Origem: Livro: Breves Meditações sobre os Salmos

Apêndice 3: O Efeito Moral dos Salmos na Nossa Vida

Essas breves meditações são um esforço para extrair dos Salmos tanto as experiências da alma como os eventos de onde elas surgiram. Mas são apenas esboços ou linhas gerais. E assim preferiríamos tê-los; pois não devemos pensar pelos outros. Nossa comunhão como santos não é a do cego guiando o cego, nem é a do que vê guiando o cego, mas é a de filhos da luz caminhando juntos sob a graça comum do único bendito Senhor e Autor da luz; e a mente de um irmão deve dar ocasião a outros para se exercitarem a si mesmos na verdade, na dependência do Espírito Santo que habita neles; reconhecendo, além disso, o dom ou a graça de alguns para ensinar ou exortar; como está escrito: “o que ensina esmere-se no fazê-lo; ou o que exorta faça-o com dedicação” (ARA).

Mas alguns são impelidos a obter conhecimento. Eles estão sempre educando a mente. Seu modo exige um esforço contínuo e atua como uma pressão constante. Mas o apóstolo tinha outro método. Ele desejava que o mestre agisse o mínimo possível como mestre. Embora pudesse chamar a si mesmo de “mestre dos gentios” (1 Tm 2 – ARA), ele falava mais como um amoroso companheiro ou irmão. “Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados, isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, tanto vossa como minha” (Rm 1:11-12). “Falo como a filhos”, também foi sua palavra.

E esse estilo do apóstolo era apenas uma expressão distante daquele do próprio Grande Mestre. Como Paulo indica quando diz (2 Co 10): “vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo”. Pois isso nos permite conhecer o estilo do Senhor, por assim dizer, como um Mestre. E é abençoado saber que esse era o estilo do Filho de Deus no nosso meio. Ele queria revestir o coração de Seus discípulos com uma percepção de proximidade com Ele. Ele não tratou com eles como um patrono ou benfeitor, como o homem trata o homem (Lc 22:25). O homem estará pronto o suficiente para conceder benefícios se puder ocupar o lugar de reconhecida superioridade. Mas o Senhor Jesus traz aquele que é Seu dependente para perto d’Ele. Ele assentou-Se ao poço ao lado da pecadora cujo espírito Ele procurava preencher. Esse favorecimento foi feito à maneira dos homens? Essa era a condescendência de um benfeitor?

Creio que é algo celestial o apreender essa mente ou estilo em Cristo. Mas temos que ser admoestados, bem como confortados. Se temos esse modo no Grande Mestre para observar, temos o nosso próprio modo, como Seus discípulos, para considerar e ordenar.

Tem sido dito, e é muito importante para a consideração de nossa alma, que “devemos tomar cuidado como lidamos com a verdade que não é sentida[12].
[12] N. do T.: A expressão inglesa “unfelt truth”, que traduzimos como “a verdade que não é sentida” é a verdade que conhecemos, porém que não sentimos, ou acreditamos, e que, por consequência, não tem qualquer impacto em nossa conduta, caráter ou vida espiritual. C. M. Machintosh escreveu: “Deus nos deu a Sua Palavra para formar nosso caráter, governar a nossa conduta e moldar o nosso curso. Se a Palavra não tem uma influência formativa sobre nós, é loucura pensar em acumular uma quantidade de conhecimento bíblico.”

Um tempo de paz é um tempo em que a mente pode vir a fazer concessões a si mesma e manejar o conhecimento de forma despreocupada ou especulativa. Mas o conhecimento não é divinamente alcançado, a verdade não é espiritualmente aprendida, se a mente tiver esse conhecimento como uma especulação, ou como proposições, que o intelecto digere e com os quais se ocupa.

Há o perigo, hoje em dia, de tornar a Bíblia “fácil”. O caráter claro e completo da revelação em nossa dispensação é um de suas grandes distinções. Isso é verdade, e uma verdade muito abençoada. “Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem”, disse o Senhor. Mas ainda assim a facilidade com que o conhecimento divino agora pode ser alcançado tem sua armadilha e seu perigo. Podemos ficar satisfeitos com a conquista em si, sem sermos despertados, como deveríamos, a andar naquelas afeições mais ricas e naquele poder moral mais profundo, que é o único consistente com nossa medida ampliada de luz e entendimento.

A Igreja em Corinto era abundante em conhecimento (1 Co 1:5), mas seu andar era tão não-espiritual que o apóstolo não os trataria como se tivessem conhecimento (1 Co 3:1). E isso nos mostra como o Senhor abomina o ocupar-se com verdades não sentidas. No céu pode haver ignorância ou falta de conhecimento, mas não a possessão de uma verdade não sentida. Os anjos são criaturas celestiais, mas confessam sua ignorância por seu desejo de saber (1 Pe 1:12). Eles ignoram certas verdades, mas não são desinteressados a respeito elas. Portanto, homens justos e profetas foram ignorantes, mas não desinteressados (Mt 13:17; Lc 10: 24; 1 Pe 1:10). E, na pessoa do patriarca Abraão, vemos como alguns da antiguidade, em dispensações de menos luz e conhecimento comunicado, tinham afeições tão corretas que o Espírito os levou além da medida da estatura de sua época.

Falando de Abraão, o Senhor diz: “Abraão, vosso pai,  exultou por ver o Meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (Jo 8:56). Sua “alegria” era a condição inicial ou prévia de sua alma. Diz-nos que ele se interessou pelos anúncios que lhe foram dados a respeito de Cristo. Eles eram comparativamente poucos e fracos; mas cativaram sua alma. Os vislumbres foram poderosos. E o Senhor honrou tal afeição e deu ao Seu servo uma visão mais completa. “Abraão, vosso pai, exultou por ver o Meu dia, e viu-o”. E então, como lemos mais adiante, “e alegrou-se”. Ele usou corretamente o conhecimento que obteve, pois o havia buscado corretamente. Suas afeições estavam envolvidas na busca desse conhecimento e não se esfriaram ou amorteceram quando o encontrou.

Aqui estava o conhecimento buscado e usado na devida ordem. Oh, como o coração pode dizer, oh, que haja mais disso dentro de nós e entre nós!

Um pouco de conhecimento, com exercício pessoal de espírito a respeito dele, é melhor do que muito conhecimento sem o exercício pessoal. Como diz o provérbio: “Abundância de mantimento há na lavoura do pobre”. Pois os pobres aproveitam ao máximo o seu pouco. Eles usam a pá, a enxada e o enxadão; eles capinam, aparam e cuidam de sua pequena horta de vegetais. E sua diligência tira muito proveito dela. E devemos ser esses “pobres”, sempre usando a divina Escritura, como eles conduzem sua lavoura, e aproveitar ao máximo o nosso pouco. Pode ser que nos alimentemos apenas de leite, mas se usarmos nossa diligência para deixar de lado a malícia, as hipocrisias, as invejas e coisas do gênero, estaremos realmente nos alimentando e crescendo (1 Pe 2). E, por causa disso, muitas vezes encontramos muito mais aroma de Cristo, naqueles que têm menos conhecimento, pois deles é essa “lavoura dos pobres” (Pv 13:23).

“Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos”. Temos motivos para dizer uns aos outros: “Falo como a sábios, julgai o que digo”. E especialmente, em um pequeno trabalho como este, tendo em vista o coração do Senhor Jesus e de Seus santos, haverá necessariamente muito que só pode ser alcançado pelo sentimento. Quem não experimentou, algumas vezes, ao meditar nos caminhos do Senhor, emoções vívidas retratadas em um Salmo; enquanto, em outras ocasiões, procuramos em vão os mesmos traços e, talvez, nos perguntamos, como eles já foram tão brilhantes diante de nós? Pode ser que a alma de alguém que tem o hábito de meditar muito no Senhor, relacionaria um versículo dos evangelhos a um Salmo inteiro; e ao praticar um determinado ato, ou ao sofrer uma certa indelicadeza, encontraria uma expressão para seu coração a Deus em uma determinada porção deste Livro. E outro, de acordo com a medida de sua apreensão espiritual, se referiria a outra porção de uma conotação diferente. Isso não poderia acontecer com qualquer outra parte da Escritura. Pois este Livro não é de doutrina, mas das experiências da alma.

Que nada nestas meditações seja permitido impedir qualquer dos valores desse Livro! Pois elas visam apenas ser a companheira das meditações dos santos, se porventura, por meio do Espírito, puderem ajudar no seu gozo e luz no Senhor.

O presente é um momento em que muitos estão correndo de um lado para o outro para aumentar o conhecimento de todos os tipos. E isso deve ser uma advertência para nossa alma; pois o santo sempre tem que vigiar contra o espírito dos tempos. E nestes tempos atuais de luz e conhecimento (embora possa ser conhecimento de Deus), ainda assim devemos lembrar que não é apenas o alimento, mas a digestão, que nutre. O animal limpo, sob a lei, ruminava. E o Espírito de Deus, pela sabedoria de Salomão, disse: “Achaste mel? Come o que te basta; para que, porventura, não te fartes dele e o venhas a vomitar” (Pv 25:16).

E nosso próprio Senhor, posso acrescentar, nos instrui a saber como devemos cultivar o conhecimento divino ou o conhecimento da Escritura. Pois, ao responder perguntas, Ele nunca parece estar satisfazendo curiosidades, mas Ele aborda as indagações, como alguém que tinha o olhar voltado para a alma do inquiridor, e não apenas o Seu ouvido aberto à sua pergunta. Suas palavras: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora”, mostram-nos que Seu propósito não era transmitir informações, como falamos, mas orientar a consciência e alimentar a mente renovada de acordo com sua crescente capacidade. E isso é divino. Todos os outros questionamentos e coleta de conhecimento serão apenas a atividade vã do mero intelecto humano ou “ateniense” (At 17:21).

Mas acima de tudo, amados, gostaríamos de lembrar que, com nosso conhecimento, precisamos buscar e cultivar aquela fé que se apropria do que conhecemos, que faz com que esse conhecimento se torne nosso e nos dá alegria pessoal e interesse por ele. Esse é o ponto de maior bênção para nós. “mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram”. Porque é fé que assim se apropria de Deus – que torna o Bendito e Sua plenitude nossos, o nosso Lar. E isso é algo de grande valor para nós. Deus é um Lar para nós – Ele é nosso. Nos é dito que habitamos n’Ele. Um lar se torna o próprio símbolo do devido estado de nossa alma ao pensar em Deus. E somente a fé nos dá isso que é de maior valor para nós. Pois quem não sente o encanto de um lar? Como dizemos: “Lar é lar, por mais simples que seja”. Instintivamente nos apropriamos de tudo o que existe nele. A mobília pode ser de má qualidade, mas é nossa. Esse é o pensamento que o coração preza. Tudo o que vemos nos lembra dos nossos direitos, das nossas conexões, dos nossos deleites. E assim “lar é lar”. E assim é com o nosso Deus. A fé faz d’Ele um Lar para o coração. O conhecimento mobília a casa, mas a fé vê tudo, seja mais ou menos, como o nosso próprio lar.

Oh, pelo aumento da fé! Um escriba pode ser muito instruído; ele pode olhar para a casa da glória e falar de seu custo, falar dos troféus de Davi e das cortinas de Salomão, que pendem ali; mas o tempo todo ele pode ser apenas um visitante. Ele pode passar por toda essa grandeza, sem a fé que se apropria, sem que sua alma carregue a sensação de que ele está em casa nesse rico lugar. Enquanto outro pode ter menos capacidade de desdobrar essas cortinas e decifrar esses troféus, ou de pesar o ouro e a prata da casa, mas, ainda assim, pode possuir aquela fé preciosa que se apropria abençoadamente de tudo o que vê, seja muito ou pouco, e assim o torna não um visitante, mas um filho em casa, na casa de Deus.

E oportuna, mais do que oportuna, nos dias de hoje, é a voz de alguém dita em outros dias: “Queres saber se os assuntos contidos na Palavra de Cristo são coisas reais? Então nunca as leia apenas por conhecimento. Procure por alguns raios da glória e do poder de Cristo em cada versículo. Não considere nada como conhecimento, a não ser que isso esteja temperado com alguma revelação da gloriosa presença de Cristo e de Seu Espírito vivificador. Não discurse sobre verdades espirituais por mera conversa, mas tenha em mente o promover a edificação. E não use os deveres por mero costume ou serviço, mas para uma comunhão mais íntima com Deus.”Henry Dorney’s Contemplations.

Essa é a graça que podemos bem almejar: “Senhor: Aumenta-nos a fé” (ARA).

Que possamos ser como o barro na mão do divino Oleiro! Que não estejamos à disposição do homem para sermos o que seus pensamentos, sua sabedoria ou sua religião nos tornariam; mas na mão do Senhor, ali permanecendo, para ser moldado por Sua verdade e Espírito, segundo Sua mente, e mantido até o fim na “simplicidade que há em Cristo”; e então, a tempo, ser removido da casa do Oleiro, para ser colocado como vasos de Seu louvor no santuário de Sua glória para todo o sempre. Sim, Senhor Jesus!

Louvai ao SENHOR!
Louvai a Deus no seu santuário;
Louvai-o no firmamento do seu poder.
Louvai-o pelos seus atos poderosos;
Louvai-o conforme a excelência da sua grandeza.
Louvai-o com o som de trombeta;
Louvai-o com o saltério e a harpa.
Louvai-o com o adufe e a flauta;
Louvai-o com instrumento de cordas e com flautas.
Louvai-o com os címbalos sonoros;
Louvai-o com címbalos altissonantes.
Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR.
Louvai ao SENHOR!

“Àquele que nos ama, e em Seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e Seu Pai, a Ele, glória e poder para todo o sempre. Amém”.

J. G. Bellett

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