Origem: Livro: Meditações sobre o Apocalipse

Apocalipse 20-22

Por mais sombrio que o caminho possa ser, este é o seu fim, o fim ao qual chegamos neste livro.

A ação foi o juízo dos corruptores da Terra, e seu resultado é a santa ocupação dela pelo Senhor e Seus santos. Os caminhos do nosso Josué terminam em vitória e no reino. O arco conduziu à coroa (Apocalipse 20:1-6). “E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar”

Mas antes de me apressar assim para abordar o resultado de toda essa ação, gostaria de observar que, no próprio desenrolar dessa ação, vemos, creio eu, a libertação do remanescente Judeu do meio tanto da corrupção quanto do juízo. Alguns deles sofrem pela justiça até a morte e, então, ascendem ao céu para tomar seu lugar no mar de vidro diante do trono; e outros são escondidos como numa cidade de refúgio em meio à tristeza, selados ou medidos para a derradeira segurança e um lugar na Terra, ou escabelo do real Filho do Homem. Mas, de ambas as maneiras, eles são separados da corrupção e dos juízos ao seu redor e, após o início das guerras de nosso Josué, como Raabe, eles estão seguros no Senhor, a Quem reconhecem em meio à nação apóstata. E vejo também, no desenrolar dessa ação, a alegria ocasional da família no céu (veja capítulos 5, 7, 11, 14, 15, 19). O céu é, certamente, um lugar de alegria contínua. Ali os santos não têm mais fome, nem sede, pois o Cordeiro os apascenta e os refrigera para sempre. Mas ainda assim podem ser sensíveis a tempos e ocasiões de arrebatamento, e isso parece ser sugerido a nós nessas passagens. As alegrias da família celestial e seus cânticos são, de tempos em tempos, despertados novamente quando alguma nova manifestação de graça ou alguma nova perspectiva de glória se abre diante deles. Assim como aconteceu com as hostes celestiais antes, pois quando os fundamentos foram lançados, eles cantaram juntos novamente e, ainda mais alto do que antes, bradaram de alegria.

E aqui posso observar ainda que, no decorrer deste livro, a Igreja parece ter ensinado aos anjos uma alegria ainda mais elevada. Na epístola aos Efésios, aprendemos que a Igreja estava ensinando aos poderes celestiais uma lição da sabedoria de Deus (Ef 3:10); mas aqui vemos os anjos praticando, por assim dizer, as lições que haviam aprendido anteriormente. A Igreja lidera a alegria, e então os anjos a acompanham, seguindo as criaturas viventes e os anciãos coroados em seu louvor (Ap 5). E novamente, quando os redimidos celebram a “salvação”, em Apocalipse 7, eles, por terem aprendido a lição, dizem “Amém”.

Isso é o que eu observaria sobre a ação destes capítulos, mas, quanto aos seus conteúdos, não poderia falar com qualquer certeza de juízo. Mas tudo termina no reino, como tenho observado. A prisão de Satanás no abismo, relacionada com a derrota da besta e do falso profeta, pode ser chamada de o juízo da manhã (o juízo dos vivos), inaugurando, como fará, o dia milenar, ou o reino. Então, ao final desse dia, Satanás sendo solto do abismo para causar a última maldade no mundo, o grande trono branco é erguido, diante do qual procede o juízo da noite (o juízo dos mortos), encerrando, como fará, o dia milenar, ou o reino.

E, quando o dia do Senhor estiver terminado, o reino será entregue, e os novos céus e a nova Terra aparecerão, a Igreja trocando o reino por Deus tudo em todos, ou seu gozo milenar por seu gozo eterno, e Satanás trocando o abismo, pelo lago de fogo, ou sua condenação milenar por sua condenação eterna. Como alguém observou: “O herdeiro e a herança terão então ascendido em caráter. O Segundo Homem, ou o corpo glorificado, excederá o primeiro homem, ou o corpo terrenal, e assim os novos céus e a nova Terra excederão em glória e gozo o paraíso da criação.”

De tudo isso o profeta teve uma visão passageira, e então ele é chamado para outra visão. Ele já havia visto a Noiva preparada no céu (Ap 19), e agora ele é chamado para vê-la descer do céu (Ap 21:2-8), e em breve será chamado para vê-la já tendo descido do céu (Ap 21:9). Mas agora, enquanto descia, e ele a contemplava, uma voz acompanhou a descida, dizendo: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o Seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas”. E, depois que essa voz se calou, Aquele que estava assentado sobre o trono disse: “Eis que faço novas todas as coisas”.

E, tendo assim falado, Ele dirigiu-Se a João, confirmando tudo o que João ouvira e dando-lhe a saber que, quando isso acontecesse, tudo estaria cumprido, acrescentando, além disso, tais advertências e encorajamentos que poderiam ser ouvidos por todos, desde aquele momento até o fim, sendo proferidos pelo Senhor na consciência da solene autoridade que o fim confere a todas as coisas, como de fato está escrito: “Quem dera eles fossem sábios! Que isto entendessem, e atentassem para o seu fim!” (Deuteronômio 32:29). Assim, essa visão da cidade que descia, e essa escuta das vozes do céu e do trono, passam, e o nosso profeta foi levado a um grande e alto monte para que pudesse ver a própria cidade, a Noiva, a esposa do Cordeiro (veja Apocalipse 21:9; 22:6).

Um daqueles anjos que antes carregaram as sete últimas pragas é agora o guia de João, e em sua presença ele mede a cidade, e, sendo isso um sinal de segurança (Ap 11:1-2), ele nos dá, por meio disso, a garantia de que não há qualquer agente de destruição contra ela, mas que a própria mão que pode afligir a Terra protegerá a Igreja. A Igreja, como o castiçal, pode ser despedaçada, mas como a esposa do Cordeiro, ela viverá. Esta cidade dourada é esta Noiva do Cordeiro – a Igreja de Deus agora manifestada em sua perfeição. Ela tem comprimento, largura e altura iguais, com doze fundamentos e doze portas, seu muro grande e alto, e sua rua de ouro puro. Tudo isso é variado, porém brilhante e precioso, expressando-a como aquela que é perfeita em santa beleza. E ela não é apenas perfeita em si mesma, mas possui suas dignidades, bem como suas belezas; ela é a habitação da glória de Deus, o lugar do trono, um santuário também, bem como um palácio, tendo uma presença dentro dela que faz de toda a cena um templo. Assim, ela é a morada adequada para reis e sacerdotes; e sendo assim em si mesma a bela, e trazendo consigo esta honra do sacerdócio real, tudo o que sai dela, ou entra nela, e ali habita, está de acordo com essas coisas. Luz é derramada dela para que as nações possam caminhar nela. Água do rio da vida flui dela, trazendo folhas consigo, para que as nações sejam curadas por meio dela; E tudo o que entra é pureza, e todos os que nela habitam estão em regozijo e dignidade, não precisando de lâmpadas, nem mesmo da luz do Sol, e estando na dignidade consciente de seu reino eterno. Tal é a cidade de nosso Deus. Nada pode tocar tal habitação de santidade, alegria e glória, senão a própria honra dos reis da Terra. Eles podem trazer sua glória e honra para dentro dela, mas nada menos que isso pode se aproximar. Tudo é, portanto, puro e brilhante dentro e ao redor dela, e ela emana torrentes de luz e vida para que todos se alegrem e a abençoem. Esta é a manifestação da Igreja. Nesta dispensação presente, a Igreja está apenas se formando como Eva para Adão; mas quando chegar o tempo do reino, e Adão despertar, então Sua Eva lhe será apresentada, a companheira de Sua alegria e reino; os santos serão mostrados todos perfeitamente reunidos, a Igreja apresentada a Ele mesmo, uma Igreja gloriosa, sem mácula como aqui, no lugar de bênção e governo.

Certamente tudo isso é belo, como tudo o que vem de nosso Deus em seu devido tempo. A encarnação e o ministério do Senhor foram a manifestação do Pai e do Filho; a era presente é a manifestação do Espírito Santo; e a era vindoura, para a qual esta visão da cidade dourada nos introduz, será a manifestação da Igreja. Pois tudo é perfeição no caminho da sabedoria de Deus, assim como nos caminhos do Seu amor. Ele nos revela um segredo após o outro, trazendo cada um de Seus tesouros no tempo certo,. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus!” Mas isso apenas enquanto caminhamos, amados; pois em breve Ele mesmo nos tomará para Si para sempre.

Eu estava analisando as características daquela cidade santa que agora nos foi revelada, e observando que tudo nela nos indica que ela é o símbolo da Igreja em sua perfeição e manifestação de glória, ou dos santos em seu domínio e honra. E, em relação a isto, gostaria de voltar à diferença entre o Evangelho e o Apocalipse de João. O Evangelho termina levando os filhos para a casa do Pai, ou escondendo-os no céu; o Apocalipse, conduzindo-os desde o céu para o lugar de domínio sobre a Terra, ou manifestando-os como a Igreja de Deus na cidade dourada. Não são as moradas na casa do Pai que temos para contemplar no final do Apocalipse, mas o lugar do santuário e do palácio, a residência dos reis e sacerdotes para Deus. Não são os filhos em seu lar, mas os santos em sua glória que vemos. E tudo isso está em plena consonância com o caráter da obra, pois o evangelho de João sempre tem preparado os filhos para o Pai, mas esta Revelação por meio dele tem preparado a herança e a glória para os santos. É mais uma etapa na história da família celestial. Não se trata de terem deixado a alegria das moradas pela casa do Pai, que o Senhor agora foi preparar para eles (João 14:2), mas sim de receberem também a glória da herança, e é isso que nos é apresentado aqui. E este dia da descida da cidade dourada é o dia prometido do poder, o dia do fechamento da influência do inferno sobre a Terra com a prisão de Satanás no abismo, e da abertura da influência do céu sobre a Terra com esta descida da cidade de Deus; o estabelecimento daquela escada mística pela qual os anjos de Deus passarão do céu para a Terra e de volta ao céu.

E o trono de Deus visto nesta cidade tem um novo atributo. No princípio, era o trono de Deus, e o Cordeiro apenas se aproximava para tomar o livro selado da mão d’Aquele que ali estava assentado. Mas agora o Cordeiro ascendeu a ele. Agora é “o trono de Deus e do Cordeiro”. Ele subiu ao monte do Senhor e agora está em Seu lugar santo. Pois toda a ação do livro foi preparar o trono para o Cordeiro, assim como preparou a cidade dourada para os santos.

Tais são os resultados agora revelados, e assim a ação, a meu ver, interpreta o resultado, e o resultado confirma o caráter da ação. Tudo é harmonia neste maravilhoso livro. A ação não foi a do Filho no alto preparando as moradas celestiais para os filhos, nem a do Espírito Santo aqui preparando os filhos para as moradas; mas foi o Senhor (ou Deus no lugar supremo para Ele) vindo no poder de um julgamento após o outro para fazer de Seus inimigos o estrado de Seus pés, e então erguer Seu reino e conduzir Seus santos a ele. Observei em toda a sua santa ordem e justa autoridade, que é a Igreja como uma cidade dourada que temos, o símbolo da justiça e do poder unidos. A Igreja com o Cordeiro entronizado descendo do céu para Se associar à Terra, governando-a e, ainda assim, abençoando-a, presidindo sobre ela em justiça, e ainda dispensando-lhe a água da vida e a luz da glória, das próprias fontes das quais ela agora se tornou o cenário e a morada.

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