Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo
2 Coríntios
Em meio aos temores e advertências do Espírito a respeito das Igrejas, podemos observar que Ele está alarmado por elas por diversos motivos, expressos em diferentes epístolas e por diferentes apóstolos.
- Ele os adverte especialmente a respeito do Judaísmo, isto é, da religiosidade, ou da observância de ritos e ordenanças. Esse temor é expresso nas cartas à Galácia, a Colossos e a Filipos.
- Ele teme por eles em relação à atuação de uma mente infiel, a mente que, corrompida pelo raciocínio, nega os mistérios. Isso é visto em 1 João 4:1; 2 Pedro 3:3-4.
- Ele também teme por eles devido ao abuso da graça, ou licenciosidade, a negação prática da piedade enquanto se vangloriam da graça e da liberdade. Isso é visto em 2 Pedro 2 e em Judas.
- Ele também teme o mundanismo.
É essa última característica do temor que preenche a mente do Espírito em relação aos santos ou às Igrejas, e que molda o ministério apostólico, que me chamou a atenção em relação a 2 Coríntios.
Trata-se de um tipo específico de temor. Não é uma apreensão de religiosidade, infidelidade ou licenciosidade corrompendo as Igrejas; é algo formalmente distinto de cada uma dessas apreensões. O estilo grego pode ter exposto os coríntios especialmente a uma simples atração mundana, às pretensões de um homem de refinamento, posição e independência, que possuía muito na carne; isto é, por natureza e por circunstâncias, que era atraente e ostentoso. Isso era mundanismo.
O temor em relação a Corinto não se devia à influência religiosa ou judaizante. Tampouco era (pelo menos na segunda epístola) proveniente da ação de uma mente infiel, ou dos caprichos de uma natureza impura e lasciva, mas sim ao “deus deste século [mundo – TB]” que o apóstolo temia.
Um certo homem parece ter ganho atenção, alguém que possuía muito mais, tanto por natureza quanto por circunstâncias, do que o apóstolo; e os santos de Corinto foram movidos com isso. Ele era, creio eu, como se diz na linguagem moderna, um cavalheiro. Tinha uma bela aparência e uma fortuna independente. Possuía muitas vantagens desse tipo; e os coríntios estavam sob essa má influência – em certa medida, haviam sido enganados. Estavam olhando para as coisas segundo a aparência exterior. Estavam tolerando um homem que se vangloriava de si mesmo, que os dominava e que se aproveitava de algumas vantagens mesquinhas e mundanas que possuía por natureza e circunstâncias para se sentir importante.
Tal era a má condição contra a qual o apóstolo teve que contender. A afeição e a confiança em relação a ele haviam diminuído em certa medida, pois ele não possuía tais vantagens para se vangloriar. E certamente ele tinha a firme intenção de não se envolver com tais coisas. É verdade que ele seria independente, assim como era o outro, mas isso deveria advir do seu trabalho com as próprias mãos, não de rendimentos da fortuna, como costumamos dizer. E embora tivesse certas coisas das quais poderia se orgulhar na carne, ele se gloriaria, antes, em suas fraquezas. Ele seria “fraco em Cristo”, isto é, em comunhão com Aquele que foi “crucificado em fraqueza”, para que toda a sua força fosse espiritual, ou seja, a força que vinha da ressurreição.
Esse homem aproveitou-se das vantagens naturais que possuía, atribuindo a si a importância e o valor que tais coisas têm no mundo. E alguns dos santos foram corrompidos. Mas contra tal associação, Paulo protesta pois, no capítulo 6, ele diz: “Não vos prendais a um jugo desigual”. E o modo de agir de Paulo é exposto mais detalhadamente nos capítulos 10 a 12, apresentando o seu próprio caminho como contrário ao do desse homem.
E ao fazer isso, ao se oferecer como testemunha prática de um caminho diferente daquele do homem do mundo, podemos notar estes detalhes:
- O apóstolo se recusa a conhecer a si mesmo, ou a ser conhecido pelos santos, a não ser segundo a sua medida no Espírito, e não como era por natureza ou na carne.
- Ele se gloria apenas em suas fraquezas ou em dignidades que o separam de toda estima mundana, como seu êxtase no paraíso; pois o mundo não entenderia tal honra.
O apóstolo se apresenta como alguém assim, em contraste com o homem que se gloriava na carne. Bem podemos entender quão difícil é segui-lo por um caminho tal como esse, na disposição de ser fraco para que possamos ser fortes; em sua decisão de conhecer a Cristo na fraqueza da Sua cruz, para que toda a força que ele conhecesse pudesse ser como a da ressurreição (2 Coríntios 13:4).
Ouso dizer que alguns foram tentados a menosprezar o ofício ou apostolado de Paulo, porque ele não tinha a mesma vantagem, segundo a carne, que os outros apóstolos tinham. Ele não havia estado com o Senhor nos dias da Sua carne; e em sua própria carne ele tinha um espinho. Isso pode tê-lo exposto ainda mais à observação daqueles que julgavam segundo a carne. Mas o apóstolo estava disposto a que seu ministério ou ofício permanecesse sem o reconhecimento de nada que o mundo pudesse apreciar. Ele valorizava apenas o poder de Deus, o poder do Espírito que acompanhava seu ministério e que era capaz de influenciar corações e consciências, poder que o ligava ao Senhor na vida ou ressurreição.[5]
[5] Essas características do ministério de Paulo mostram como a carne, com todas as suas vantagens, é agora excluída da ideia divina de ministério. ↑
Todos os sinais de fraqueza segundo a avaliação humana se reuniram ao redor do bendito Senhor no dia de Sua crucificação: a deserção e a negação por parte daqueles que deveriam ter permanecido com Ele, a inimizade do homem em todas as formas em que pôde se expressar, o abandono de Deus, toda a malícia e o propósito de Satanás. Essa foi a plena demonstração de tudo o que havia de fraco, miserável e desprezível na avaliação do mundo. Ninguém estava a favor de Jesus, tudo estava contra Ele, e até mesmo a natureza parecia se unir contra Ele. Mas Paulo desejava que seu ministério estivesse em plena sintonia moral com o d’Ele.
De um modo geral, quanto a esta epístola, eu diria que ela poderia se distribuir da seguinte forma:
Capítulos 1-2:13. Nesta passagem, o apóstolo fala sobre suas provações no evangelho e responde às objeções feitas a ele por não ter visitado Corinto uma segunda vez.
Capítulos 2:14-7:4. Isto é um parêntese. O apóstolo apresenta seu ministério em várias de suas características.
Capítulo 7:5-16. Aqui o apóstolo retoma e continua o ponto de onde havia parado no capítulo 2:13. Ele expressa seu regozijo nos coríntios e na graça que havia neles.
Capítulos 8-9. Isto é bastante incidental.
Capítulos 10-13. O grande e principal propósito da epístola ocupa estes capítulos. O apóstolo contempla o caminho de um certo mestre prejudicial que havia adquirido influência em Corinto, e insinua o fruto dessa influência; em grande medida, também, exibindo seu próprio caminho como um mestre, em contradição com aquele que então corrompia os santos.
Acredito que isso pode ser lido como uma análise geral da epístola.
Gostaria de observar que o elogio do apóstolo aos coríntios no capítulo 7, anterior à sua ampla e fervorosa repreensão nos capítulos 10 a 13, pode nos lembrar da maneira como o Espírito Se manifesta em Seus discursos às sete igrejas em Apocalipse; pois em cada uma delas há um início com um elogio e, em seguida (quando necessário), um aprofundamento na repreensão e na condenação.
