Origem: Livro: Força que Vem de Deus

O Cativeiro de Judá na Babilônia – Esdras

O cativeiro babilônico, considerado como uma era no progresso das dispensações divinas, foi de suma importância e significado. Podemos considerá-lo como uma etapa fundamental em nossa jornada pelo caminho de luz e sabedoria traçado na Escritura para os homens de Deus trilharem e permanecerem ali por um instante, contemplando o que nos rodeia.

Podemos falar disso, de modo geral, como o grande julgamento final sobre o povo de Israel nos tempos do Velho Testamento; mas foi precedido por uma longa série de outros julgamentos de caráter inferior ou menos importantes. E é bom descrevê-los brevemente, para que sejamos tocados e humilhados diante de tal visão que eles nos proporcionam da incompetência e infidelidade do homem sob todas as condições de despenseiro e de responsabilidade.

A humilhação de Deus ao Seu povo 

Esses julgamentos começaram, posso dizer, com o retiro de Moisés por quarenta anos na terra de Midiã. Israel, então no Egito, perdeu seu libertador, porque não sabiam que, por meio dele, Deus os redimiria, como lemos em Atos 7:25.

Depois de saírem do Egito e peregrinarem pelo deserto a caminho de Canaã, foram condenados ou sentenciados a vagar por lá por mais quarenta anos, porque não acataram o relatório dos espias e, ao contrário, desprezaram a Terra Prometida.

Quando chegaram a Canaã e se estabeleceram como nação, foram castigados repetidamente por seus vizinhos por causa de sua iniquidade, mas, por fim, foram julgados de forma mais severa ao serem colocados sob a tirania do rei Saul (veja Oséias 13:11).

Humilhação no reino 

Com o passar do tempo, eles floresceram até se tornarem um reino: Deus lhes deu o melhor do Seu povo, o homem segundo o Seu próprio coração, para reinar sobre eles. Este foi um dos dons de Deus; Saul havia sido um dos Seus julgamentos. Os reinados de Davi e Salomão foram a manifestação de força e honra em Israel. Mas, tendo a casa de Davi se tornado perversa, o juízo a visita por meio da revolta das dez tribos.

Assim foi erguido o reino das dez tribos, como um juízo sobre a casa de Davi, tal como o reino de Saul fora anteriormente erguido em juízo sobre a nação de Israel. Mas, tendo o reino das dez tribos se provado perverso naquele dia, o juízo os visitou, levando Israel cativo por meio do rei da Assíria.

A casa de Davi, durante esse tempo, foi suportada com longanimidade. Como algo desmantelado, tendo apenas duas tribos em vez de doze como sua herança, ainda assim provocava a ira do Senhor; e então o juízo visitou Judá pelas mãos dos caldeus, assim como antes o juízo havia visitado Israel pelas mãos dos assírios. Judá era um cativo na Babilônia. Assim, como eu disse, este foi o grande julgamento final sobre o povo de Deus durante os tempos do Velho Testamento. O Senhor Deus de Israel havia ligado Seu Nome e Sua glória à casa de Davi e à cidade de Jerusalém; e quando essa casa caiu e essa cidade foi saqueada, o julgamento, naquela medida e naquele tempo, completou sua obra.

A glória partiu 

De agora em diante, nosso assunto será com os cativos de Judá e da Babilônia: Israel, na Assíria, esta fora de vista. Eles não são mantidos em cena pelo Espírito de Deus. São chamados de “a rebelde Israel”, como um povo cuja distinção, por ora, está perdida e foi-se; mas os profetas de Deus antecipam seu futuro, e podemos prever que eles serão manifestados, trazidos de volta para casa e recolocados em seu lugar outra vez com honra e ornamento.

Antes de analisar os cativos de Judá na Babilônia, gostaria de considerar as novas condições impostas pelo próprio cativeiro. A glória (símbolo da presença divina), os gentios e os Judeus são todos afetados por ele e, imediatamente, entram em um novo contexto.

A glória deixa a Terra e vai para o céu. Ela esteve com Israel desde os dias do Egito até agora. Ela se assentou no carro-nuvem e conduziu Israel para fora do Egito e por todo o deserto; e então se assentou no santuário entre os querubins. Israel era o lugar ou o povo de sua morada na Terra. Mas agora, como foi visto por Ezequiel, ela se despede da Terra para o céu, ou para o monte (Ezequiel 11).

Os gentios tornam-se supremos durante o cativeiro de Judá. A espada é formal e solenemente entregue na mão do caldeu pelo próprio Deus; e a submissão a ele, como ordenado para ser o principal em autoridade política ou imperial no mundo, é exigida por Deus. Mas a glória não acompanha a espada. A Caldeia não é a sede da teocracia; a adoração divina não é estabelecida ali.

O povo de Israel torna-se estrangeiro na Terra. “Icabode [Icabô] – ARC, a glória se foi, num sentido ainda mais terrível do que jamais ocorreu para eles. Estão arruinados, pelo menos por enquanto, como uma nação outrora gloriosa, honrada, forte e independente. Judá é cativo e estrangeiro.

A santidade não poderia esfriar o amor 

Essas são as novas condições nas quais todos agora entraram – a glória, os gentios e o povo de Israel.

Mas aqui devo observar – pois é um assunto de grande interesse e valor para nossa alma – que o caráter se revela em cada um deles, em virtude de suas novas condições.

A glória mostra-se, de modo muito gracioso, relutante em deixar a sua antiga morada. Aprendemos isso nos primeiros capítulos de Ezequiel; ali, a glória é vista em uma agitada inquietação, por assim dizer. Havia chegado a hora de partir de Jerusalém, e ela sentia a tristeza desse momento. Ela passava repetidamente entre a entrada da casa, que ainda a conectava ao templo, e as asas dos querubins, que aguardavam para levá-la; e essa é uma visão de profunda e misteriosa consolação. Que segredo ela guarda em nosso coração! A santidade, que precisava partir, não poderia esfriar o amor que desejaria permanecer, se pudesse; e que sombra do Jesus dos evangelistas é essa! Israel não poderia ser o repouso nem da glória, nem de Jesus. Israel estava impuro; mas a glória permanecerá na entrada, e Jesus chorará ao voltar Suas costas à cidade. Nem a glória buscará outro lugar na Terra. Ela escolheu Sião para seu repouso; e se seu repouso ali for perturbado, ela deixará a Terra. Ela será fiel a Israel, ainda que Israel a entristeça e a mande embora. Essas são as perfeições que dão caráter à glória, por assim dizer, neste dia de sua partida de Jerusalém – o dia do cativeiro de Judá na Babilônia.

Os gentios, nesse mesmo dia, revelam uma visão muito diferente. Nenhuma beleza moral os distingue – pelo contrário, eles se tornam orgulhosos. A elevação sob a mão de Deus os engrandece em sua própria estima. Não se importam com as aflições do povo de Deus, mas se aproveitam de sua opressão e se erguem, o máximo que podem, sobre suas ruínas. Ezequiel nos mostra, como já vimos, a moral ou o caráter da glória que se vai, assim como Daniel nos mostra a arrogância profana dos gentios nesse mesmo dia. Torna-se intolerável, como sabemos, e termina em julgamento.

Provação produz bênção 

O povo de Israel, agora humilhado, é exercitado. O Salmo 137 é um suspiro que expressa um estado de alma muito gracioso, em meio aos cativos junto às águas da Babilônia: homens como Zorobabel, Esdras e Neemias, entre os que retornaram, e como Ester e Mardoqueu, entre os dispersos, nos falam de uma geração ou um remanescente com um caráter que transcendia o que era comumente conhecido em Israel. Assim, como é comum entre os homens, a prosperidade causou danos morais aos gentios naquele momento, enquanto a depressão e as provações foram benéficas para os Judeus.

Esse intervalo de cativeiro, porém, precisava chegar ao fim. A vara da tribo de Judá não poderia ser quebrada até a chegada de Siló (Gênesis 49). Para cumprir essa promessa, repetida de diversas maneiras pelos profetas, Judá precisava retornar do cativeiro e estar em sua terra para receber, se assim o desejassem, o Messias prometido – Aquele que, como vemos em Ezequiel, os havia deixado com tanta reserva e relutância.

O retorno, portanto, se concretizou; e foi marcado por muitos dos frutos desse exercício saudável, o qual já observei como conferindo caráter aos cativos. Não houve nada da mesma glória que marcou seu retorno anterior da terra de Faraó. Nesse aspecto, o êxodo da Babilônia foi algo muito inferior ao êxodo do Egito. Não havia vara de poder para realizar seus prodígios; nenhuma nuvem mística para conduzir; nenhum mediador em intimidade com o Senhor em favor do povo; nem provisões dos celeiros celestiais. Mas havia a energia da fé na jornada, e espíritos despertos para a presença de Deus, para a Sua mente, para a Sua vontade, para a Sua glória e a para Sua suficiência para eles.

Esse retorno, contudo, não foi universal, nem, mesmo na medida em que ocorreu, foi simultâneo.  Ainda havia a dispersão, bem como o retorno dos cativos. Os livros dos cativos – Esdras, Neemias e Ester – nos dão um pouco da história de cada um. Mardoqueu foi um dos dispersos; e dos que retornaram, alguns vieram antes, como Zorobabel; enquanto outros vieram depois, como Esdras em um momento e Neemias em outro.

Soberania de Deus 

Mas eu perguntaria: “Com que garantia ou autoridade os cativos na Babilônia foram habilitados a retornar?” Dirão, e com razão, que Deus assim o havia proposto e prometido pela boca de seu servo Jeremias. Ele tinha declarado que, quando o cativeiro tivesse completado setenta anos, ele terminaria; e, de acordo com isso, Daniel, que viveu durante todo o período do cativeiro, mas nunca retornou a Jerusalém, fez sua súplica por essa misericórdia prometida, justamente quando os setenta anos se aproximavam do seu término. O retorno, portanto, reconhecemos plenamente, deve ser datado, por assim dizer, da soberania e dos conselhos de Deus. A grande fonte dele reside aí. Mas havia uma autorização secundária e mais imediata para isso, a ocasião para tal, como dizemos; e esta é, como se vê claramente, no decreto de Ciro, o rei da Pérsia, um decreto que ele promulgou no próprio primeiro ano de seu reinado, ou tão logo Deus transferiu a espada da mão do caldeu para a sua mão.

A Babilônia, que havia sido a capturadora, não recebeu a honra de ser a libertadora de Israel. Essa honra foi reservada a outro, e para alguém que havia sido tão distintamente nomeado pelos profetas de Deus quanto o período de setenta anos havia sido nomeado.

Ciro é mencionado em Isaías 44 e 45; seu próprio nome aparece ali, e já estava lá duzentos ou trezentos anos antes de seu nascimento. Ele é mencionado como aquele que seria o construtor do templo em Jerusalém. Não podemos afirmar que foi assim, mas podemos sugerir que ele ouviu falar desse fato surpreendente de alguns dos cativos; e se ele ouviu, não teria sido esse o instrumento pelo qual o Senhor despertou seu espírito? Suficiente, e mais do que suficiente, para levá-lo àquela grande e generosa ação que realizou, e cujo relato encerra os livros das Crônicas e inicia o livro de Esdras. (Há relatos de que foi mostrada a Alexandre, o grego, a profecia de Daniel a seu respeito. De maneira semelhante pode ter sido mostrada a Ciro, o persa, essa profecia de Isaías).

Caso alguma vez Ciro tenha tido conhecimento desses oráculos divinos, deveríamos, talvez, nos admirar mais de que ele não tenha feito mais, do que nos admirar de que ele tenha feito tanto. Poderíamos esperar que ele próprio se tornasse um prosélito; pois Isaías lhe revela que foi ninguém menos que o Deus daquele povo (que então eram seus súditos e, como eu diria, seus cativos) que foi adiante dele para abrir caminho rumo à conquista e ao domínio.

Mas, seja assim ou não, seu decreto, como sabemos, foi a causa imediata e a autoridade máxima para o retorno deles.

Além disso, quanto a este grande evento e época, os tempos dos gentios, como o próprio Senhor fala, começaram com o cativeiro babilônico; os gentios então se tornaram supremos, como já dissemos, um reino sucedendo o outro. E esses tempos dos gentios continuam até hoje. O retorno desde a Babilônia não alterou isso, pois esse evento não afetou a supremacia gentia. Mas esses tempos terminarão no julgamento da besta apocalíptica e seus confederados (Apocalipse 19), quando a pedra cortada sem mãos esmiuçar a estátua.

E podemos ainda dizer, quanto a Israel, que esse cativeiro operou uma reforma entre eles. Daquele tempo até o presente, “o espírito imundo”, como o próprio Senhor também diz, foi “expulso”. A idolatria não tem sido praticada desde então; mas, embora a casa Judaica esteja assim desocupada e limpa, ela não está mobiliada com sua verdadeira riqueza e ornamentos. (Em breve, o espírito imundo retornará e, trazendo consigo outros espíritos imundos mais perversos do que ele, completará a apostasia do Judeu e o conduzirá novamente ao julgamento). O Messias não foi aceito; e, em princípio, Israel retornou à Babilônia, onde permanecerá até o dia da redenção e do reino sob a graça, o poder e a presença do Senhor Jesus.

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