Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 1
Mulher, Eis Aí o Teu Filho
A citação que forma o título deste artigo vem de João 19:26, e foi uma mensagem dada por nosso bendito Senhor à Sua mãe enquanto Ele estava na cruz, mas antes de Seus sofrimentos durante as três horas de trevas. Uma declaração correspondente do nosso Senhor é dada ao apóstolo João no versículo seguinte – “Eis aí tua mãe!” Então está registrado que “desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa”.
Essas comunicações tinham a ver com os laços da natureza e, embora a linguagem e o significado não sejam tão profundos quanto algumas das outras coisas que nosso Senhor disse na cruz, ainda assim é uma das mais comoventes. Mais uma vez, somos compelidos a nos maravilhar com Aquele que pôde tratar com uma questão que exigia um equilíbrio perfeito entre pensamento e ação, e que pôde agir nesse equilíbrio perfeito tanto para a glória de Deus quanto para a bênção do homem.
Os laços da natureza
Várias vezes, na Palavra de Deus, somos lembrados de nossas responsabilidades para com aqueles a quem estamos ligados por laços da natureza. No início da história do homem, Adão foi responsável por não estar ao lado de sua esposa quando Satanás a tentou. Eva foi enganada; Adão não foi, e se ele estivesse lá (humanamente falando), poderia tê-la impedido de ceder às artimanhas de Satanás. Deus responsabilizou homens como Eli e Davi pela falta de disciplina e orientação adequadas para seus filhos, enquanto elogiou Abraão como alguém que haveria de “ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele” (Gn 18:19).
Mais tarde, no Novo Testamento, abundam exortações sobre a necessidade de relações domésticas corretas entre maridos e esposas, e entre pais e filhos. Os ordenamentos são especialmente fortes em relação àqueles que têm pais idosos. Paulo pôde dizer a Timóteo: “se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel” (1 Tm 5:8). Uma ordem semelhante é dada anteriormente no capítulo sobre filhos e netos serem responsáveis por “recompensar seus pais” (v. 4). Estar “sem afeto natural” (2 Tm 3:3) é um dos sinais dos últimos dias.
No entanto, como já dissemos, há uma aparente contradição em tudo isso na Palavra de Deus, e um equilíbrio que nosso Senhor manteve em Sua vida ao Se elevar acima de Seus relacionamentos naturais durante Seu ministério, e, ainda assim, reconhecendo esse relacionamento num momento em que (falamos com reverência) Ele poderia facilmente ter alegado Suas circunstâncias para deixar de lado o relacionamento.
“Os negócios deMeu Pai”
No início de Sua vida, nosso Senhor teve que dizer a Seus pais: “Não sabeis que Me convém tratar dos negócios de Meu Pai?” (Lc 2:49). Mais tarde, no casamento em Caná da Galileia, Sua mãe disse a nosso Senhor que eles não tinham vinho, sem dúvida esperando que Ele usasse Seu poder divino para fornecê-lo. Ele fez isso depois, mas não antes de ter respondido a ela como “mulher”, e não como “mãe”. Ela não tinha nenhum direito especial ao poder d’Ele simplesmente por causa de seu relacionamento natural com Ele. Em outra ocasião, quando multidões cercavam nosso Senhor, Sua mãe e Seus irmãos evidentemente esperavam ser conduzidos imediatamente por entre a multidão para vê-Lo. Mas Sua única resposta foi: “Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a executam” (Lc 8:21).
O apóstolo Paulo expressou essa mesma aparente contradição em seu ministério aos coríntios, dizendo-lhes que, “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1 Co 7:29-31). Mas isso dá ao crente licença para negligenciar um relacionamento natural? De maneira nenhuma. Alguém já expressou isso bem:
“A Palavra é necessária quanto a renegar tais relacionamentos. Pode surgir um conflito entre Cristo e esses laços, e então tudo deve ceder lugar a Cristo. Como ressuscitados com Cristo, pertencemos a outro mundo, e não a este; mas, como pertencentes a este mundo presente, o reconhecimento do que Deus estabeleceu faz parte da nossa vida Cristã. Deve uma esposa rejeitar seu marido, ou os filhos rejeitar seus pais? No fundo, há muita indulgência própria em tudo isso. Quando se rejeita aquilo que Deus instituiu, é o próprio “eu”, e não Cristo, que ocupa o primeiro lugar no coração das pessoas… Nunca perceberemos forte o suficiente o fato de que pertencemos a outro mundo, não a este; mas essa não é a questão, e sim o caminho daqueles que de fato pertencem a ele (isto é, ao outro mundo) de acordo com a Palavra.
Estava Cristo errado quando, após recusar toda conexão com Sua mãe enquanto estava engajado em Seu serviço – o qual, é claro e em todo o sentido estava fora de tais relacionamentos – quando Sua hora havia chegado, de forma positiva e demonstrativa, Ele deu testemunho do relacionamento agindo de forma tão comovente nele? É notável que isso tenha sido apresentado.
Há um desprendimento do poder de nossas circunstâncias e, às vezes, das próprias circunstâncias, seja por sermos chamados para fora delas pelo Senhor, seja por sermos expulsos delas pelas próprias circunstâncias. A ausência de afeições naturais é um sinal maligno dos últimos dias, mas devemos viver nos laços naturais como aqueles que não os possuem, a fim de agir neles a partir de Cristo. Aquilo que Deus estabeleceu quanto aos relacionamentos naturais, Ele sempre reconhece, e o faz com muito cuidado; mas entrou um poder que, visto que o pecado arruinou tudo, prevalece ou tornam o crente independente deles.” (J. N. Darby)
Retomando o tema do nosso artigo, é belo, mais uma vez, como nosso bendito Senhor e Mestre não reconheceu (isto é, não se deixou governar por) Sua mãe ou Seus irmãos durante Seu ministério terrenal. Fazer isso teria elevado Seus relacionamentos naturais acima da missão dada a Ele por Seu Pai, e concedido a Seus irmãos (que não creram n’Ele durante Seu ministério terrenal) um lugar que eles não mereciam, pelo menos não naquele momento.
Contudo, quando Ele estava suportando a agonia da crucificação e antecipando as horas de trevas, Sua graça e amor se elevaram acima de tudo. Como o Filho primogênito da família, Ele assumiu total responsabilidade pelo bem-estar de Sua mãe e a confiou aos cuidados de João. Só podemos nos curvar em humilde adoração e reverência à perfeição de nosso Senhor Jesus Cristo!
