Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 2

Pai, em Tuas Mãos

João não menciona as três horas de trevas, nem o abandono com o amargo clamor que este provocou, predito no primeiro versículo do Salmo 22. Essas coisas não ilustravam particularmente a Deidade de Jesus, sobre a qual o Espírito de Deus havia levado João a dar tanta ênfase. O que a ilustrou foi o clamor triunfante com que Sua vida terrenal se encerrou. O Salmo 22 termina com as palavras: “Ele o fez”, e o equivalente no Novo Testamento é: “Está consumado”. Ele veio ao mundo com o pleno conhecimento de tudo o que Lhe fora confiado pelo Pai: agora o deixava com o pleno conhecimento de que tudo havia sido cumprido; nada faltava. O profeta havia predito que Jeová poria Sua alma “por expiação do pecado” (Is 53:10), e isso se cumpriu. Como consequência, a fé agora pode se apropriar da linguagem de Isaías 53:5 e torná-la sua; assim como o remanescente arrependido de Israel a adotará em um dia vindouro.

Nisso também nosso Senhor foi único. Houve servos de Deus que, como Paulo, puderam falar com confiança de terem terminado sua carreira, mas nenhum ousaria afirmar que havia dado o toque final à obra que estava em suas mãos; em vez disso, passaram a obra para aqueles que os sucederiam. A obra d’Ele era exclusivamente d’Ele, Ele a levou à sua perfeita conclusão. Ele podia avaliar Sua própria obra e anunciá-la como concluída. Todos os demais devem humildemente submeter seu trabalho ao escrutínio e veredito divino no dia vindouro.

Pleno domínio do Seu Espírito 

Tanto Mateus quanto Marcos nos dizem que, após clamar em alta voz, Jesus expirou. Parece que Lucas e João nos dão cada um uma parte dessa última declaração. Se assim for, deve ter sido: “Está consumado”; “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito”. A primeira parte ajuda a enfatizar a Sua Divindade, por isso João a registra; a segunda enfatiza a Sua perfeita Humanidade, em Sua dependência de Deus, por isso Lucas a registra. Fiel também ao caráter do seu evangelho, João narra o próprio ato da Sua morte de uma maneira especial: (Ele) entregou o Espírito” (Jo 19:30). O sábio do Velho Testamento nos disse: “Nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte” (Ec 8:8), mas aqui está Um que tinha esse poder. Ele é capaz, num instante, de elevar Sua voz com força inabalável e, no instante seguinte, de entregar o Seu espírito, cumprindo assim as Suas próprias palavras registradas no capítulo 10. É verdade que ali Ele falou sobre entregar a Sua “vida” ou “alma”, dizendo: “Ninguém Ma tira de Mim, mas Eu de Mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la” (Jo 10:18). Mas as duas declarações estão totalmente em concordância, pois todos sabemos que, quando o espírito humano deixa o corpo, a vida do homem na Terra cessa. Quando Deus chama o seu espírito, ele deve ir. Aqui está Um que tem pleno domínio sobre o Seu espírito; Ele o entregou ao Seu Pai e, assim, entregou a Sua vida.

Poder da ressurreição 

Então, depois de entregá-la, Ele a retomou na ressurreição, como vemos no próximo capítulo: o restante do nosso capítulo está repleto das diversas atividades dos homens, alguns deles Seus inimigos e outros Seus amigos, mas todos trabalhando juntos para que o determinado conselho de Deus se cumprisse, exatamente como Ele havia falado em Sua Palavra.

Os primeiros a entrarem em cena foram os Judeus, os homens que foram Seus inimigos mais implacáveis. Eles eram muito rigorosos com o lado cerimonial das coisas, e o sábado da páscoa, sendo um dia solene, tinha uma santidade peculiar aos olhos deles. Eles não podiam entrar na sala do julgamento (o pretório) para não se contaminarem, como vimos no capítulo anterior. Agora vemos que a ideia de os cadáveres de homens que eles consideravam malfeitores permanecendo expostos à vista dos homens e do céu nesse dia era abominável para sua alma ritualista. Eles estavam certos, é claro, pois assim havia sido ordenado em Deuteronômio 21:23, mas esse era o tipo de ordenança que eles gostavam de observar, enquanto negligenciavam assuntos mais importantes. Assim, deles veio o pedido para que a morte fosse acelerada pela quebra das pernas, de modo que indiretamente eles desempenharam seu papel no cumprimento de mais uma das muitas predições que se concentravam naquele grande dia em que Jesus morreu.

Poderíamos supor que a vida do Senhor se prolongaria muito além da dos outros, mas na verdade foi o oposto, justamente porque Ele deliberadamente entregou Sua vida. Se Ele não tivesse feito isso, o ato do homem ao crucificá-Lo não teria tido poder contra Ele. É significativo também que João não designe os dois homens como ladrões ou malfeitores; eles eram “outros dois” (v. 18). Não havia necessidade de mencionar o caráter particularmente ruim deles para acentuar o contraste. A grandeza do Filho divino é tal que basta dizer que eles eram dois outros homens.

A ordem de Pilatos aos soldados, a pedido dos Judeus, teve dois efeitos. Primeiro, enquanto os outros dois tiveram as pernas quebradas para acelerar seu fim, nenhum osso de nosso Senhor foi quebrado, e assim a Escritura se cumpriu. A referência deve ser ao Salmo 34:20 e às instruções dadas sobre o cordeiro pascal em Êxodo 12, repetidas em Números 9. Com isso concordam as palavras de Paulo em 1 Coríntios 5, quando ele diz: “Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Co 5:7).

F. B. Hole

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