Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 2

Cristo na Cruz

Tudo no início do Salmo 22 é declínio, e no final tudo é exaltação. Ele está repleto de sofrimento e gozo, mas principalmente do primeiro. A Pessoa que está diante de nós no Salmo é distintamente o Senhor Jesus. Há uma diferença entre este salmo e o que temos em Isaías 53 e nos evangelhos. Em Isaías, temos o bendito Senhor apresentado diante de nós como um Cordeiro, mas isso é abordado com o propósito especial de mostrar os diferentes sentimentos das pessoas que tiveram contato com Ele. Alguns se apegavam a Ele, outros se afastavam d’Ele. Nos evangelhos, temos o fato histórico de Seus sofrimentos, e em cada um há algo peculiar relacionado à narrativa. Em Mateus, o Senhor é associado a Israel como a descendência de Abraão, e há a citação deste Salmo: “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?”, quando Ele estava na cruz. Em Marcos, o Senhor Jesus é apresentado como o Servo, e as mesmas palavras são citadas. Lucas O apresenta como o Filho do Homem, e isso não é citado. Há um repouso peculiar em João, e ali temos o Senhor mais em Seu caráter divino. Encontrar a citação deste Salmo em Mateus e em Marcos, e não nos outros evangelhos, parece dar uma pista sobre o caráter dos sofrimentos de Cristo como Herdeiro da promessa e como Servo fiel na hora do sofrimento.

No Salmo, são os próprios sofrimentos que são mostrados; vemos ali os sentimentos íntimos, a profunda onda de aflição que se abateu sobre Sua alma. O título do Salmo tem um significado: “A corça da manhã”. As corças saem timidamente pela manhã – as precursoras da luz, mas desaparecem assim que o dia amanhece. Se em algum lugar do Velho Testamento a luz irrompe, é neste Salmo. Nos evangelhos, encontramos tudo o que foi feito para insultar nosso bendito Senhor, mas essa não foi a parte mais amarga de Seus sofrimentos. Tudo o que Ele sofreu da parte dos homens apenas deixaria intocada a questão do pecado no que se refere a Deus e à própria consciência. O pecado foi cometido diante do Deus infinito; quem quer que seja culpado de pecado é desagradável a Ele e exige Sua ira. Onde quer que haja pecado, deve haver juízo. Se examino a Escritura, descubro que o caráter de Deus é perfeita santidade. Se Aquele que é perfeitamente santo tem que tratar com o pecador, qual deve ser a consequência? Por menor que seja o âmbito a que eu reduza meu pecado, ele foi cometido contra um Deus infinito. Onde vemos o que é o pecado? No ímpio sumo sacerdote, que blasfemou contra o Filho de Deus? No monarca gentio, que sancionou a crucificação? Não; foi quando o juízo de Deus foi derramado sobre Ele pelo pecado do homem. Ele Se colocou como o Emissário do pecado, e é somente ali que obtemos a verdadeira medida do pecado.

Ele foi feito “pecado por nós” 

Quando ali Ele foi feito “pecado por nós”, Ele não teve de Deus um único raio de luz para fortalecê-Lo. Ele representava o pecado diante de Deus, e o sustento que Ele sempre teve de Deus agora deixava de fluir. “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?” Essas palavras têm um significado bem diferente na boca de Cristo do que em qualquer outra pessoa. Você já não usou essa linguagem muitas vezes quando Deus estava realmente te atraindo por Seu próprio amor, mas você estava com medo de confiar n’Ele? Você não se envergonha de pensar nisso? Mas na experiência de Cristo foi muito diferente.

A palavra “Eloi” na citação expressa proximidade – “Deus Meu”. Não é hebraico, mas sim siríaco. Essa expressão, dirigida Àquele que sempre esteve tão perto, tem em si uma força profunda, e o único momento em que Ele poderia ser abandonado por Deus foi este, quando Ele estava tomando sobre Si os nossos pecados. Ele sempre esteve sob a plena luz do favor de Deus, pois Ele era santo. Cristo não poderia ter sido vítima se não fosse santo e separado dos pecadores. Nada mostra a perfeita pureza e santidade do Senhor como este Salmo. É verdade que houve uma profunda agonia na alma quando Ele disse: “DEUS Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste? Por que Te alongas do Meu auxílio e das palavras do Meu bramido?” Mas quase imediatamente depois, Ele justifica a Deus: “Porém Tu és santo”.

A fonte divina 

Em que estado lastimável se encontrava o pobre Jó enquanto esperava por Deus! Mas esse é o contraste com Cristo aqui. É como se Ele tivesse dito: “Assumi este lugar de carregar pecados diante de Deus, e eu deveria saber qual é o preço”. Havia uma fonte dentro d’Ele que O capacitava a dizer: “Ainda que Me abandones, Eu não Te abandonarei”. Assim, a pureza essencial e a perfeição divina do que Ele era se destacavam em toda aquela profundidade de humilhação. Que contraste nós exibiríamos em tais circunstâncias! Se nada temos de Deus, nada temos. Embora haja em nós a fonte de água a jorrar para a vida eterna, dependemos da fonte divina para que ela jorre, e dependemos total e completamente de Deus. Não é assim com Cristo. Embora Ele tenha Se humilhado como Servo, Ele não estava limitado a isso (vs. 5-7).

Ele Se associa a Israel (v 6): “Eu sou verme”; isto é, “Eu sou uma oferta pelo pecado. Eu sou um verme e não um homem; indigno da menor atenção ou consideração. Deves afastar-Te de Mim. Tua santidade exige isso.”

É preciso ter alguma medida em relação ao pecado. Qual é a sua medida? Desde o seu surgimento no jardim do Éden até o seu ápice no homem do pecado (o anticristo), não há medida divina para o pecado senão na cruz. Se pensarmos no pecado em qualquer outro lugar que não seja aqui, obteremos uma medida humana de acordo com as circunstâncias.

Se um mero ser humano tivesse estado aqui como Cristo esteve, e sido abandonado por Deus, a fonte de água teria secado, e ele estaria pronto para invocar que as rochas o cobrissem; mas, em toda essa agonia, quando a medida completa do juízo foi derramada sobre Cristo, Sua perfeição permaneceu intocada, o que só tornou o resplendor mais visível.

O contraste pode ser ilustrado pela diferença entre um recém-nascido deixado ao relento durante toda a noite e um homem forte na mesma exposição. O que seria morte certa para um seria vencido pelo outro. Não havia comparação entre o primeiro Adão e Cristo. O primeiro Adão não era alguém para tratar com Deus. Como poderia? O que ele poderia resolver com Deus sobre o pecado? Ele não podia, mas Cristo podia; e Ele resolveu tudo, e agora não há mais medo de Deus dizer a um pobre pecador que crê: “Não; você precisa ir provar os sofrimentos que Ele suportou na cruz”. Foi o Cordeiro de Deus que sofreu ali, e foi para cumprir a ideia de misericórdia na mente divina que Ele veio: “Eis aqui venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade”. Quando olhamos para essa força do primeiro versículo, que tipo de sanção ele impõe sobre o pecado em um discípulo? Você fala de um pequeno pecado? Veja o que Cristo sofreu por ele. Nada fará com que o discípulo, o servo, esteja tão ansioso para estar livre do pecado quanto ver qual foi o juízo aplicado a ele na cruz. Não existe pecado pequeno para o filho de Deus que tem essa medida. Tudo em vocês, em seus círculos familiares, tudo ao seu redor, deve ser levado a julgamento, a sentença de morte deve ser proferida sobre tudo isso: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12:24).

Pare de fazer o mal, aprenda a fazer o bem 

O mais importante nos dias de hoje é aprender este grande princípio: “Cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem” (Is 1:16-17). Não apenas os pecados em geral, mas o pecado foi julgado na cruz de Cristo, e se é para Deus demonstrar Sua santidade da maneira mais eficaz, é no perdão do pobre pecador por meio desse juízo que foi proferido sobre Cristo, e não na condenação final do pecador. Nosso coração pouco entende o que Ele suportou naquela hora. Não há espaço em nossa mente para mais do que uma certa quantidade de tristeza, mas aquilo que qualquer outro não teria sentido, Ele ajuntou e sentiu perfeitamente.

É uma questão importante para nós: até que ponto a morte, quanto a tudo aquilo que é nocivo, é afastada de nossa mente. Uma sepultura, um leito de doente, é algo terrível para você? Ou você acha que é melhor partir para estar com Cristo? Um teste notável sobre esse ponto foi vivenciado na França durante a Revolução (1789). Uma pobre mulher estava morrendo em uma parte da cidade que já havia sido bombardeada por canhões e seria demolida no dia seguinte. A questão era: quem iria até ela? Alguém disse: “Eu irei”. Foi colocado diante dele o que isso envolveria; provavelmente a perda da própria vida. Mas ele disse: “Eu morri há 1.800 anos”. Ele foi e foi preservado (2 Co 1:9).

G. V. Wigram

Compartilhar
Rolar para cima