Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 1
A Confissão de um Ladrão
Fé versus racionalismo (Lucas 23:33-43)
Não há exemplo mais marcante da graça de Cristo em toda a Escritura do que o do ladrão condenado à morte que estava pendurado ao lado de nosso Senhor numa cruz e que pediu Seu favor. Em todas as páginas da Palavra de Deus não se encontra nada mais comovente, pois ele era uma praga na Terra, e certamente não era adequado ao céu. Suas faltas o pregaram na cruz. Ele estava saindo do mundo em desonra e vergonha, um pecador em seus pecados, para encontrar a Deus. Ele estava a menos de seis horas de sua morte, e Cristo o encontrou e o salvou.
Não há cena na história do mundo como a que está diante de nós em Lucas 23. Há uma página na Palavra de Deus, e uma página na história do mundo do homem, que se destaca sozinha, é única, porque ali temos a morte do único Homem absolutamente sem pecado, imaculado e santo, ao lado de dois homens que eram pecadores. Um deles se torna o companheiro daquele Homem sem pecado por toda a eternidade. O outro teve sua chance, mas a perdeu. Entre esses três vistos aqui, cada um pregado em uma cruz, há uma diferença imensa. De Um deles posso dizer o seguinte; não havia pecado n’Ele, embora houvesse pecado sobre Ele. Então, chego ao homem que não tinha pecado sobre ele, embora houvesse pecado nele. E havia o terceiro desses homens, que tinha pecado sobre ele, e pecado nele. Então ele morreu. Não seja o companheiro eterno desse terceiro homem, eu imploro a você.
Nenhum pecado n’Ele
Você pode perguntar: “O que você quer dizer?” Um desses três não tinha pecado n’Ele, e ainda assim tinha pecado sobre Ele, quando foi pregado naquela cruz! Sim! Esse era Jesus. Ele era perfeito, pois era o Homem santo e imaculado. O encanto dessa cena é este: o ladrão confessa não apenas sua própria culpa e seu próprio pecado, mas faz uma confissão pública de sua fé em relação a Cristo. “Mas Este nenhum mal fez” (Lc 23:41), foi sua verdadeira e bendita afirmação. Esse homem reverteu o julgamento de todos; ele se destacou naquele dia em seu testemunho e em sua declaração sobre Jesus. Se você olhar atentamente para o que aconteceu antes, verá que todos estavam contra Cristo – Judas, Pilatos, Herodes, sacerdotes, escribas, povo, todos; não havia ninguém por Ele. Nenhuma alma sequer O defendeu em meio a toda aquela multidão naquele dia. Que cena! Traído por um falso amigo, rejeitado pelos verdadeiros amigos e abandonado por todos os Seus seguidores, Ele foi acusado pelos sumos sacerdotes, que instigaram o povo a exigir Sua morte. O governador estava contra Ele; o rei contra Ele; o mundo contra Ele; todos contra Ele!
Mas, por fim, chega um momento em que, ao Seu lado, um homem quase caindo nas garras da morte diz ousadamente: Ele é o Homem sem pecado, o Homem imaculado, eu me apegarei a Ele. Não digo que invejo o ladrão condenado à morte. Eu o admiro; e, mais tarde, em glória, direi a ele: “Obrigado, meu irmão, você defendeu o caráter do meu Salvador no dia em que todos estavam contra Ele.”
Ele perdeu sua chance
Foi uma cena maravilhosa; olhemos para ela um pouco. Você sabe que o Senhor havia sido levado perante Pilatos, que teve sua chance de receber Jesus naquele dia, mas a perdeu, assim como muitos homens hoje a perdem. O povo se aproximou, murmurando contra o bendito Senhor, e quando o fizeram, Pilatos disse três vezes: “Não acho n’Ele culpa alguma de morte. Castigá-Lo-ei pois, e soltá-Lo-ei”. Mas o povo não O deixou ir. Instigados pelos principais sacerdotes e anciãos religiosos, eles clamavam: “Crucifica-O, Crucifica-O”. Não duvido que Pilatos estivesse ansioso para deixar o Senhor ir; ainda mais porque, estando assentado no tribunal, recebeu um aviso de sua esposa, que disse: “Não entres na questão desse Justo” (Mt 27:19). Mas ele não deu ouvidos a essa mensagem; ele se deixou dominar pelo clamor do povo. Ele estava prestes a deixar o Senhor ir, quando aqueles que conheciam seu ponto fraco gritaram: “Se soltas Este, não és amigo de César”. César era o imperador romano. E quem era Pilatos? Seu governador (ARC); e Pilatos dependia de César; era sustentado pelo mundo. E eu gostaria de dizer a vocês que, na mesma medida em que somos apoiados pelo mundo, também temos medo dele. “Se soltas este, não és amigo de César”, foi o que fez pender a balança para Pilatos. Os amigos de César devem ficar do lado de César, enquanto os amigos de Jesus devem ficar do lado de Jesus. Naquele dia, todos ficaram do lado de César, e ninguém ficou do lado de Jesus. Talvez você pense: “Se eu estivesse lá, teria ficado do lado de Jesus”. Você tem certeza de que tem feito isso agora, hoje?
O julgamento errado
Lemos que todos estavam contra Jesus e, depois de Pilatos O ter condenado, Ele foi levado para fora daquela sala de julgamento. Eu não chamaria de sala de julgamento, mas de sala do julgamento errado, porque a justiça e o juízo, a misericórdia e a verdade, se separaram ali. Eles se separaram, e Ele, que era a Verdade, foi levado para morrer, sendo Simão, o cireneu, quem levava Sua cruz. E não duvido que fosse a cruz que havia sido preparada para Barrabás, outro ladrão. O homem que tinha sido condenado à morte; a sua cruz estava pronta, e quando os carcereiros desceram para a cela onde ele estava preso, não tenho dúvida de que Barrabás pensou que ele estava indo para a execução. Mas quando ele chegou à sala do julgamento, encontrou a multidão enfurecida ao redor do Homem sobre Quem tanto ouvira falar, e então ouviu a pergunta: “Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?” Com o ladrão e o Salvador lado a lado, não tenho a menor dúvida do que o ladrão pensava. A pergunta era se eles queriam Jesus ou Barrabás, e não tenho dúvidas de que Barrabás pensou: “Ora, é claro que não haverá dúvidas; eles escolherão Jesus, não um pecador como eu; não haverá chance para um homicida como eu. Eles não vão me deixar ir”. Acho que aquele homem ficou perplexo quando ouviu o grito: “Fora daqui com Este, e solta-nos Barrabás” (Lc 23:18).
Cristo foi então conduzido para fora da sala, a cruz colocada sobre os ombros do Salvador, e Ele saiu para morrer. Graças a Deus, Ele morreu; e Ele morreu por mim, eu sei, e por você também. Não acho que Barrabás soubesse o que estava envolvido naquela morte. Ao sair, várias mulheres choram e lamentam por Ele; mas Ele Se volta para elas e diz: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos. Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram!” (Lc 23:28-29). Ou seja, há um dia solene de retribuição chegando; não suponham que Deus tenha esquecido o fato de que Seu Filho foi morto. Você acha que Deus Se esqueceu de que Seu Filho estava presente nessa cena e que o mundo O rejeitou? Não; embora, em Sua paciência, Ele tenha colocado Seu Filho à Sua direita e dito: “Assenta-Te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110:1), Ele voltará. “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no Teu reino”, foi o que disse o ladrão; e Ele voltará. E assim o Senhor diz: “Eis que hão de vir dias em que… eles começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos” (vs. 29-30). Dificilmente se acreditaria que os homens apelariam à natureza para os esconderem de Deus; mas será assim, e que revelação é esta sobre o homem!
Quatro orações
São quatro orações mencionadas neste capítulo. A oração do ódio: “Crucifica-O, crucifica-O” (Lc 23:21); a oração do medo: (aos montes) “Caí sobre nós” (v. 30); a oração do amor: “Pai, perdoa-lhes” (v. 34); e a oração da fé: “Senhor, lembra-Te de mim” (v. 42). A oração do ódio foi atendida. Em breve virá a oração do medo: “Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos” (veja Apocalipse 6:15-17). Qualquer coisa para manter os homens fora da vista de Deus; qualquer coisa debaixo do Sol para mantê-los fora do alcance de Deus e da ira do Cordeiro. Eles colocarão qualquer coisa entre eles e Deus; mas tudo em vão, pois, como diz o Senhor aqui, “se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” (v. 31). O que você entende por isso? Quem era o Madeiro verde? Ora, Cristo, é claro. Seiva, vida, vigor e frutos, tudo era visto n’Ele; e Deus, olhando de cima, viu aquela única Árvore verde e frutífera, e enquanto olhava para todos os outros lugares, viu o quê? Árvores secas! Há muitas assim neste mundo hoje, deixe-me dizer. Uma árvore seca não tem vida. Cristo era a Árvore verde, sempre apresentando aquele frescor e frutos que agradam a Deus.
E o que eu posso tirar dessa figura para mim? Que por natureza eu sou uma árvore seca, e você também; não há vida em nós. Os pecadores são as árvores secas, e uma árvore seca é um bom combustível. “O que você quer dizer?” você pergunta. Uma árvore seca é um bom combustível, e é realmente isso que um homem em seus pecados se torna se for para o lago de fogo. “Que se fará ao seco?” é uma pergunta realmente séria. O Salvador diz: “Se Eu, a Árvore verde, estou passando por tudo isso, qual será o destino do pecador?” Se o Santo passou pelo julgamento de Deus porque Ele estava carregando os pecados dos outros, o que dizer do pecador em seus pecados? Seja quem você for, seja qual for a sua profissão de fé, ou a falta dela, você terá que encontrar-se com o Senhor em breve; e há aqui uma solene pergunta feita pelo Senhor: “Se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” Não houve resposta naquele dia; ela ainda virá.
