Origem: Livro: Meditações sobre o Apocalipse
Apocalipse 4
Mas esse julgamento é adiado até que toda a família dantes conhecida tenha entrado, pois a longanimidade de Deus é a salvação (2 Pedro 3:15). A plenitude dos gentios deve entrar, e todos devem ser levados ao conhecimento do Filho de Deus. (veja Romanos 11:25; Efésios 4:13). Portanto, antes de sermos conduzidos por nosso profeta a contemplar essa segunda cena de julgamento, ou o julgamento da Terra, nos é dada, creio eu, uma visão da Igreja no céu sob os símbolos das criaturas viventes, e anciãos coroados ao redor do trono, de modo que o arrebatamento dos santos nos ares ocorreu em algum momento indizível entre os tempos dos nossos capítulos três e quatro.
Mas aqui, gostaria de fazer uma pequena pausa. Não temos, eu reconheço, essa ascensão dos santos realmente apresentada aqui. Aprendemos sobre isso na passagem bíblica designada (1 Tessalonicenses 4), e que o arrebatamento conduzirá tanto ao próprio Senhor quanto, depois, ao Pai. Mas não são esses os resultados que vemos aqui. Não são os santos, seja na presença do Senhor, seja nas moradas da casa do Pai, que vemos aqui, mas a Igreja diante do trono de Deus Todo-Poderoso, d’Aquele que era, que é e que há de vir, para cujo prazer todas as coisas foram criadas. Esta é a cena que temos aqui. Não são os filhos diante do Pai, mas a Igreja em dignidade diante do trono.
Mas quão perfeita é a sabedoria de Deus ao designar todas as razões para revelar Sua mente e Seus propósitos! Uma visão da casa do Pai não seria apropriada aqui, pois este livro não é para o consolo dos filhos do Pai, mas de julgamento, pelo qual Deus e o Cordeiro afirmam Seus santos direitos, reivindicando Seus próprios louvores e libertando a herança há muito usurpada e corrompida das mãos de seus destruidores. O Evangelho de João nos conduz à casa do Pai; nosso caminho lá termina, como o caminho dos filhos, naquela casa de amor. Mas esta Revelação de João nos apresenta a ação que prepara a cidade dourada para nós, e nosso caminho aqui termina, como o caminho dos herdeiros, naquele lugar de glória; pois ambos são nossos: as alegrias dos filhos e a dignidade dos herdeiros, a casa do Pai e o trono do Filho.
Aqui então, quando levados em visão das coisas celestiais, é o trono de Deus com os seus devidos ministrantes, e não a casa do Pai com os filhos, que vemos. É o trono de Deus Todo-Poderoso, Criador e Dominador de todas as coisas, em torno do qual, portanto, está lançada a santa garantia da segurança da aliança com a Terra. E é também o lugar de onde flui a ação subsequente do livro, ou o julgamento da Terra; e, portanto, relâmpagos, trovões e vozes (os símbolos desses julgamentos) emanam dele. E é o trono que também governará o mundo vindouro, ou o reino no fim. E, portanto, os sete espíritos (o símbolo daquela energia pela qual esse reino será mantido, Isaías 11:1-3) são vistos aqui diante dele; e em conexão com esse governo do reino, ou “mundo vindouro”, vemos a Igreja no símbolo dos seres viventes e dos anciãos também em redor dele. Mas, quanto a este maravilhoso tema das criaturas viventes, ou dos querubins, gostaria de observar com um pouco mais de detalhe. Sempre que os vemos na Escritura, eles estão sempre ministrantes junto ao trono de Deus, sempre refletindo, por meio de suas ações ou atitudes, a mente e os caminhos d’Aquele que ali Se assenta. (Portanto, creio que foram feitos de uma só peça de ouro, juntamente com o próprio trono, como se vê em Êxodo 25:19).
- Assim, eles são vistos à porta do Éden, com uma espada flamejante, porque ali o Senhor expressava a Sua própria justiça irretratável na lei, expulsando, como então Ele estava, o pecador do Seu lugar.
- Assim também são vistos diante do propiciatório no lugar santíssimo, com olhar fixo e deleitoso, indagando sobre os segredos daquele trono da graça, porque ali o Senhor expressava a Sua obra em Jesus, a firmeza do Seu propósito e o gozo no evangelho do Seu amado Filho (veja Êxodo 25:20; 1 Pedro 1:12).
- Assim também são vistos com as asas abertas sob o Deus de Israel (Ezequiel 1), porque então o Senhor de Israel estava prestes a deixar o Seu santuário, tendo a apostasia do Seu povo perturbado o Seu repouso em Jerusalém. E aqui também são vistos estendendo as mãos para pegar fogo e lançá-lo sobre a cidade, pois então o Senhor havia ordenado o julgamento dos seus pecados.
- Assim também, como aqui, eles são vistos ao redor do trono, ainda servindo a ele, para celebrar o louvor d’Aquele que ali Se assenta, para fazer a Sua vontade e para aprender a Sua mente, refletindo ainda, portanto, a Sua mente e os Seus caminhos. Mas neste último lugar dos querubins, observamos uma distinção de grande importância. Até então, ou nos três primeiros casos, eles eram angelicais, porque a lei havia sido ordenada por anjos (Gálatas 3:19). Com deleite, os anjos atentavam para os mistérios de Cristo (1 Pedro 1:12) e os anjos serviam ao Senhor de Israel (Isaías 6:2). Mas agora os querubins, ou os ministrantes do trono, tornaram-se humanos porque “o mundo vindouro” será sujeito ao homem e não aos anjos (Hebreus 2:5), e este trono em Apocalipse 4 é o trono que em breve presidirá sobre “o mundo vindouro”.
Mas isto é glorioso e maravilhoso. Os pobres pecadores redimidos pelo sangue estão destinados, pela graça, a assumir a dignidade e o gozo de querubins nos quais os anjos, anjos não caídos, outrora se encontravam, os próprios anjos recuando, por assim dizer, e abrindo as suas fileiras para deixar os pecadores redimidos entrarem, e então tomar o seu próprio lugar ao redor deles, bem como ao redor do próprio trono (Ap 7).
Assim, os anjos passam e a semente de Abraão é tomada, e é bem-aventurado saber que os próprios anjos se deleitam com isso. Eles desejam olhar para dentro desse mistério. Deus manifestado em carne é visto por eles (1 Timóteo 3:16). O próprio regozijo deles é ampliado por tudo isso, pois, por meio disso, eles aprendem mais sobre os resplandecentes e graciosos caminhos d’Aquele que os criou, assim como Ele nos redimiu, e de Quem eles, como nós, dependem. Mendigos do monturo são colocados como entre príncipes ao redor do trono. As criaturas viventes e os anciãos coroados, portanto, nunca, em toda a ação deste livro maravilhoso, saem do céu, mas permanecem ali, seja na inteligência da mente de Deus, seja na autoridade sob o trono, seja no santo ofício de conduzir o júbilo da criação (veja os capítulos 5-7, 11, 15 e 19). Eles permanecem em sua esfera nas alturas enquanto a ação prossegue na Terra. (Havia algo semelhante a esta ordem de seres viventes e anciãos coroados em Israel; refiro-me à maneira como a arca era ministrada. Os sacerdotes e os levitas circundavam a arca num círculo menor e mais próximo, e então as doze tribos, três de cada lado, a rodeavam num círculo ou quadrado maior e mais distante; assim, um grupo tinha mais intimidade com ela do que o outro, como aqui a ordem de seres viventes, anciãos e hostes angelicais ao redor do trono, como visto em Números 1-4.)
Assim julgo eu ser o trono com seus atributos e ministrantes. É o trono do Criador e Sustentador de todas as coisas, de onde emanam os julgamentos que purificarão a Terra de seus corruptores e destruidores, e então ter ligação com a Terra redimida no “mundo vindouro”.
Mas, sendo assim visto o trono, e sendo assim celebrada a glória e o prazer de Deus como Criador e Governador de todas as coisas, surge a pergunta: Quem Ele poderá assentar no trono Consigo mesmo? “Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no Seu lugar santo?” (Salmo 24) – Um monte é um símbolo de governo, como visto em Salmos 2:6 e Isaías 2:2. A Terra e tudo o que nela há pertencem ao Senhor, título da criação aqui celebrada e reconhecida no Salmo 24, mas foi do Seu agrado, desde a antiguidade, colocar Sua imagem sobre estas obras de Suas mãos. Adão recebeu domínio, mas Adão perdeu seu lugar e perdeu seu reino. Quem, então, reassumirá a dignidade, subindo novamente ao monte do Senhor? Quem é Aquele a Quem o Senhor Deus pode restituir o senhorio perdido por Adão?
