Origem: Livro: Força que Vem de Deus
Exercício da Alma – Ester 4-5
Os diversos exercícios da alma nestes capítulos, como vemos em Ester e Mardoqueu, são de grande interesse. A mão e o Espírito de Deus atuam juntos de maneira tão maravilhosa na história de Israel, como vemos nos Salmos e nos profetas: Sua mão moldando as suas circunstâncias; o Espírito, a sua mente. E essas duas coisas ocupam uma parte muito grande da palavra profética. E encontramos aqui ilustrações vivas e pessoais disso no exercício de coração pelo qual esses dois distintos santos de Deus são vistos passar e nas maravilhosas circunstâncias pelas quais são conduzidos.
Diante do decreto fatal, Mardoqueu jejua e lamenta, vestido de pano de saco. Mas, durante todo esse tempo, ele conta com o livramento. Tal combinação é repleta de glória moral. Elias deu um exemplo disso em seus dias, pois sabia que a chuva estava próxima; mas prostrou-se por terra e colocou o rosto entre os joelhos, como alguém em “súplica fervorosa” (1 Rs 18; Tg 5:16-18 – TB). O próprio Senhor dá outro exemplo disso. Ele sabe e testifica que está prestes a ressuscitar Lázaro do sono, o sono da morte; mas chora ao Se aproximar do sepulcro. Assim também acontece com Mardoqueu. Ele não afasta seu luto. Recusa-se a ser consolado enquanto o decreto contra o seu povo está em vigor, embora conte, certamente conte, com o livramento deles de uma forma ou de outra. Esta é outra das combinações necessárias à formação do caráter ou à glória moral; um exemplo das quais já mencionei, neste “verdadeiro israelita”.
Força para os fracos
E Ester, tão bela em sua geração quanto um vaso mais frágil, pode precisar ser fortalecida por Mardoqueu, mas demonstra profunda compaixão pelos fardos de sua nação. Ela vê as dificuldades e sente os perigos; e, por um tempo, fala a partir de suas circunstâncias. Não há nada de errado nisso. Ela conta a Mardoqueu sobre o risco que correria se comparecesse à presença real sem ser chamada. Não há nada de errado, repito, em falar assim, a partir de suas circunstâncias, embora possa haver fraqueza. Mas Mardoqueu a aconselha, como um vaso mais forte; e ele se mostra acima das circunstâncias e das afeições, na causa de Deus e de Seu povo. Ele envia uma mensagem decisiva a Ester, embora a amasse muito; e permanece calmo e de coração firme em meio a esses perigos. Ele se mantém acima das correntes das águas dessa maneira, no poder d’Aquele que pisou todas as ondas por nós. Não há fermento nem mel, por assim dizer, na oferta que ele está fazendo; ele não consulta carne e sangue, nem observa a braveza das águas. Sua fé está na vitória; e o vaso mais frágil é fortalecido por meio dele. Ester decide ir até o rei. Se ela perecer, perecerá; mas ela se sente edificada por arriscar tudo por seu povo. E, no entanto, embora ela não desmaie pela provação, também não a desprezará: pois ela terá Mardoqueu e seus irmãos esperando com um espírito humilde e dependente, para que ela receba misericórdia e seu caminho até a presença do rei prospere.
Assim, ao final do jejum, que haviam combinado por três dias, ela arrisca a própria vida e permanece no pátio interno do palácio real, enquanto o rei estava sentado em seu trono. Mas o coração dos reis está nas mãos do Senhor; e assim se comprova neste caso. Ester alcançou o favor de Assuero, que lhe estendeu o cetro de ouro.
Uma questão nas mãos de Deus
Isso era tudo. Isso revelava o desfecho de toda a questão. Tudo dependia do movimento do cetro de ouro. Era o Espírito de Deus, o conselho e a vontade divina, a soberania e a graça de Deus que ordenavam tudo isso. A nação já estava salva. O cetro havia decidido tudo em favor dos Judeus e para a confusão de seus adversários, por mais poderosos, numerosos e astutos que fossem. Deus havia tomado a questão em Suas próprias mãos; e se Ele é por nós, quem será contra nós? “Estarás longe da opressão”, o Senhor estava agora falando para o seu Israel, “porque já não temerás; e também do terror, porque não chegará a ti. Eis que seguramente poderão vir a juntar-se contra ti, mas não será por Mim; quem se ajuntar contra ti cairá por causa de ti. Eis que Eu criei o ferreiro, que assopra as brasas no fogo, e que produz a ferramenta para a sua obra; também criei o assolador, para destruir. Toda a ferramenta preparada contra ti não prosperará, e toda a língua que se levantar contra ti em juízo tu a condenarás” (Is 54:14-17). Ester aproximou-se e tocou o cetro. Ela usou a graça que a visitara, mas usou-a com reverência, e o cetro foi fiel a si mesmo. Não despertou nenhuma esperança que não estivesse agora pronta para se concretizar. Já lhe havia falado de paz; e a paz, e muito mais do que paz, lhe seria concedida. “Que é que queres, rainha Ester?” Disse Assuero a ela: “ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará”.
Isto é muito bendito. O cetro, digamo-lo novamente, foi fiel a si mesmo. Que verdade é transmitida aqui! A promessa de Deus, a obra do Senhor Jesus, são como este cetro. Estas vieram antes – penhores sob a mão e da boca de nosso Deus – e a eternidade lhes será fiel; e eras intermináveis de glória, testemunhando a salvação, os confirmarão. Nada é grande demais para a redenção de tais penhores: como aqui, metade dos domínios do rei são colocados aos pés e à disposição de Ester.
Perfeita sabedoria do Espírito
Mas a forma como ela lida com a oportunidade, assim colocada em sua possessão, é um dos frutos mais excelentes e maravilhosos da luz e da energia do Espírito que vemos, em meio às muitas maravilhas deste livro, em toda a obra da grande mão de Deus.
Em vez de pedir metade do reino, em vez de desejar imediatamente a cabeça do grande amalequita, ela pede que o rei e Hamã venham a um banquete de vinho que ela havia preparado para eles. Estranho, de fato! Quem poderia ter previsto tal aceitação de um tão ilimitado penhor e promessa? Isso nos faz lembrar a resposta do Mestre divino, d’Aquele que é “a sabedoria de Deus”, à mulher samaritana. Ela pediu a água viva, e Ele lhe disse para chamar seu marido! Estranho, ao que parece, além de qualquer explicação. Mas, como sabemos, era um raio da mais pura luz que emanava da Fonte da Luz. E assim, aqui, a resposta de Ester foi estranha, de fato. Mas veremos que foi nada menos que o testemunho da perfeita sabedoria do Espírito que a iluminava e guiava. Era o modo de conduzir o grande adversário à pleno amadurecimento de sua apostasia, para que ele atingisse aquela poderosa elevação em orgulho e autossatisfação, da qual a mão de Deus havia preparado desde o princípio para derrubá-lo. Ester, sob a influência do Espírito, lidava com Hamã, assim como a mão de Deus havia lidado com Faraó no Egito. O vaso da ira havia se preparado novamente para o juízo; e ele deveria cair do pináculo para o qual seus próprios desejos e o deus deste mundo o impulsionavam. Ester é o instrumento nas mãos de Deus para lhe dar a ocasião de, assim, completar a plena forma de sua apostasia. Ester se revela maravilhosamente no segredo de tudo isso. Ela convida Hamã e o rei, no segundo dia, assim como no primeiro – somente esses dois juntos; e quando isso aconteceu, alcançou-se a vertiginosa altura da qual o apóstata estava destinado a cair.
Ele não suporta tudo isso. É demais para ele. Seu coração está sobrecarregado; o orgulho satisfeito o encheu por completo. Ele não consegue se conter; mas a corrupção o leva pelo caminho da natureza – um triste veredito contra a natureza. Mas assim é. Era natural que ele expusesse todas as suas glórias à sua esposa e aos seus amigos. Carne e sangue podem apreciar isso; e o orgulho precisa ter tantos cortesãos e devotos quanto puder. E precisa também de suas vítimas. Mardoqueu ainda se recusa a se curvar; e uma forca de cinquenta côvados de altura é erguida para que ele seja enforcado nela.
