Origem: Revista O Cristão – Soberania e Responsabilidade

Graça e Soberania

A primeira alegação de Jó e o julgar a Deus 

Jó disse: “Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não tenho iniquidade. Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como Seu inimigo.  Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas” (Jó 33:9-11). Jó afirma que Deus não está sendo justo, pois ele se julgou inocente, mas Deus o tratou como inimigo e, usando Seu poder superior, pisou nele e em sua família.

Eliú responde: “Eis que nisso não tens razão; eu te respondo; porque maior é Deus do que o homem. Por que razão contendes com Ele, sendo que não responde acerca de todos os Seus feitos?”. Eliú defende os direitos soberanos de Deus.

Como soberano, Deus não nos deve nenhuma explicação para qualquer coisa que Ele faz. Na grandeza de Seu coração, Ele dá muitas explicações para muitas coisas que faz. Mas, no momento em que sinto que Ele me deve uma explicação por qualquer coisa, estou fora do meu lugar como um ser criado e estou no terreno da minha própria autossuficiência. “Por que razão contendes com Ele?” Graciosamente, Ele nos dá muitas respostas e deseja que procuremos respostas d’Ele para os porquês e para as razões da vida. Mas passamos para o lado errado da questão quando nosso coração as exige e pensamos que temos o direito a elas.

“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão” (Jó 33:23). Na tradução de J. N. Darby há uma nota de rodapé sobre a expressão “sua retidão”. Diz: “sua retidão em julgar a si mesmo”. Oh, por aquele “dentre mil” que ajudará os santos de Deus, trazendo-os à presença do Senhor para que eles se julguem, para que se vejam à luz de Deus. Eliú é esse tal. O resultado é um benefício notável para Jó, porque Eliú o leva à presença do Senhor, e ali ele se julga e recebe o benefício.

Segunda alegação de Jó e a justiça 

“Porque Jó disse: Sou justo, e Deus tirou o meu direito. Apesar do meu direito sou considerado mentiroso” (Jó 34:5‑6). Jó reivindica o direito de fazer seu próprio julgamento em uma questão entre ele e Deus. Isso é errado. Jó está alegando que Deus é injusto, porque ele é justo e, no entanto, Deus não o está tratando de maneira diferente do que está tratando os iníquos.

Eliú responde: “Que homem há como Jó, que anda com homens ímpios? Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus. Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade! Porque, segundo a obra do homem, Ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho. Também, na verdade, Deus não procede impiamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo”. Novamente Eliú defende os direitos soberanos de Deus. Deus é justo. (Deus ser justo e soberano é o fundamento de toda moralidade). Deus é soberano, e por isso nunca devemos julgar o que Ele faz. Deus nos julga; nunca devemos julgá-Lo.

Embora o homem não tenha o direito de julgar contra Deus, Eliú sustenta a verdade sobre Deus. Deus nunca faz impiedade; o Todo-Poderoso nunca perverte o juízo. Aquele em cujas mãos toda a Terra está segurada é o “Justo”. Seus olhos estão sobre o homem, vendo tudo o que ele faz. E quando Ele escolhe agir, Ele não estabelece um tribunal, mas age de acordo com Seus direitos e poder soberanos. Ele ouve os gritos dos aflitos e age em favor deles no julgamento dos ímpios.

A terceira alegação e rebelião de Jó 

Jó disse: “Suportei castigo, não ofenderei mais. O que não vejo, ensina-me Tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer” (Jó 34:31-32).

Eliú responde: “Virá de ti como há de ser a recompensa, para que tu a rejeites? Faze tu, pois, e não eu, a escolha; fala logo o que sabes Jó falou sem conhecimento; e às suas palavras falta prudência. Pai meu! Provado seja Jó até ao fim, pelas suas respostas próprias de homens malignos. Porque ao seu pecado acrescenta a transgressão; entre nós bate palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras”. Quanto mais Jó argumentava e multiplicava suas palavras, mais ele pecava. Eliú acusa Jó corretamente de recusar o julgamento de Deus em Seus caminhos com Jó. Deus deveria estar limitado pelo julgamento de Jó sobre o assunto?

Nesse ponto, Eliú introduz outro pensamento importante na conversa que o Senhor acrescenta mais tarde e que é crucial para conhecer e aceitar os julgamentos de Deus. Ele diz que Jó tem falado sem conhecimento e sem inteligência (vs. 35 – JND). Somente Deus, como soberano, é onisciente. Todos os julgamentos que Ele faz são baseados em Seu perfeito e completo conhecimento de tudo. O homem nunca sabe tudo. Consequentemente, o homem não tem o direito de questionar qualquer julgamento de Deus. Os julgamentos corretos dependem do conhecimento correto.

No capítulo 28, Jó apresenta um excelente e interessante tratado sobre sabedoria, concluindo com a afirmação: “E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência”. Podemos entender como Jó entendia a respeito da sabedoria e ainda temos que aprender a mesma lição que ele. Sabiamente, Jó temeu ao Senhor e, com inteligência, se afastou do mal. Deus diz que isso era assim logo no primeiro versículo do livro. No entanto, Jó condenou erroneamente a Deus. Por quê? Sabedoria e entendimento requerem conhecimento. Ninguém tem pleno conhecimento. Um homem adequadamente sábio e entendido é aquele que aprende a não confiar em seu próprio conhecimento, mas que sempre depende de Deus, o Único que tudo conhece. Ele é um homem que confia nos julgamentos de Deus e não em seu próprio entendimento ou sabedoria. Ao contrário de Eliú, os três amigos de Jó obtiveram conhecimento de suas próprias experiências, e não de Deus.

Quarta alegação e arrogância de Jó 

Na quarta vez que Eliú cita Jó, ele diz: “Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus? Porque disseste: De que me serviria? Que proveito tiraria mais do que do meu pecado?” (Jó 35:2-3).

Jó comparou como ele agiu com o modo como Deus agiu e julgou que suas ações eram mais justas que as de Deus. Tendo ido tão longe em seu pensamento, ele questiona a vantagem de ser justo, uma vez que, em sua mente, Deus não o tratou melhor do que tratava um homem pecador.

Ao responder, Eliú primeiro inverte as declarações de Jó, para que a questão seja vista sob a perspectiva de Deus, em vez da de Jó – um princípio muito útil a seguir na busca de entender as coisas espirituais. Jó dissera: Que proveito tenho para mim ser justo? Eliú respondeu: Que proveito tem para Deus se você é justo? O que Ele ganha? “Se fores justo, que Lhe darás, ou que receberá Ele da tua mão?”

Jó admitiu que não conseguia ver Deus no assunto. Ele procurou por Ele e não O encontrou. Por que Deus não estava saindo para tratar com ele cara a cara com Alguém para agir como juiz? A isto Eliú respondeu: “E quanto ao que disseste, que O não verás, juízo há perante Ele; por isso espera n’Ele.  Mas agora, porque a Sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera a arrogância. Logo Jó em vão abre a sua boca, e sem ciência multiplica palavras” (Jó 35:14-16).

A declaração de Eliú ilustra que Deus não é apenas soberano em Seus caminhos, mas em Seu tempo. Quando não vemos, então “espera n’Ele”. Eliú acusa Jó de arrogância. Enquanto Deus está corretamente irado com o homem, Ele é paciente e longânimo em Seus caminhos com ele. O homem usa esse tempo de paciência para se tornar ousado e arrogante em seus julgamentos e ações contra Deus.

Defendendo a justiça de Deus 

Depois de responder às afirmações específicas de Jó, Eliú continua a falar: “ao meu Criador atribuirei a justiça”. Para resumir o que Eliú diz: “Deus é mui poderoso”. “Eis que Deus é excelso em Seu poder; quem ensina como Ele?” “Deus é grande, e nós não O compreendemos”. “Deus maravilhosamente faz grandes coisas, que nós não podemos compreender”. Nos Seus caminhos conosco, Ele pode usar Sua criação “por vara, ou para a Sua terra, ou por misericórdia”. Deus “tem perfeito conhecimento”. O que podemos ensinar a Deus? Ele conclui: “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça. Por isso O temem os homens; Ele não respeita os que se julgam sábios de coração”.

D. F. Rule

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