Cuidado Fraterno e Ofensa Pessoal

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Cuidado Fraterno e Ofensa Pessoal

Mateus 18
por George Cutting

Mateus 18 – A pergunta feita pelos discípulos no primeiro versículo deste capítulo levou o Senhor a falar do estado moral adequado àquele reino. Como modelo adequado do espírito que Deus procurava naqueles que pertenciam a ele, Ele colocou no meio deles uma criança e, em resposta à pergunta deles, disse: “Aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus”. Mansidão e humildade – pequenez aos nossos próprios olhos, qualquer que seja a nossa insignificância aos olhos dos homens – eram os equivalentes do que era verdadeiramente grande aos olhos de Deus. A Tua mansidão”, disse Davi, “me engrandeceu” (Sl 18:35).

Mateus 18:10-14 nos dá os pensamentos do Senhor a respeito desses pequeninos, e Suas palavras são severas para aqueles que os fazem tropeçar. Na verdade, o “ai” (v. 7b) que Ele pronuncia contra o Seu próprio traidor é expresso quase na mesma linguagem que aquele pronunciado sobre aquele que viesse “escandalizar” os Seus pequeninos. De um deles, Ele diz: “Ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído!” e do outro: “Ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt 26:24; 18:7). Quão constante é o cuidado que deve ser encontrado em nós, portanto, para que, mesmo involuntariamente, não façamos nada que venha ser causa de tropeço, ou mesmo venha desencorajar, o mais fraco dos Seus!

Em Mateus 18:15 o Senhor aborda outro lado do assunto. Ele não está mais alertando Seus discípulos contra ofender os outros, mas dando instruções sobre qual deve ser o comportamento deles se um irmão os ofender. “Se teu irmão pecar contra ti”. O espírito de graciosa consideração pelo bem-estar dos outros deve caracterizar sua conduta sob todas as circunstâncias, exatamente o oposto do espírito daquele que disse: “sou eu guardador do meu irmão?” Em Mateus 18:8-9 somos instruídos a não fazer nenhuma concessão para nossas próprias mãos, pés ou olhos que cause escândalo. A maior severidade deve ser demonstrada em tal caso, até mesmo cortar ou arrancar o membro ofensor, é como se o Senhor estivesse dizendo: “Vocês não conseguem ser muito severos consigo mesmos quando vocês erram, e não conseguem ser muito cuidadosos em sua conduta para com os outros.” Quão natural é agirmos de maneira diretamente oposta a isso! Qualquer quantidade de consideração que estejamos prontos a demonstrar para conosco – as desculpas mais inteligentes podem ser apresentadas no mais curto espaço de tempo, como paliativo para nossos próprios fracassos, mas não falta indignação justa se os fracassos dos outros estiverem em questão.

É digno de nota que a ofensa pessoal entre irmãos é o primeiro elemento perturbador mencionado nas Escrituras em conexão com a reunião dos santos ao nome do Senhor Jesus; que aqui passa a estabelecer da maneira mais simples e explícita qual deve ser a nossa linha de conduta em tais circunstâncias. Consideremos cuidadosamente estas importantes comunicações. “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só” (v. 15 – ARA)[1]. Observe bem, em primeiro lugar, não se deve fazer pouco caso da ofensa: “vai argui-lo”. No evangelho de Lucas (cap. 17:3) é afirmado ainda mais fortemente do que isto: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe”. O curso natural poderia ser evitá-lo e não dizer nada a ele sobre sua culpa; ou poderíamos estar determinados em nossa própria mente a suportar o dano com longanimidade para com o ofensor, e, como às vezes é expresso, “vida que segue”. Isso pode, à primeira vista, parecer muito plausível e ter a aparência de graça da minha parte, mas omite um item muito importante a considerar, a saber, a condição espiritual de meu irmão ofensor; e quem quer que possa elogiá-lo, certamente não é a maneira do Senhor tratar o assunto. Além disso, ficar longe de meu irmão pode deixar um sentimento ruim em meu próprio coração; devo eu descansar sabendo que a consciência de meu irmão faltoso está contaminada? Veja Levítico 19:17,18, – “Não aborrecerás teu irmão no teu íntimo; mas repreenderás o teu próximo e, por causa dele, não levarás sobre ti pecado. Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo”. Devo ir até meu irmão e expor claramente sua culpa diante dele; pois se ele quiser ser verdadeiramente recuperado, isso deve ser por meio do exercício da consciência, e o julgamento de seu estado diante de Deus. “Vai argui-lo” são palavras que não podem ser confundidas. Não é nem mesmo: “Vá e escreva- lhe um bilhete”. Ai de nós! Quem pode medir o mal que ocorreu entre o povo de Deus por causa disso mesmo, seja por ignorância quanto à mente do Senhor sobre tais assuntos, ou por deixar de agir de acordo com isso quando há conhecimento dela. Enviar o que considero uma carta muito fiel pode ao mesmo tempo poupar meus sentimentos e satisfazer meu orgulho; mas Aquele que nos conhece muito, muito melhor do que nós mesmos, diz claramente: “Vai argui-lo”.
[1] N. do T.: Em Mateus 18:15 o verbo em grego “έλέγχω” (elegchō) é traduzido na maioria das versões em português como “repreender”, mas a melhor tradução seria “arguir” (ARA) ou “questionar”, enquanto em Lucas 17:3 o verbo no grego é “επιτιμάω” (epitimaō) também traduzido como “repreender”, mas com um sentido de “censurar severamente”.

Então, novamente, que sabedoria e graça estão incorporadas nas próximas palavras: “Entre ti e ele só”! Todavia, não é, infelizmente, muito comum discutir uma ofensa pessoal de forma um pouco mais pública do que isso? Talvez haja algum irmão que sabemos que não tem uma relação muito amigável com aquele que nos feriu. Muito provavelmente esse irmão dará ouvidos à história das ofensas que sofremos; e o perigo é, em nosso egoísmo, ir até ele, embora, se considerássemos o bem-estar de sua alma, seria a última pessoa na assembleia a quem tal coisa deveria ser confidenciada. Mas, para nós, é melhor compartilhar a história da nossa queixa com outros que possam estar prontos a simpatizar conosco e a nos dizer quão vergonhosamente temos sido tratados, e coisas do gênero, do que ir e procurar “ganhar” aquele que nos fez uma ofensa. Como assim? É temeroso não estarmos totalmente pesarosos de ser capaz de infligir um castigo a nosso irmão, diminuindo-o na estima dos outros. Mas é obediência à Palavra agir assim? É o espírito de Cristo? Certamente que não é. Será que isso não é apenas outra forma (embora mais sutil) de manifestação da mesma carne que atuou em nosso irmão que nos ofendeu?

A seguir vem uma frase da mais profunda importância para nós: “se te ouvir, ganhaste a teu irmão”. Isso não nos revela o segredo do porquê devo contar a ele sua falta e do porquê isso deve ficar apenas entre ele e mim? É “ganhar” meu irmão. O Senhor havia pouco antes (Mt 18:12) falado de Sua própria busca entre os montes pela ovelha perdida, e de Seu gozo quando a ovelha perdida foi trazida de volta; para que, sem qualquer dúvida, possamos ver o valor que Ele atribuiu a alguém dos Seus, e que possamos aprender a agir em relação a eles adequadamente. Observe aqui que nada é dito sobre a reparação dos meus erros. O Senhor não diz que “se ele te ouvir, todas as tuas ofensas serão reparadas”, mas: “se te ouvir, ganhaste a teu irmão”. Sem dúvida, se a graça realmente opera nele, se ele é realmente “ganho”, um dos primeiros frutos disso será um desejo ardente de reparação desses danos; mas a garantia disso não deve ser o motivo que me leva a ir até ele. Deixando meus erros com o Senhor, devo buscar a bênção de meu irmão. Mas a intenção de “ganhá-lo” colocará, necessariamente, minha própria alma em exercícios mais profundos. Se, em verdadeiro amor por ele, eu me empenhar em sua recuperação de maneira justa, que vigilância e cuidado piedosos serão exercidos em mim! Com que seriedade e desejo fervoroso devo implorar por ele diante de Deus! Quando um pássaro sai da gaiola, qualquer mão rude ou voz discordante pode afastá-lo ainda mais; mas quão grande é o cuidado e a cautela exercidos por quem realmente deseja trazê-lo de volta ao alimento e ao abrigo! Se minha missão a meu irmão fosse apenas para magoá-lo, a tarefa poderia ser facilmente realizada sem um mínimo de exercício; mas se quiser ganhá-lo, então a graça deve operar tanto nele quanto em mim.

Mas agora avançamos um passo adiante. Suponhamos que os esforços mais bem-intencionados para restaurar meu irmão se mostrem infrutíferos. O que fazer então? Devo, portanto, presumir que ele está daqui em diante sem possibilidade de recuperação? Não é assim. Como posso saber se a minha maneira de lidar com ele não foi a causa do meu fracasso? Ou talvez a nossa conversa tenha feito com que ele descobrisse que eu atribuí à sua conduta o que ele considera uma opinião injustificável, ou atribuí-lhe motivos que ele tem consciência que nunca os teve. Nesse caso, eu deveria apenas ter dado a ele o que ele considera uma base justa para resistir a mim, e tê-lo deixado mais duro do que o encontrei. Devo, portanto, agora levar comigo mais um ou dois, para que “pela boca de duas ou três testemunhas, toda palavra seja confirmada” (v. 16). E mesmo que isso se mostre infrutífero, outro passo ainda está para ser dado – a assembleia deve ser informada. Se depois de tudo isso o ofensor ainda manifestar obstinação – se o arrependimento não for operado nele, a palavra então é: “que ele seja para ti como um dos gentios e um publicano” (JND); pois não há tribunal de apelação mais elevado para o santo na Terra do que os “dois ou três” reunidos ao nome do Senhor (Mt 18:18- 20).

Mas há outro perigo no qual, se não estivermos muito atentos, qualquer um de nós poderá facilmente cair. Eu poderia ir até o irmão que me ofendeu, não tanto com o desejo de “ganhá-lo”, mas para satisfazer minha própria consciência, de uma maneira dura e legal, de que agi biblicamente em relação a ele. Suponha tal caso em que eu vá “argui-lo”; mas em vez de achá-lo impenitente e duro, ele está completamente quebrantado. Ele reconhece abertamente que me ofendeu e mostra todos os sinais de genuína contrição. Mas o que se segue? Infelizmente! Estou mais preocupado com o dano que sofri do que com a restauração de meu irmão a uma feliz comunhão comigo. As dores do orgulho ferido me estimulam, e deixo claro, com tristeza, que preferiria que meu irmão recebesse a disciplina dos impenitentes, em vez do perdão dos arrependidos. A graça operou nele, mas não em mim, e em meu coração eu não o perdoo.

Agora, o que se segue neste capítulo parece ser dirigido a tal caso. Vamos examiná-lo. Em Mateus 18:21, Pedro faz esta pergunta ao Senhor: “Quantas vezes meu irmão pecará contra mim e eu lhe perdoarei? Até sete vezes?” E a pergunta é respondida com: “Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete” (v. 22). E então (pela expressão “por isso” – v. 23) Ele conecta esta declaração com a parábola do senhor misericordioso e do servo impiedoso. Dois casos de devedor e credor são apresentados diante de nós na parábola. O primeiro devedor deve ao seu rei “dez mil talentos”. No entanto, após a confissão da dívida e a vontade expressa por parte do devedor de satisfazer as exigências do seu credor, toda a dívida, por mais imensa que fosse, é imediatamente perdoada. O mesmo servo sai da presença de seu gracioso senhor e encontra um companheiro que lhe deve “cem dinheiros [denários – ARA][2]. Ele se lança sobre ele e, sufocando-o, exige pagamento imediato. O devedor pobre confessa a legitimidade do crédito e dá a conhecer a sua vontade de satisfazer as justas exigências do seu credor. No entanto, o que encontramos? Não há nenhuma misericórdia demonstrada, nenhuma tolerância exercida; ele o lançou na prisão “até que pagasse tudo o que devia” (v. 30).
[2] N. do T.: Apenas para comparação, considerando que o denário era o salário de um dia de trabalho e que o salário mínimo em 2021 é de R$ 1.100,00, o denário valeria hoje R$ 36,67 e a dívida do conservo (100 dinheiros) seria de R$ 3.667,00. O talento valia 6.000 denários, ou R$ 220 mil, e 10.000 talentos (a dívida do servo malvado) equivaleriam a cerca de R$ 2.200.000.000,00 (2,2 bilhões de reais), ou seja a dívida do servo malvado era 600 mil vezes maior do que a do seu conservo e demoraria aprox. 165 mil anos para pagá-la a um salário de um denário ao dia.

Agora observe bem o que se segue, pois está repleto de instruções solenes e salutares para nós. O restante dos servos, nos é dito, vendo tal comportamento “contristaram-se muito” (v. 31) e levam a notícia ao seu mestre, que convoca o servo ingrato à sua presença e trata esta repreensão de forma mais fulminante: “Servo malvado”, ele diz, “perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?” (Mt 18:32-33). E então é acrescentado: “seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia” (v. 34).

A seguir, o Senhor aplica a parábola dizendo: “Assim também vos fará meu Pai celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (v. 35). Nem é preciso dizer que esta parábola não fala da salvação da alma, mas dos princípios do governo do Rei em Seu reino – princípios tão aplicáveis ao verdadeiro possuidor quanto ao mero professante. É um fato imutável que na cruz Cristo assumiu para toda a eternidade as consequências dos pecados de cada crente; mas quanto à nossa conduta neste mundo, é um princípio inalterável no governo de Deus que “tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. (Gl 6:7). Outro princípio amplo de Seu governo é expresso no Salmo 18:25-26: “Com o benigno Te mostrarás benigno; e com o homem sincero Te mostrarás sincero; com o puro Te mostrarás puro; e com o perverso Te mostrarás indomável”. E novamente, em Mateus 5:7: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”. Agora, qual de nós, ao rever sua história passada, seja como santo ou pecador e, tendo em mente as consequências governamentais de tudo o que foi feito e dito, pode dizer: “Eu não necessito de misericórdia governamental?” É preferível que cada um de nós sinta que precisa mais da misericórdia demonstrada ao devedor de dez mil talentos e dizer de todo o coração:

Nada além de misericórdia
É para mim indispensável;
Nada além de misericórdia,
Plena, gratuita e afável!

Lembremo-nos, então, se formos tentados a mostrar um espírito duro, impiedoso e implacável para com nossos irmãos, que embora, pela graça de nosso Deus, Ele não Se lembre mais de nossos pecados e iniquidades, ainda assim, de acordo com Seu governo, “com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mt 7:2). “Porque o juízo será sem misericórdia para aquele que não mostra misericórdia. A misericórdia se gloria sobre o juízo” (Tg 2:13 – JND). Tenhamos em mente aquela preciosa exortação aos santos de Éfeso: “Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4:32).

Não é significativo que o capítulo que nos instrui sobre o Centro ao qual devemos ser reunidos (Mt 18:20) seja tão semelhante, no âmbito do seu ensino moral, ao capítulo que nos dá a base da nossa reunião, isto é, a verdade do um só corpo? (Ef 4). Em Mateus 18, como vimos, o espírito de humildade de uma criança e de consideração graciosa pelo bem-estar dos outros é apresentado a nós como aquilo que deveria sempre nos caracterizar. Em Efésios 4:2-3 a exortação é: “com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. Conta-se de um homem cego que, quando lhe perguntaram por que sempre carregava uma lanterna à noite, ele respondeu que, sendo ele próprio incapaz de ver, a luz não era, portanto, para evitar que seus próprios pés tropeçassem, mas para evitar que outros tropeçassem nele. Que o Senhor mantenha cada um de nós andando “como filhos da luz” (Ef 5:8b); e então, não apenas nossos próprios pés serão impedidos de tropeçar, mas também não seremos ocasião de tropeço para outros. Pelo contrário, que o nosso cuidado uns pelos outros aos olhos de Deus seja cada vez mais evidente (2 Co 7:12; 1 Co 12:25). Lembrando que Aquele que era o “Misericordioso” era também o “Fiel” (Hb 2:17), e que Aquele que era perfeitamente “santo” era igualmente “inocente” (Hb 7:26), nunca procuremos mostrar misericórdia às custas do princípio divino e da santidade prática, nem confundamos dureza e aspereza com firmeza e fidelidade.

G. Cutting

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