Origem: Livro: Notas sobre Josué
A Conquista da Terra – Josué 10-12
A terra, como vimos, foi adentrada em nome do Deus de toda a Terra. Raabe, que teve fé, foi libertada. O arraial foi purificado da maldição que o transformou, por um instante, em uma Jericó ou uma Babilônia. Jericó e Ai caíram. Os gibeonitas obtiveram entrada ou um assentamento, como joio no meio do trigo, em juízo sobre os homens que dormiam, e agora a espada do Senhor e de Josué está prestes a completar a conquista da terra.
É um dia de juízo. A vingança da justiça será executada sobre os amorreus, que já haviam enchido a medida de seus pecados. A longanimidade de Deus não teria mais que esperar (Gênesis 15:16).
É um dia de juízo para essas nações, assim como o dia de Noé o foi para o mundo antes do dilúvio, ou o dia de Ló para as cidades da campina, ou o dia de Moisés para a terra do Egito. A espada de Josué, como já dissemos, deve ser interpretada como a de um juiz, e não a de um conquistador. A entrega da herança aos filhos de Abraão pode parecer a principal causa dessa grande ação, mas na verdade se fundamenta no fato de que a medida da injustiça dos amorreus estava agora cheia. A espada da conquista para Israel é a espada do juízo sobre os cananeus – e o povo do Senhor teve que esperar o amadurecimento do pecado das nações e o juízo do Senhor, antes de poder alcançar sua herança (veja Gênesis 15:16).
Isto é exatamente o que se sabe neste exato momento. O reino milenar, que é a herança de Cristo e os santos, não será alcançado até que o mundo tenha enchido sua medida e a espada do juízo o tenha alcançado. Aquilo que julga o mundo abre caminho para o reino e para a herança, assim como a espada de Josué fez. Ouçam as diferentes vozes nos primeiros versículos de Apocalipse 14.
Mas, além disso, sendo a espada de Josué realmente a espada do Senhor, e sendo as vitórias do grande Príncipe de Israel realmente o juízo de Deus, vemos o próprio Senhor Deus intervindo diretamente. Saraiva cai do céu na batalha de Gibeom, e o Sol e a Lua param em seu curso até que Josué vingue o Senhor de Seus inimigos e conquiste a vitória para o Seu povo. Assim havia sido nos dias de outros juízos anteriores, pois é a “Deus, a Quem a vingança pertence”. Deus é o Juiz, como foi sinalizado desde o princípio. Pois foi o próprio Senhor Quem tomou em Suas mãos o castigo de Caim (Gênesis 4:15). Foi o próprio Senhor Quem fez brotar as águas de Noé. Foi o próprio Senhor Quem fez chover fogo e enxofre sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. Foi o próprio Senhor Quem enviou praga sobre praga sobre a terra do Egito e, por fim, olhou através da coluna de nuvem e submergiu os exércitos egípcios no Mar Vermelho.
Assim, se lermos o Apocalipse, que descreve para nosso aprendizado o juízo do mundo pouco antes da vinda da glória ou do reino, descobriremos que será o próprio Senhor Quem abrirá os selos e liberará as visitações da ira; e, por fim, como o Cavaleiro do cavalo branco, derrotará toda a força confederada e apóstata do mundo. Esse Cavaleiro, vindo do céu para julgar a besta e seu exército, é como o Senhor olhando através da nuvem para o exército do Egito.
De fato, Josué parece ter captado de forma impressionante a essência do momento. As pedras de saraiva, reconheço, podem ter lhe indicado que o Senhor nos céus estava assumindo a batalha como Sua. Mas a história de outros dias de juízo, como os que mencionei, de Caim, Noé, Ló e Moisés, era suficiente para lhe mostrar que Ele era o próprio Executor do juízo, e Josué, portanto, colocaria agora as armas de guerra e os instrumentos de vingança em Suas mãos. Ele captou de forma primorosa, repito, a essência do momento. Ele nos lembra o João dos evangelhos. João representa aquela percepção e empatia espiritual que permitia descobertas rápidas e quase instintivas de seu Senhor. E Josué agora profere seu célebre oráculo, como se estivesse ouvindo e observando as grandes ordenanças nos céus, sem qualquer reserva ou contenção em seu espírito, com toda a liberdade e autoridade: “Sol, detém-te em Gibeom, e tu, Lua, no vale de Ajalom”. Ele sabia que o juízo era obra de Deus; e o entregaria em Suas mãos. Sabia que Deus lutava por Israel, e ele confiaria a batalha a Ele. Esse tom de decisão, fruto da clareza à luz e do conhecimento da mente de Cristo, é algo muito nobre. Os espias, no segundo capítulo, não hesitaram nem tiveram dúvida ao prometer segurança a Raabe. Não atravessaram o Jordão novamente para obter a autorização de Josué. Sabiam que tinham título para prometer a salvação a ela, pecadora como era, cananeia como era. Tinham o espírito de fé e eram vasos da luz de Deus. “Julgaram em si mesmos”. Eles sabiam qual era a boa, agradável e perfeita vontade de Deus naquele momento; e assim, aqui, no décimo capítulo, Josué não se demora nem hesita, mas age prontamente e com decisão, e isso, inclusive, além do que se poderia considerar as mais elevadas prerrogativas de uma criatura, mesmo em graça. Ele falou aos céus, dando ordens ao Sol e à Lua.
Maravilhoso! O Espírito, registrando tal momento, faz uma pausa para admirá-lo. “E não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, ouvindo o Senhor assim a voz de um homem”.
Uma ocasião verdadeiramente grandiosa; mas há dias semelhantes depois, e ainda assim não há espanto neles. Jesus comanda os ventos e as ondas. Ele detém as forças da natureza, sejam elas celestiais ou terrenais, mas o Espírito, que também registra esses feitos, não os considera espantosos, pois de fato não eram. A voz de Josué era apenas “a voz de um homem”, como lemos, Cristo era “sobre todos, Deus bendito eternamente”. Mas este momento pode ser de plena admiração para nós. Josué sabia que a batalha pertencia ao Senhor em favor do Seu povo, e que o juízo ou a vingança também Lhe pertenciam, e ele desejava que o Sol e a Lua esperassem e dessem tempo ao Senhor até que Ele concluísse Suas obras, Suas obras poderosas e estranhas, Suas obras de misericórdia e de juízo.
E, como lemos adiante nestes capítulos, o Senhor endurece o coração dos cananeus neste seu dia de juízo, assim como anteriormente havia endurecido o coração de Faraó em seu dia de juízo, e como tornará, em breve, insano o mundo antes de julgá-lo, enviando a operação do erro. O coração dessas nações dos amorreus estava agora endurecida a ponto de vir contra Israel para a batalha e investir contra os grossos escudos do Todo-Poderoso, como lemos; ou, como lemos ainda, para recalcitrarem contra os aguilhões no espírito insensato da autodestruição.
E aprendemos igualmente com esses capítulos que o exército conquistador de Israel retornou a Gilgal, onde o arraial estava montado. Gilgal havia sido o local de sua circuncisão, e a circuncisão era o sinal de sua nova condição. Ela havia removido o opróbrio do Egito. Tudo o que é passado, é passado para um povo circuncidado ou batizado. Tais pessoas renunciaram a si mesmas. A circuncisão simbolizava o abandono, por parte de Israel, de tudo o que lhes pertencia e a adoção do Senhor como sua fonte de confiança e força, e o segredo de todas as virtudes neles contidas. “A circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. Ela contradiz e revela a carne, e se glorifica no Senhor. E quando tal coisa poderia ser lembrada de forma mais apropriada? Quando Gilgal pode ser revisitada de maneira mais oportuna, senão após a vitória? A vitória pode ensoberbecer. É difícil usar um dia glorioso com modéstia. Mais difícil ainda é usar uma vitória do que conquistá-la, como já foi dito. Abraão a usou bem. Em espírito, ele retornou a Gilgal depois dela, e assim também o exército de Israel ali. “Quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis”. As honras que haviam conquistado foram depositadas no altar de Deus, ou aos pés do Senhor. A circuncisão deles foi lembrada, eles próprios foram despojados de si mesmos, agora eram um exército de conquistadores circuncidados. A vitória deles era a d’Ele. “Então Josué, e todo o Israel com ele, voltou ao arraial em Gilgal” (veja cap. 5:9; 9:6; 10:6, 43). Siló será o lugar do tabernáculo em breve (cap. 18); Gilgal é agora o lugar do arraial, e também do exército após suas vitórias.
O catálogo dos reis e seus países, agora reduzido, encerra esta seção do nosso livro: “E”, como lemos, “a terra descansou da guerra”.
