Origem: Livro: Notas sobre Josué
Calebe – Josué 14-15
Será que temos dado a Calebe o mesmo respeito, ou dedicado à sua história a atenção que deveríamos? Perdemo-lo de vista em meio à narrativa mais ampla e brilhante de Josué. Mas não deveria ser assim, pois ele brilha em sua própria esfera no firmamento da Escritura e deixa atrás de si traços que bem poderíamos desejar reproduzir ou retrilhar em nós mesmos.
Nós o vemos em Números 13:14, e o encontramos ali, de fato, mais zeloso do que Josué. De qualquer forma, ele alcança tão boa reputação quanto Josué.
Certamente a graça será soberana; e é algo de uma bênção imensa quando podemos nos curvar à sua soberania, embora, em seus arranjos de alta prerrogativa, ela possa nos tratar de maneira que a natureza ressentiria, e nos conceder apenas uma bênção de Manassés, ou seja, uma bênção da mão esquerda. Portanto, Calebe não ousaria reclamar por um momento sequer que Josué estivesse mais próximo de Moisés do que ele; mas, para o alívio de seu coração (se ele sofresse com tal provação), ele poderia ter se lembrado de que, antes do dia de Números 13:14, mesmo na época de Êxodo 17, Josué estivera ao lado de Moisés, e que naquela ocasião ele próprio não estivera com ele.
Ainda assim, podemos perfeitamente entender que a natureza possa ter sentido um aperto no coração quando, depois de Moisés, Josué se torna o principal no arraial e Calebe se torna subordinado, como vemos no capítulo 14. Mas ele suporta isso de maneira bela, e eu me pergunto: não é tão belo se alegrar com a frutificação de outro quanto nós mesmos sermos frutíferos?
Sem inveja ou ressentimento maculando seu espírito, Calebe busca o apoio do homem de quem, em sua juventude, fora companheiro e cooperador. Ele o utiliza em vez de invejá-lo. Ele não se importa que esta palavra lhe seja dirigida: “Dá o lugar a este”. O cântico “Saul feriu os seus milhares, porém, Davi os seus dez milhares” o encontrou preparado. Calebe não se abalou.
Tal coisa possui grande beleza moral. Temos outro exemplo disso em Pedro, em João 13. Pedro vê João reclinado no seio do Senhor; mas, em vez de invejar aquele lugar mais próximo, ele o utiliza ali, pedindo-lhe que descubra o segredo daquele seio, onde ele, embora mais velho dos dois, não estava reclinado. E assim também Calebe, aqui no capítulo 14. Ele utiliza Josué em vez de invejá-lo.
De fato, eu poderia ter observado uma graça semelhante em Moisés, quando, ao ouvir que Eldade e Medade estavam profetizando no arraial, ele imediatamente foi até lá para que pudesse ouvi-los pessoalmente. Moises repreendeu o ressentimento que teria tido ciúmes por ele.
É estranho, eu admito, que tenhamos que parar e admirar tais coisas, mas sabemos que podemos fazê-lo. As corrupções têm um caráter profundo e odioso na alma, como todos nós bem sabemos, e esses exemplos de desembaraço ou de vitória não podem deixar de despertar nossa admiração.
Mas, novamente, Calebe era grandioso em outra característica. Ele era fiel entre os infiéis. Ele tinha sido assim no deserto e assim continua sendo agora na terra. Ele parece ter sido o único de todas as tribos de Israel que se recusou a formar aliança com os cananeus nativos. Assim como ele se manteve fiel com Josué entre os espias no deserto, ele continua sendo fiel entre as tribos na terra. Ele prossegue, espada em punho, até expulsar todos os que encontrou de suas possessões em Hebrom (cap. 15).
Além disso, ele valorizava sua herança. Seu coração estava voltado para o que Deus lhe havia prometido. Ele foi forte e corajoso para tomá-la, e então desfrutou dela com fervor e regozijo.
Essas são nobres qualidades de “um verdadeiro israelita”. Calebe se humilha diante da maneira e dos desígnios de Deus para obter título à sua porção; ele fixa seu coração nessa porção; ele é zeloso e valente em mantê-la, mesmo diante de todos que se opuseram a ele. Belos sinais, sem dúvida, de um santo de Deus! E certamente, posso dizer novamente, é bom, proveitoso e, além disso, agradável prestar um pouco mais de atenção a este distinto israelita do que tem sido comumente feito entre nós. Ele é a própria contradição de seus irmãos infiéis. Em vez de formar aliança com os cananeus, dando filhos ou filhas em casamento, ele publica esta nobre proclamação: “Quem ferir a Quiriate-Sefer, e a tomar, lhe darei a minha filha Acsa por mulher”. Ele guardou “o caminho do Senhor” tão puramente quanto Abraão sempre o fizera. Nenhum marido para sua filha, a não ser um dos designados pelo Senhor. Ele não construiria sua casa com madeira e palha.
