Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 1

O Homicida

Temos um retrato marcante da santidade e da graça de Deus em Seus tratamentos com o homicida em Números 35. Ele instrui Seu povo aqui, e em Deuteronômio 19, a separar certas cidades levíticas em ambos os lados do Jordão, “para que ali se acolha aquele que matar a alguém por engano”. A santidade de Deus é vista no fato de que Ele não protegeria o culpado (pois quando o caso fosse levado perante juízes e testemunhas competentes, o culpado deveria ser entregue). No entanto, a graça de Deus resplandece intensamente ao preservar o homicida não intencional dentro do refúgio, para que o vingador do sangue não o alcance. Aqui nos é apresentado, de modo figurado, o tratamento gracioso de Jeová para com Israel – a nação amada, porém cega, que é responsável diante d’Ele pelo derramamento do sangue de Cristo. Ele, em Sua graça, considera Israel como um “homicida”, e não como um “matador”, para ser restaurado no devido tempo à boa terra, a terra de sua possessão. O Senhor, quando crucificado, intercedeu pelos transgressores e considerou o ato como sendo por ignorância: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). E Pedro, ao trazer à tona o grande pecado deles em Atos 3, ecoa as palavras do seu Mestre: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a Seu filho Jesus, a Quem vós entregastes e perante a face de Pilatos negastes, tendo ele determinado que fosse solto. Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida. E matastes o Príncipe da vida” (At 3:13-15). Mas ele prosseguiu dizendo: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes” (v. 17).

Saulo de Tarso é, em muitos aspectos, uma figura da sua nação, especialmente nisso, pois ele disse: “A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1:13). Alguns que foram acusados diretamente por Deus pela morte de Jesus, testemunharam a defesa de Estêvão perante o Sinédrio, e foram entregues ao juízo de acordo com isso. Mas a nação como um todo, ou pelo menos o remanescente, é tratada por Deus como um homicida não proposital a ser restaurado.

A cidade de refúgio 

Quando o homicida chegava à cidade de refúgio, ele estava seguro sob os cuidados de Jeová; longe de suas possessões, certamente, mas preservado por Jeová. Isso descreve exatamente a posição de Israel hoje. Longe de sua possessão, mas com o olhar do Deus sempre fiel sobre eles, ainda são preservados como uma nação. Que testemunho impressionante para o homem que não crê na Palavra de Deus! Depois de todas as suas incomparáveis adversidades e da pesada disciplina sob a mão santa de Deus, depois de todo o ódio e perseguição dos arrogantes gentios, do oriente e do ocidente, eles permanecem. Por outro lado, onde está Moabe? Onde estão Edom, Amom, Assíria, Babilônia e outros? Homens podem escavar e descobrir as ruínas de seus palácios e fortalezas, mas como nações eles estão mortos e desaparecidos; há muito deixaram de existir. Mas Israel permanece como um povo tão distinto como sempre foram, em notável confirmação das próprias palavras do Senhor: “não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mt 24:34). O termo “geração” aqui deve ser considerado não como histórico, ou a beleza da passagem se perde, mas como moral; as palavras realmente garantem a preservação de Israel como um povo distinto até o fim, e até que toda a palavra profética se cumpra.

Os servos de Deus (os levitas que habitavam nas cidades de refúgio) estavam na mente de Jeová a respeito disso; eles sabiam que o homicida estava sendo preservado para a restauração final. Esse é o nosso privilégio como Cristãos. Nosso Deus não apenas nos diz em Sua Palavra o que Ele está fazendo por nós, nos trazendo para uma bênção maravilhosa diante de Si mesmo, mas também nos revela todos os Seus propósitos. E em passagens como Romanos 11, temos a revelação da mente divina a respeito de Seu povo terrenal. Deus ainda os restaurará; eles ainda possuirão a boa terra, não sobre um terreno de lei, mas de misericórdia. Podemos nos admirar de que Paulo, ao escrever sobre esses propósitos de Deus, tenha exclamado: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!” (Rm 11:33).

O sumo sacerdote 

É interessante notar que, quando o homicida era restaurado às suas possessões, “ali (na cidade de refúgio) ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão” (Nm 35:25, 28).

Enquanto Cristo continua Sua presente obra sacerdotal dentro do véu rasgado nas alturas, Israel não será restaurado. Enquanto Ele ministra para nós lá na presença de Deus, eles permanecem fora de suas terras, nos lugares para onde foram expulsos. Mas chegará o momento em que a obra presente de Cristo chegará ao fim (pois estaremos em glória sem a necessidade dela), e então Deus voltará Sua atenção mais uma vez para a semente de Israel.

Existem dois caracteres de sacerdócio pertencentes ao nosso Senhor Jesus, os quais é importante tê-los em mente: o de Arão e o de Melquisedeque. Ele não é sacerdote segundo a ordem de Arão, pois Seu sacerdócio não pode ser transmitido, mas as funções de Arão fornecem a figura do que Ele está fazendo agora em favor de Seus santos no santuário acima. Isso chegará ao fim, e então se seguirá o sacerdócio de Melquisedeque, que está diretamente ligado ao remanescente de Israel. O sacerdócio de Melquisedeque não foi caracterizado por sacrifício e intercessão, mas ele trouxe pão e vinho ao homem de Deus, e o abençoou em nome do Deus Altíssimo, possuidor do céu e da Terra.

Assim Cristo agirá no último dia. Ele virá para a bênção daqueles (Judeus) que irão permanecer ao Seu lado em um dia mau – os Seus vencedores. Ele os abençoará e os renovará, assim como o patriarca foi renovado no passado. Assim, enquanto o Senhor continua Sua presente obra de graça como Sacerdote na presença de Deus, Israel, como nação, permanece sem a bênção. Mas a bênção está reservada para eles, pela misericórdia de Deus. Ele “não rejeitou o Seu povo, que antes conheceu” (Rm 11:2). Então eles saberão e entenderão que o precioso sangue, derramado uma vez por seus pais, é o único que faz expiação pela alma, e é o único fundamento da bênção para eles, assim como é para nós. Zacarias nos fala sobre o luto deles naquele dia: “e olharão para Mim, a Quem traspassaram; e pranteá-Lo-ão sobre Ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12:10). O homicida naquele dia não tentará justificar seu ato, mas adorará a graça que cobre tudo.

W. W. Fereday

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