizade entre Judeus e gentios foi causada pelas ordenanças pelas quais o Judeu poderia se aproximar de Deus de maneira exterior, enquanto os gentios não poderiam. Mas na cruz, Cristo aboliu completamente a lei das ordenanças como um meio de se aproximar de Deus e criou um novo modo de se aproximar por Seu sangue. Tanto Judeus como gentios são levados a um terreno inteiramente novo em um plano imensuravelmente mais alto.

Mas mesmo isso não expressa a verdade completa da Igreja. O apóstolo nos diz ainda que não somos apenas “aproximados” e não apenas feitos “um”, mas que fomos feitos “um novo homem” (v. 15), “um corpo” (v. 16), habitados por “um Espírito”, por Quem temos acesso ao Pai (v. 18). Isso, de fato, apresenta toda a verdade da Igreja – o corpo de Cristo que, nos caminhos de Deus, está sendo formado na Terra.

Deus não está apenas salvando Judeus e gentios com base no sangue, Ele não apenas está reunindo tais pessoas em unidade, mas Ele as está formando em um novo homem do qual Cristo é a Cabeça gloriosa, os crentes são os membros do corpo e o Espírito Santo, o poder unificador. Isso é muito mais que unidade; é união. A Igreja não é simplesmente uma companhia de crentes em feliz unidade, mas uma companhia de pessoas que são membros de Cristo e umas das outras em íntima união. E o novo homem não é meramente novo em relação ao tempo, mas é de uma ordem inteiramente nova. Antes da cruz havia dois homens, Judeus e gentios, odiando-se e em inimizade com Deus. Agora, nos maravilhosos caminhos de Deus, “um novo homem” surgiu – um novo homem que abrange todos os santos da Terra, unidos por um Espírito a Cristo, a Cabeça ressuscitada e exaltada.

Três grandes verdades 

Conectadas com a formação da Igreja de Deus na Terra, há três grandes verdades às quais o apóstolo se refere: reconciliação com Deus, pregação da paz aos pecadores e acesso ao Pai por parte dos santos.

Primeiro, Judeus e gentios são reconciliados com Deus em um corpo (v. 16). Na cruz, Ele trabalhou tão maravilhosamente que ambos foram trazidos para perto d’Ele, e ambos foram trazidos para perto um do outro. Nada poderia expressar mais perfeitamente toda a remoção da inimizade do que o fato de os crentes Judeus e gentios serem formados em “um corpo”.

A segunda grande verdade é que o evangelho da paz é pregado aos gentios que estavam longe e aos Judeus que estavam dispensacionalmente próximos. Sem a cruz não poderia haver pregação, e sem a pregação não haveria Igreja. Cristo é visto como o Pregador, embora o evangelho que Ele prega seja proclamado instrumentalmente por outros. Lemos sobre os discípulos que “eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor” (Mc 16:20).

Há uma terceira verdade de grande bem-aventurança. Por um Espírito, ambos (Judeus e gentios) temos acesso ao Pai. A distância não é apenas removida do lado de Deus, mas também é removida do nosso lado. Pela obra de Cristo na cruz, Deus pode Se aproximar de nós, pregando a paz, e pela obra do Espírito em nós, podemos nos aproximar do Pai. A cruz nos dá nosso título para nos aproximarmos; o Espírito nos capacita a usar nosso título e, de forma prática, a nos aproximarmos do Pai. É pelo Espírito, mas é mais ainda, é por “um Espírito”, e, portanto, na presença do Pai, em tudo havia unanimidade.

Um templo santo – um edifício em progressão 

Até agora, vimos a Igreja como o corpo de Cristo, mas nos caminhos de Deus na Terra, a Igreja é vista em outros aspectos, dois dos quais são apresentados diante de nós nos versículos finais do capítulo (vs. 19‑22). Primeiro, a Igreja é vista como um “templo santo no Senhor”; segundo, como “morada de Deus”.

No primeiro aspecto, a Igreja é comparada a um edifício em progressão que cresce até um templo santo no Senhor. Os apóstolos e profetas formam o fundamento, sendo o próprio Cristo a principal Pedra angular. Durante toda a dispensação Cristã, os crentes são acrescentados pedra por pedra até que o último crente seja edificado e o edifício completo seja manifestado em glória. Este é o edifício do qual o Senhor diz em Mateus 16: Eu “edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno [Hades – TB] não prevalecerão contra ela”. Cristo é o Construtor, não o homem; portanto, tudo é perfeito, e apenas pedras vivas fazem parte dessa santa estrutura. Pedro nos dá o significado espiritual deste edifício quando nos diz que as pedras vivas são construídas como uma casa espiritual “para oferecer sacrifícios espirituais a Deus”, por um lado, e para anunciar “as virtudes [as excelências – JND] de Deus, por outro (1 Pedro 2:5, 9). Em Apocalipse 21, João tem uma visão do edifício completo descendo do céu, vindo de Deus e radiante com a glória de Deus. Então, de fato, daquele glorioso edifício, incessantes sacrifícios de louvor subirão a Deus, e um perfeito testemunho das excelências de Deus fluirá para o homem.

Uma casa concluída 

Então o apóstolo, ainda usando a figura de um edifício, apresenta outro aspecto da Igreja (v. 22). Ele vê os santos não mais como sendo construídos em um templo em crescimento, mas como formando uma casa já completa para “morada de Deus em Espírito”. Todos os crentes na Terra, em qualquer momento que seja, são vistos como formando a morada de Deus. Mas o apóstolo não diz apenas: “Vós sois morada”, mas “vós juntamente sois edificados para morada”. Ou seja, a habitação é formada por crentes Judeus e gentios “juntamente edificados”. A morada de Deus é marcada por luz e amor; portanto, quando o apóstolo chega à parte prática da epístola, ele nos exorta como queridos filhos a andar “em amor” e a andar “como filhos da luz” (Ef 5:2, 8). A casa de Deus é, portanto, um lugar de bênção e testemunho, um lugar onde os santos são abençoados com o favor e o amor de Deus e, assim abençoados, tornam-se um testemunho para o mundo ao redor. Em Efésios, a morada de Deus é apresentada de acordo com a mente de Deus, e, portanto, apenas aquilo que é real é contemplado. Outras passagens mostrarão como, infelizmente, em nossas mãos, a morada foi corrompida até que finalmente lemos que o julgamento deve começar pela casa de Deus.

Assim, neste capítulo, temos uma apresentação tríplice da Igreja. A Igreja é vista como o corpo de Cristo, composto por crentes Judeus e gentios, unidos a Cristo em glória, formando um novo homem para mostrar tudo o que Cristo é como o Homem ressuscitado, Cabeça sobre todas as coisas.

Então a Igreja é um templo crescente composto por todos os santos de todo o período Cristão, em que os sacrifícios de louvor ascendem a Deus e as excelências de Deus são manifestadas aos homens.

Por fim, a Igreja é vista como um edifício completo na Terra, composto por todos os santos a qualquer momento, formando a morada de Deus para bênção ao Seu povo e testemunho ao mundo.

H. Smith (adaptado)

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