Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 2
Tenho Sede
As últimas quatro das sete declarações que o Senhor Jesus faz na cruz parecem ocorrer em rápida sucessão. Aprendemos isso sobre Seu clamor de abandono e expressão de sede comparando os evangelhos de Mateus e Marcos com o relato de João. Mateus escreve que, quando alguns dos que ali estavam ouviram o clamor de abandono, disseram: “Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-Lhe de beber” (Mt 27:47-48).
O relato de Marcos é muito semelhante, mas nenhum dos dois registros se refere às palavras do Senhor: “Tenho sede”. Isso fica a cargo de João, que então confirma: “Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissopo, Lha chegaram à boca” (Jo 19:29). Assim, parece que o Senhor deve ter expressado Sua sede logo após Seu clamor de abandono, e isso nos mostra que as duas coisas estão intimamente ligadas. Uma diz respeito a Ele como o Homem que sofre nas mãos de Deus como oferta pela culpa e pelo pecado. A outra está em consonância com a apresentação que João faz d’Ele como o Filho de Deus, pois Ele diz isso sabendo que todas as coisas agora estavam consumadas, com o propósito de que a Escritura se cumprisse, e como holocausto.
Minha força se secou
É verdade que as palavras “Tenho sede” falam de uma sede física extrema. O espírito do Senhor Jesus nos Salmos antecipa isso: “A Minha força se secou como um caco, e a língua se Me pega ao paladar” (Sl 22:15). A sede é um dos terríveis sofrimentos físicos inerentes à crucificação, e a resposta do homem é oferecer um vaso “cheio de vinagre”. A experiência da sede do Senhor é, portanto, outro vislumbre comovente, no evangelho de João, dos sentimentos relacionados à Sua Humanidade. Mas o significado do que Ele diz sobre Sua sede é, antes de tudo, espiritual. É o anseio que o Espírito Santo leva o salmista a descrever, quando escreve: “A Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e Me apresentarei ante a face de Deus?” (Sl 42:2). Isso é intensamente pessoal para o Senhor Jesus (essa declaração é a única das sete que se refere somente a Ele). Está impregnada de um desejo que é exclusivamente por Deus.
Até então, as lágrimas são Seu pão dia e noite. Os ímpios dizem a Ele o dia todo: “Onde está o Teu Deus?” Ele derrama Sua alma dentro de Si. Ele é entregue pela multidão quando Seu desejo é conduzi-los à presença e à bênção de Deus. E, ó, como Sua alma é abatida! Mas, apesar de tudo, Sua confiança está em Deus, e Ele se lembra d’Ele desde a terra do Jordão, que significa “aquele que desce” e fala de morte, desde o Hermom, que sugere isolamento, até mesmo solidão, e desde Mizar, ou “pequenez”. Sem dúvida, o remanescente que fugir para esses locais geográficos no tempo da angústia de Jacó experimentará algo da mesma condição moral. No entanto, eles esperarão por seu Deus em segurança nas fendas das penhas e no oculto das ladeiras. Em contraste, o Senhor Jesus é exposto a todo o horror das três horas de trevas. A angústia está perto e não há quem ajude.
O bode expiatório
Ele é o bode expiatório que leva sobre Si todas as nossas iniquidades para uma terra à parte dos homens. Ele é verme, e não homem, e “todas as Tuas ondas e as Tuas vagas têm passado sobre Mim”. É o Seu desejo por Deus e a Sua dedicação à Sua vontade, expressos nas palavras “Tenho sede”, que revelam a Sua parte em tudo o que acontece aqui no seu belo aspecto de holocausto (Sl 42:1-7; Ct 2:14; Sl 22:6, 11; Lv 16:21-22; 1:7-9).
Mas a parte que os homens assumem é muito diferente. Perto do final do Salmo 42, há uma repetição das palavras de reprovação: “Onde está o Teu Deus?”. Isso reflete o que aconteceu na cruz. Nas primeiras três horas em que o Senhor Jesus estava pendurado ali, os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e anciãos, zombavam d’Ele, dizendo: “Confiou em Deus; livre-O agora, se O ama; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt 27:41-43).
OSeu clamor é a Deus
Eles dizem: “Este chama por Elias”. Eles não conseguem acreditar que haja qualquer ligação entre Ele e Deus. Ele é um crucificado e, portanto, um homem amaldiçoado. Na visão deles, Ele só pode estar clamando a Elias, o representante prometido por Deus, para que o liberte. Isso demonstra o quanto o desprezam, pois é inegável que Seu clamor é dirigido a Deus. Talvez eles se assustem com a intensidade do clamor. Na experiência deles com crucificações, ninguém que tenha permanecido pendurado em uma cruz por tanto tempo clamou com tanta força. Parece haver uma sensação de que isso é tão especial que pode, de fato, pressagiar a intervenção de Elias. Alguém (sem dúvida um que ouviu as palavras “Tenho sede”) vai buscar o vinagre, e os demais permitem que seja dado a Ele em vista dessa visitação. Assim, na melhor das hipóteses, trata-se de um presente fruto de curiosidade insensível, e na realidade equivale à zombaria e afronta em cima de afronta contra Ele. Seu espírito nos Salmos diz: “Por amor de Ti tenho suportado afrontas… as afrontas dos que Te afrontam caíram sobre Mim. Quando chorei, e castiguei com jejum a Minha alma, isto se Me tornou em afrontas… Bem tens conhecido a Minha afronta, e a Minha vergonha… Afrontas Me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo” (Sl 69:7, 9-10, 19-20).
O vinagre daquela época era um vinho azedo e ralo, mais propenso a irritar os dentes do que a matar a sede (Pv 10:26). Cerca de seis horas antes, quando Ele chegou ao Gólgota, os soldados “deram-Lhe a beber vinagre misturado com fel; mas Ele, provando-o, não quis beber” (Mt 27:34), sem dúvida porque o fel (ou mirra em Marcos) era uma espécie de droga primitiva, e Ele iria entrar em tudo o que Deus permitisse e Lhe impusesse. Posteriormente, “O escarneciam, chegando-se a Ele, e apresentando-Lhe vinagre. E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo” (Lc 23:36-37). Mas Ele não Se salva em nada. Ele está cumprindo a vontade d’Aquele que O enviou. Os homens não podem saciar a sede d’Ele, mas suas ações, introduzidas pelas palavras d’Ele, servem para cumprir o comovente comentário do Espírito d’Ele nos Salmos: “Deram-Me fel por mantimento, e na Minha sede Me deram a beber vinagre” (Sl 69:21).
Ele deu de graça água para beber
Em Sua vida, Ele Se deleitou em dar de graça aos homens e mulheres a oportunidade de beber de Sua graça, e ainda o faz hoje. “Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4:14 – ARC). “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7:37-38), e “E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17).
Que seja nosso desejo e propósito, como aqueles que receberam de Sua plenitude, retornar ao primeiro amor de Éfeso por Ele e nunca sermos como aquela mornidão de Laodiceia que Ele vomitará de Sua boca depois que a assembleia for arrebatada. Certamente deveria nos comover o fato de que, ao deixar esta vida, Sua última lembrança do comportamento dos homens para com Ele foi o gosto amargo da bebida de vinagre que Lhe deram quando Ele disse: “Tenho sede”. Temos apenas uma concepção muito limitada do que isso significou para a Sua santa e graciosa sensibilidade, mas podemos ter certeza de que Ele Se deleita em receber agora refrigério na forma de amor de corações transbordantes. Vamos então oferecer nossas libações de adoração e dedicação a Ele enquanto esperamos que Ele nos leve para estarmos com Ele na casa de Seu Pai, no céu.
E. L. Ferguson
