Origem: Revista O Cristão – Soberania e Responsabilidade

Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!

A revelação de Deus ao homem não é apenas uma maravilha, mas também um milagre. O fato de um Deus infinito desejar revelar-Se a Si mesmo e Seus caminhos para Sua criatura finita, o homem, é uma maravilha, mas que Ele é capaz de fazer isso é um milagre. Deus Se revelou ao enviar Seu Filho a este mundo como Homem, mas também nos deu Sua Palavra. Na Sua Palavra, vemos um Deus infinito comunicando a verdade sobre Si mesmo – verdade que também deve ser infinita. No entanto, essa infinita verdade está sendo dada às criaturas finitas e na linguagem humana que elas podem entender! Embora as palavras possam ser entendidas, a Escritura nos diz que elas também são “palavras que o Espírito Santo ensina” (1 Co 2:13). Assim, embora as palavras sejam entendíveis, a verdade que elas transmitem está completamente além da compreensão do homem. Quando lemos a Palavra de Deus, maravilhamo-nos, por um lado, por sua simplicidade, a ponto que até uma criança possa entender o significado fundamental. Por outro lado, existem alturas e profundidades da verdade que vão muito além da capacidade do homem de raciocinar. Como alguém já disse: “Não há nada na Bíblia contrário à razão, mas há muitas coisas que estão além da razão”.

Verdades paralelas 

Ao apresentar a verdade a respeito de Si mesmo, Deus frequentemente nos dá duas verdades paralelas, ambas claras e definidas, e ainda incapazes de serem totalmente reconciliadas uma com a outra na mente humana. O assunto desta edição é uma delas – a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Existem muitas outras na Palavra de Deus. Mencionaremos duas, apenas para mostrar isso. Uma que nos faz admirar e adorar é a Pessoa de Cristo. Ele é “sobre todos, Deus bendito eternamente”, ainda assim Se fez “semelhante aos homens”. O homem não pode entender a união perfeita de Deus e o homem em uma Pessoa, mas podemos aceitá-la e adorar. Em um sentido mais prático, temos na Escritura a exortação a respeitar e nos submeter à regra e autoridade dos presbíteros e guias na assembleia local. Por outro lado, “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. Novamente, é difícil reconciliá-las na mente humana.

A mente do homem 

Onde isto nos leva? Antes de tudo, precisamos reconhecer que há revelações na Palavra de Deus que a mente do homem não pode entender completamente. Tentar fazer isso só nos levará ao erro, e quanto mais brilhante a mente de um homem, maior a probabilidade de ele cair em erro nas coisas de Deus, se ele confiar em sua mente natural. Verdadeiramente, Seus juízos são insondáveis, e Seus caminhos inescrutáveis (Rm 11:33). Estamos seguros na medida em que nos submetemos à linguagem e ao ensino da Escritura, mas o raciocínio nessas coisas nos levará a um caminho errado. Grande parte do erro que foi introduzido na Igreja não tem sido doutrina totalmente errada, mas distorções da verdade e falta de equilíbrio em lidar com elas. A esse respeito, G. V. Wigram fez estas excelentes observações:

“A heresia não é afastar-se da expressão da verdade, mas do Espírito da verdade; e é o espírito do herege que somos chamados a julgar como obra da carne, mais do que o fruto na forma de doutrina…”

“Se alguém, em vez de buscar a direção do Espírito Santo, se põe a manusear a Escritura segundo a própria mente, verá algo no livro que não está lá, ou o conteúdo do livro fora de sua ordem e importância relativa, etc. e aqui a heresia começa… ele não tratará a verdade como um homem guiado pelo Espírito trataria.”

“Assim como a heresia começa com a mente natural brincando com a verdade, o seu modo e meio de sucesso é levar os santos a ‘meditarem’ sobre pontos e questões difíceis, e fazê-los pensar em vez de orar”.

A verdade conhecida na comunhão 

Isso nos leva ao segundo ponto a ser feito, a saber, que Deus tem um propósito em apresentar Sua verdade ao homem dessa maneira. Não é que Deus deliberadamente apresente a verdade de maneira a ser difícil de entender. Pelo contrário, é Deus procurando mostrar ao homem que não se deseja uma apreensão intelectual da verdade, mas “como está a verdade em Jesus” (Ef 4:21). Deus quer nossas afeições e nosso coração, e Sua verdade é comunicada a nós, para que possamos aprender mais sobre Ele mesmo e andar em comunhão com Ele. É verdade que existem alturas e profundezas na Palavra de Deus que nunca podemos esgotar e sobre as quais podemos meditar por toda a vida. No entanto, o objetivo de tudo isso deve ser uma caminhada mais próxima do Senhor e um crescente senso de Quem Ele é. Quando a Escritura é lida da maneira correta e com a reverência devida ao Senhor, reconhecemos que somente o Espírito Santo pode interpretá-las para nós. Quando lida corretamente, a Escritura sempre nos leva de volta ao seu Autor. Quando encontrarmos algo que está além do entendimento humano, buscaremos direção do Espírito Santo e nos curvaremos em humilde adoração e louvor pelo fato de um Deus como Esse ter escolhido revelar-Se a nós.

Desde o início da história do homem neste mundo, Deus quis a companhia e a comunhão de Sua criatura. Sua Palavra revela Deus para que nosso entendimento d’Ele possa ser aumentado, ao mesmo tempo em que nos mostra uma verdade infinita e glórias infinitas que estão além da compreensão do homem. No entanto, ao caminhar em comunhão com Deus, podemos desfrutar e apreciar essas preciosas verdades, mesmo que não as entendamos completamente. Podemos praticamente aplicar essas verdades em nossa vida, porque estamos caminhando com Aquele que as deu para nós. “Nós temos a mente de Cristo” (1 Co 2:16)

W. J. Prost

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