Origem: Livro: Notas sobre Josué

A Divisão da Terra – Josué 13-21

A divisão da terra segue-se após a sua conquista. Ela se torna herança de Israel assim que é tomada das mãos dos amorreus. Havia chegado o tempo do juízo do povo da terra, e juntamente com isso, havia chegado o tempo de colocar os filhos de Abraão na posse dela. Se os amorreus já haviam enchido a medida de seus pecados, Israel já havia enchido a medida de sua escravidão e de sua peregrinação. O vaso é purificado, e então o tesouro é colocado nele. Assim é sempre. Tem que ser assim. Estas são as exigências da santidade e da graça, e tais exigências certamente devem ser satisfeitas. Esta é a imagem do modo de Deus agir, necessariamente assim, do princípio ao fim. Por que, então, a obra do Criador no princípio, se o descanso do Criador não havia de se seguir? E por que, então, os juízos que, no fim, devem limpar a Terra de suas opressões e corrupções, se o reino e a glória não haviam de se seguir? Um dia milenar há de vir após os juízos, assim como o descanso do Criador sucedeu à Sua obra, ou como o novo mundo surgiu de debaixo do juízo do antigo por meio do dilúvio; ou como a sorte, no dia de Josué, sucedeu à espada, como a divisão da terra, sucedeu a conquista da terra; ou assim como as vitórias de Davi abriram caminho para o cetro, o cetro de paz de Salomão (veja Números 33:50-56). Tudo isso é seguro e simples: santidade e graça, como dissemos, fazem essas exigências, e tais exigências devem ser satisfeitas da maneira mais perfeita de Deus.

Mas há mais. A terra, agora tomada das mãos dos ímpios e feita a porção dos eleitos de Deus, deve ter certas características novas e adequadas gravadas sobre ela. Isso também precisa ser assim. Se o Senhor age, é para conduzir a Si mesmo ao descanso; se Ele julga e elimina a iniquidade, é para conduzir-Se ao reino; e então, assim que Ele entrar em Seu descanso, ou assumir Seu reino, Seu descanso e Seu reino terão características impressas neles, dignas de Sua mão e presença. O novo mundo após o dilúvio testemunhou Sua adoração e Seu governo, o altar e a espada de Noé nos contam isso. Eles deram caráter àquele novo mundo. Os dias de Salomão carregavam suas marcas adequadas da mesma maneira. Debaixo de suas videiras e figueiras, Israel comia, bebia e se alegrava, em número tão grande quanto os grãos de areia da praia; o templo foi construído; a paz fluía como um rio; e os reis distantes da terra esperavam pelo Rei em Jerusalém. Assim, como sabemos, o mundo milenar terá os vestígios da presença das glórias de Cristo em toda parte. Ele carregará suas próprias características de forma profunda e brilhante. Será um mundo redimido do homem e de Satanás e tornado do Senhor; e, como pertencente ao Senhor, terá seus próprios novos frutos e características, exuberantes, viçosos e florescentes sobre ele, que revelarão a Quem pertence e o que ele é.

E assim se vê no desenrolar destes capítulos. A terra de Canaã, estando agora na possessão do povo de Deus, ostenta muitos e muitos emblemas que proclamam suas novas condições, tais como os amorreus nunca colocaram nem jamais poderiam ter colocado sobre ela. Assim, ela torna-se um santuário, o cenário e o testemunho da adoração a Deus. O tabernáculo é erguido em Siló. Em toda a sua extensão, torna-se, como falamos, um mundo religioso, a sede de uma ordem religiosa, com ministros de Deus dotados e estabelecidos em todas as partes do país, ocupando-se continuamente no serviço a Deus. Em toda a sua extensão, também se faz provisão para a manutenção da justiça entre os homens. A instituição das cidades de refúgio demonstra isso, pois ali o inocente deveria encontrar abrigo até que uma questão duvidosa entre ele e seu próximo pudesse ser resolvida, segundo a verdade e a justiça.

Tais eram algumas das grandes e adequadas características gravadas sobre a terra agora resgatada dos incircuncisos e feita a porção do povo de Deus. Eles constituem a expressão plena de um mundo religioso, da Terra trazida de volta a Deus. Canaã estava agora purificada pelos juízos, distribuída entre as tribos do Senhor, tornando-se o cenário da adoração divina, a Igreja e o Estado unidos, e os fins da santidade de Deus, assim como os fins da justiça entre os homens, estavam assegurados. Era um pequeno mundo, feito de Deus – uma amostra da Terra restaurada, ou trazida de volta a Ele – uma sombra dos bons dias que virão, quando o mundo inteiro, a Terra em sua extensão e largura, tomada pelo Senhor, terá os sinais de sua santificação, o conhecimento de Sua glória cobrindo-a como as águas cobrem o mar, o nome de Jesus se elevando a cada sacrifício da manhã e da tarde, e o cetro da justiça mantendo tudo em santa ordem em todas as condições e relacionamentos dos homens.

Contudo, encontramos algo de outra natureza na verdadeira condição das coisas. A terra ainda não estava totalmente conquistada, embora estivesse totalmente dividida; e isso era assim porque Israel havia de ser colocado à prova. Eles foram colocados na possessão da terra pela graça do Deus de seus pais, mas deveriam mantê-la como um povo ligado à obediência, sob a lei que eles mesmos haviam desafiado, ou ao menos assumido, no Monte Sinai. Em certo sentido, portanto, eles agora possuíam sua herança; em outro, não a possuíam. E, consequentemente, ao longo destes capítulos, lemos uma linguagem tão diversa quanto a seguinte. Pode soar dissonante e transmitir a sensação de inconsistências, mas tudo está moral e belamente correto quando, no devido tempo, nos familiarizamos com as condições do povo que agora habitava a terra.

A linguagem a que me refiro encontra-se nestas duas passagens: “Desta maneira deu o Senhor a Israel toda a terra que jurara dar a seus pais; e a possuíram e habitaram nela. E o Senhor lhes deu repouso de todos os lados, conforme a tudo quanto jurara a seus pais; e nenhum de todos os seus inimigos pôde resisti-los; todos os seus inimigos o Senhor entregou-lhes nas mãos”. E novamente – “Era, porém, Josué já velho, entrado em dias; e disse-lhe o Senhor: Já estás velho, entrado em dias; e ainda muitíssima terra ficou para possuir”.

Ora, essas passagens, e outras que poderiam ser citadas, soam como discordantes e parecem historicamente inconsistentes; mas, moralmente, ou segundo as condições em que Israel se encontrava agora em sua herança, tudo é correto e compreensível. Eles não foram estreitados em Deus, que estava pronto para estabelecê-los plenamente, mas poderiam estar estreitados em si mesmos e perder a terra. Parte da terra ficou por ser conquistada, mas toda ela foi dividida para que Israel fosse colocado à prova. Assim, todo estado de coisas é simples e fácil de entender. Deus era fiel e manifestaria o cumprimento de todos os Seus compromissos graciosos. Israel ainda precisava provar sua fidelidade. (Aprendemos como eles falharam de imediato. O Boquim de Juízes 2 nos conta isso.)

A terra totalmente dividida pode nos dizer como o Senhor foi fiel e lhes deu tudo o que foi prometido, como lemos aqui; os habitantes apenas parcialmente subjugados podem nos dizer que Israel ainda precisava ser provado e que ainda não tinha plena possessão da terra, como também lemos aqui.

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