Origem: Revista O Cristão – A Voz e A Vontade do Senhor
Poder e Proximidade
1 Reis 18-19
A demonstração de poder nunca revigora a alma, a menos que esteja ligada à comunhão individual com o Senhor; nesse caso, é a comunhão, e não o poder, que confere a bênção. A demonstração de poder dá efeito ao serviço, mas é seguida por depressão e desânimo, a menos que a alma seja mantida em secreta proximidade com o Senhor. Aprendemos isso no capítulo diante de nós – 1 Reis 18. Vemos Elias depois de testemunhar uma das mais maravilhosas demonstrações do poder do Senhor na Terra: “Então caiu fogo do SENHOR, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e o pó, e ainda lambeu a água que estava no rego” (1 Rs 18:38). Além disso, houve também uma grande chuva em resposta à oração de Elias. Houve uma dupla manifestação do poder de Deus: uma para corroborar a missão de Seu servo, a outra para abençoar Seu povo. No entanto, depois de tudo, encontramos Elias, no parágrafo seguinte, tão desanimado e temeroso que fugiu caminhando por um dia pelo deserto para salvar sua vida e pediu a morte para si mesmo! Nesse estado, o anjo do Senhor vai até ele para prepará-lo para uma jornada ao Monte Horebe. Então, não tendo comido nada por 40 dias e 40 noites, ele é instruído que o Senhor não está no vento forte que rasga as montanhas, nem no terremoto, nem no fogo, mas na “voz mansa e delicada”. Ele está naquela comunicação secreta, invisível e silenciosa, [o nome] que “ninguém conhece senão aquele que o recebe” (Ap 2:17). Quando Elias ouviu esta última, sua alma respondeu à inconfundível voz do Senhor; as ovelhas conhecem a Sua voz. As manifestações de Seu grande poder [o vento, o terremoto e o fogo] não tiveram tal efeito sobre ele. E essa é a nossa experiência, se ao menos tivermos distanciamento e abstração suficientes da natureza para observá-la. A alma deve estar em atitude de escuta para distinguir as notas peculiares da voz do Senhor. A atitude de escuta é moralmente figurada pela posição de Elias no monte de Deus – sozinho, sem alimento e subsistindo apenas da provisão de Deus para ele. É a solitude com Deus em Horebe, sem o sustento da natureza, que é a verdadeira preparação para o julgamento e a instrução espiritual.
Demonstrações de poder
Nas histórias do povo de Deus nas Escrituras, encontramos que a humilhação e o desastre sucedem imediatamente a algum sinal ou demonstração do poder de Deus a favor deles. Por que isso? Simplesmente porque ser exaltado é sempre perigoso, a menos que a alma seja simultaneamente mantida consciente da necessidade de dependência de Deus. Quando os discípulos disseram ao Senhor que até os demônios estavam sujeitos a eles, Ele respondeu: “alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10:20). O que Deus é para mim é maior do que qualquer coisa que Deus faça diante de mim.
Tão logo termina o cântico para a maravilhosa libertação do Egito, os filhos de Israel começam a murmurar por causa de Mara. De que lhes vale agora a grande demonstração de poder na travessia do Mar Vermelho? Devem reconhecer sua dependência de Deus como um socorro bem presente em tempos de angústia. O grande livramento provou a eles o valor d’Ele, mas Ele mesmo, e não a prova, é a única bênção segura em todos os momentos de necessidade. Portanto, havia a necessidade de que eles fossem levados a tais circunstâncias provadoras.
Quando Davi atinge o ápice da importância real, ele enumera o povo, mas em sua humilhação, ele aprende sobre Deus de uma maneira que nunca havia conhecido antes. Em sua queda em relação a Bate-Seba, ele havia aprendido a profundidade da restauração de Deus, então agora ele aprende, na hora da humilhação, uma revelação muito mais completa de Sua mente do que jamais tinha antes conhecido. Não que seja bom cair, mas a graça de Deus é algo maior para minha alma do que os atos de Seu poder e, portanto, Davi avançou mais em momentos de arrependimento do que jamais fez em qualquer época de honra e glória. Paulo encontrou mais força para sua alma na comunicação: “Minha graça te basta”, do que em toda a evidência da glória que ele vira no terceiro céu.
Dependência e amor
A fonte de força e bênção para o homem está na dependência de Deus. Uma manifestação de poder tem a tendência de me tornar independente de Deus, como se eu tivesse o poder do meu lado. Há sempre um desejo de poder na mente natural, porque o pensamento do homem desde a queda é que, se ele tivesse poder, faria melhor por si mesmo do que Deus faria por ele. O homem não negou, a princípio, em sua natureza, o poder de Deus. Ele desconfiava de Seu amor, e como Seu poder, sem amor, não podia ser confiável, havia também desconfiança no poder, mas ao mesmo tempo, sempre desejado.
Os homens podem reconhecer o poder de Deus de forma abstrata, mas Seu amor – jamais. Por isso, buscam o poder para concretizar aquilo que o amor deles por si mesmos lhes faria, e não o que o amor de Deus faria por eles. Eles não têm fé. O homem usaria qualquer poder emprestado e se gloriaria pessoalmente nisso; consequentemente, no momento em que o homem se envolve com o poder de Deus sem estar em comunhão com Ele, esse poder se torna uma armadilha deixando sua alma estéril e infrutífera. A consciência de que o Poderoso me AMA e está ao meu lado é o verdadeiro revigoramento da alma. Quando Elias ouviu a “voz mansa e delicada”, ele voltou ao seu trabalho como um homem onipotente. Quando Davi estava na eira de Araúna, o jebuseu, ele estava em espírito e inteligência mais avançados do que nunca. Quando Paulo disse: “sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias… para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Co 12:9-10), ele alcançou o ápice da glória moral.
Gosto de ver o poder de Deus para magnificar Seu nome, mas quanto mais faço isso, mais desejo perceber em uma proximidade invisível que Ele é meu Deus. O último é sempre mais valioso para mim do que o primeiro. Por acaso não vimos, repetidas vezes, dons e poderes distintos de Deus se tornarem uma armadilha para a Igreja e para os possuidores deles? A alma pode facilmente se ocupar mais com a manifestação do que com o coração d’Aquele de Quem ela veio.
A percepção interior de poder
O ensino poderoso me abençoa na medida em que posso perceber o amor de Cristo, do qual o ensino é a exposição. Se estou ocupado com a exposição, como eu poderia estar com um poema, isso é algo intelectual e não espiritual. Mais tarde, se descubro que preciso dos resultados da exposição, descubro que a recebi e senti o poder dela sem me apropriar dela como sendo os próprios sentimentos do coração de Deus para comigo. A consequência é que estou em pior situação do que se nunca tivesse ouvido, pois eu sou humilhado quando pensei ter conquistado algo. O verdadeiro poder, afinal, consiste na percepção interior que ele produz, não na sua demonstração exterior. Paulo preferia falar cinco palavras inteligíveis do que possuir o dom de línguas como uma mera demonstração de poder. As pessoas às vezes se maravilham com as manifestações do poder de Deus, como se desconhecessem totalmente a maneira e a grandeza desse poder em sua própria alma. Um lugar indevido é dado àquilo que a natureza pode apreender mais facilmente, pois a natureza sempre olha de fora para dentro, e não vice-versa.
Que sejamos espirituais o suficiente para reconhecer que todos os dons e poderes de Deus são dados, para a Igreja, a partir da Igreja e em favor da Igreja, mas que também possamos conhecer a “voz mansa e delicada”, a comunhão secreta, o elo invisível que deve ser nosso verdadeiro recurso, em vez de qualquer demonstração de poder.
Girdle of Truth, Vol. 5
