Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais
A Fé do Filho de Deus
Há um caráter de verdade na Epístola aos Gálatas, muito oportuna neste tempo presente e muito fortalecedora para a alma em todos os tempos.
Ela nos ensina a saber que a religião da fé, é a religião da confiança pessoal imediata em Cristo. Uma verdade que é, repito, oportuna em dias como os atuais; quando as provisões e reivindicações de certas formas eclesiásticas terrenais e um sistema de ordenanças, sugeridos pela mente religiosa e carnal, são abundantes e fascinantes. Aprender, em todos os tempos, que nossa alma deve ter sua ocupação imediata com Cristo é reconfortante e assegurador. Ouvir isso novamente, em um tempo como o presente, é necessário.
O apóstolo é muito fervoroso nesta epístola, de forma natural e apropriada, como todos nós deveríamos ser, como todos nós precisamos ser, quando alguma possessão corretamente valorizada é invadida; quando alguma porção preciosa da verdade, a mais preciosa de todas as possessões, é adulterada.
Nesta epístola, em primeiro lugar, como no início, o apóstolo nos faz saber, com grande força e clareza, que ele havia recebido seu apostolado diretamente de Deus; não apenas sua comissão ou seu ofício, mas também suas instruções; aquilo que ele tinha para ministrar e testemunhar, bem como sua nomeação e ministério em si. Ele era um apóstolo diretamente de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo; e o que ele sabia e ensinava, ele obtinha por revelação direta e imediata.
E, em conexão com isso, ele nos diz que, assim como Deus havia tratado imediatamente com ele, ele, em resposta à confiança, tratou imediatamente com Deus. Pois, tendo recebido a revelação, tendo o Filho revelado nele, ele imediatamente se absteve de consultar carne e sangue. Ele não subiu a Jerusalém, para aqueles que eram apóstolos antes dele, mas desceu para a Arábia, carregando, por assim dizer, seu tesouro consigo; não buscando aperfeiçoá-lo, mas como alguém que estava satisfeito com ele exatamente como era, isto é, com o Cristo que agora lhe havia sido dado.
E, aqui, permitam-me dizer, isso nos traz à mente o Evangelho de João, pois ele nos dá, antes deste tempo de Paulo, exemplo após exemplo da alma encontrando sua satisfação em Cristo. Cada um que foi vivificado ali ilustra isso. André, Pedro, Filipe e Natanael – no primeiro capítulo, depois a samaritana e seus companheiros em Sicar, e então a adúltera convicta e o mendigo excluído – todos eles nos dizem, em linguagem que não pode ser confundida, que encontraram satisfação em Cristo, que tendo estado a sós com Ele em seus pecados, agora eram independentes – tendo um contato pessoal e imediato com Ele como o Salvador, não buscaram outro lugar. A Arábia servirá para eles tão bem quanto Jerusalém, assim como na experiência de Paulo em Gálatas. Eles nunca parecem consultar a carne e sangue. As ordenanças não são, em medida alguma, sua confiança. A alma deles está provando que a fé é o princípio que coloca os pecadores em contato imediato com Cristo e os tornam independentes de tudo o que o homem pode fazer por eles.
Quão indizivelmente abençoado é ver tal estado de espírito ilustrado em qualquer companheiro pecador, em homens “sujeito às mesmas paixões que nós”, mesmas corrupções, mesmo estado de culpa e condenação. Tais coisas certamente foram escritas para o nosso aprendizado, para que, pelo conforto dessas Escrituras, tenhamos segurança e liberdade.
E o que é assim ilustrado no Evangelho de João em exemplos vivos para nosso conforto, é ensinado e imposto a nós nesta fervorosa Epístola de Paulo aos Gálatas. Tendo mostrado às igrejas da Galácia o caráter de seu apostolado, como ele recebeu tanto sua comissão quanto suas instruções diretamente de Deus, e não era devedor por nada à carne e ao sangue, a Jerusalém, a cidade das solenidades, ou àqueles que foram apóstolos antes dele; e tendo revelado, por assim dizer, seu próprio espírito a eles, dizendo-lhes que a vida que ele agora vivia era pela fé no Filho de Deus, ele começa a desafiá-los; pois eles não estavam nesse estado de espírito.
Ele os chama de “insensatos” e lhes diz que foram “fascinados”. Pois como poderia ele deixar de detectar a ação de Satanás no fato de terem sido afastados do lugar onde o Espírito e a verdade, a cruz de Cristo e a fé os haviam colocado de uma vez por todas? Mas então ele raciocina com eles, argumenta o assunto e convoca suas testemunhas. Ele os faz juízes deles mesmos, apelando para o primeiro estado deles. “Recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” Ele cita Abraão como prova de que um pecador tinha um relacionamento pessoal imediato com Cristo e, pela fé, encontrava justificação. E ele relembra o caráter do evangelho que havia sido pregado a Abraão, como ele falava de Cristo, do pecador e da bênção sendo colocados juntos e a sós. “Todas as nações serão benditas em ti (a semente de Abraão, que é Cristo)”. Evangelho precioso! Cristo, o pecador e a bênção unidos em um só feixe.
E ele continua confirmando e estabelecendo isso, ensinando-lhes como Cristo levou sobre Si a maldição e, portanto, certamente tinha o direito de conceder a bênção.
Certamente, essas são testemunhas que podem ser bem recebidas, como prova do caráter divino da religião da fé, que é a confiança imediata do pecador em Cristo.
Mas então, ele realiza outros serviços nesta mesma causa. Ele prossegue nos contando as coisas gloriosas que a fé opera e realiza em nós e por nós. “Mas, depois que veio a fé”, ele nos diz em Gálatas 3:25-27, “já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo”. Aqui estão preciosas obras de fé! Ela dispensa o aio; traz a alma a Deus como a um pai, e então reveste o crente com o valor de Cristo aos olhos e à aceitação de Deus. E “Deus enviou aos vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gálatas 4:6). E fomos redimidos de “debaixo da lei” (Gálatas 4:5). Pode-se conceber um sentido mais pleno e perfeito de um relacionamento imediato entre Cristo e a alma do que o expresso e declarado por tais afirmações? Fomos tirados de debaixo da lei – o aio e, com ele, tutores e governadores se foram; somos filhos em casa, na casa do Pai, e temos os direitos e a mente do próprio Primogênito investidos sobre nós e transmitidos a nós! Pode alguma condição de alma demonstrar de forma mais abençoada nossa independência dos recursos de uma religião de ordenanças e a conexão pessoal e imediata do pobre pecador com o próprio Cristo?
Mas Paulo encontra as igrejas na Galácia em um estado de afastamento. Elas haviam se voltado novamente para “rudimentos fracos e pobres”. Estavam guardando “dias, e meses, e tempos e anos”. Era quase um retorno à sua antiga idolatria, como ele solenemente lhes sugere, servindo “aos que por natureza não são deuses”, como vinham fazendo nos dias de sua ignorância pagã do verdadeiro Deus (Gálatas 4:8). Em que conexão ele coloca aqui o Cristianismo meramente formal e que observa ordenanças impostas? Isso não é solene? Não foi o suficiente para alarmá-lo? E não é assim? “Receio de vós”, diz ele aos gálatas nesse estado, “que não haja trabalhado em vão para convosco”.
Mas, sendo homem de Deus, gracioso, paciente e árduo trabalhador, segundo a obra d’Aquele que operava poderosamente nele, consente em trabalhar novamente – sim, mais poderosamente do que nunca – para sofrer as dores de parto, para os dar à luz novamente. Mas tudo isso foi apenas para este fim: que Cristo pudesse ser formado neles; nada menos, nada mais, nada diferente disto. Ele ansiava pela restauração da alma neles, e isso era: que eles e Cristo pudessem ser imediatamente reunidos de novo; que a fé pudesse ser reavivada neles – a religião simples, sincera e abençoada da confiança pessoal e direta em Deus em Cristo Jesus; que, assim como nele mesmo, o Filho pudesse ser revelado neles; que, recuperando Cristo na alma deles, pudessem provar que não precisavam de mais nada.
Como é edificante traçar o caminho de tal espírito sob a condução do Espírito Santo! Como é reconfortante ver o propósito de Deus, por meio de tal ministério, para com as almas dos pobres pecadores! Como isso nos permite aprender o que é o Cristianismo na avaliação do próprio Deus! Passar à observância de dias e tempos, o retorno às ordenanças, é destrutivo para esta religião; é o mundo. “Por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo?” (AIBB), como diz o mesmo apóstolo em outro lugar. Confiança nas ordenanças não é fé em Cristo. É a religião da natureza, da carne e do sangue; é do homem, e não de Deus.
E certamente carregam em seu rastro as paixões do homem. A religião do homem deixa o homem como o encontrou – na verdade, acalenta e cultiva as corrupções do homem. Isso se manifestou em Ismael nos primeiros dias – não, em Caim antes dele – mas em Ismael, como o apóstolo continua a mostrar nesta mesma epístola. E ele declara que era então, em seus dias, o mesmo; e gerações de Cristianismo formalmente corrupto na história da Cristandade, as prisões da Itália alguns anos atrás, e as prisões da Espanha ainda mais tarde, declaram o mesmo. “como então aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora”. A religião do homem, repito, não o cura; ele é deixado por ela como presa das sutilezas e da violência de sua natureza, cativo ainda da antiga serpente, que tem sido mentirosa e homicida desde o princípio.
O decreto, no entanto, foi pronunciado. Foi entregue nos dias de Isaque e Ismael, de Abraão e Sara; é repetido e selado novamente pelo próprio Espírito nos dias do apóstolo Paulo; e devemos recebê-lo como estabelecido para sempre. É este: “Lança fora a escrava e seu filho” (Gálatas 4:30).
Que consolo ter esta importantíssima questão entre Deus e o homem resolvida! E, de acordo com esse consolo, ouvimos esta palavra adicional: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gálatas 5:1).
Tudo, certamente, é de uma só e da mesma natureza. O Espírito Santo, por meio do apóstolo, está preparando o princípio, o grande princípio orientador e ordenador da religião divina. É a fé; é a confiança pessoal e imediata do pecador em Cristo; é a alma encontrando satisfação n’Ele e naquilo que Ele fez por ela; e numa religião como esta, o pecador, na possessão desta fé, é colocado, como posso expressar, ao lado da glória. O apóstolo rapidamente nos diz isso, após nos ordenar a permanecer firmes na liberdade do evangelho, pois acrescenta: “Porque nós, pelo Espírito, sob o princípio de fé, aguardamos a esperança da justiça” (Gálatas 5:5 – JND). Esta esperança é a glória que há de ser revelada – a “glória de Deus”, como diz uma passagem semelhante (Romanos 5:2). Não esperamos por qualquer aperfeiçoamento do nosso caráter, por qualquer avanço da nossa alma. Se ainda vivermos na carne, somente será apropriado crescer “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo”. Mas tais coisas não são necessárias como condição do título. Sendo de Cristo pela fé, estamos próximos da glória. “e aos que justificou a estes também glorificou” (Rm 8). Estando no reino do Filho amado de Deus, somos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Cl 1:12). Como aqui, na liberdade com que Cristo nos libertou, aguardamos apenas a glória; a glória é o objeto imediato da nossa esperança, assim como Cristo é a confiança imediata da nossa alma.
Tudo é magnífico em sua simplicidade, porque é tudo de Deus. Não é de se admirar que a Escritura nos fale tão abundantemente sobre a fé e nos alerte tão zelosamente contra a religiosidade. A “persuasão”, como diz o apóstolo, sob a qual os gálatas haviam caído, não tinha vindo de Deus, que os havia chamado; e o apóstolo soa o alarme, sopra o toque de guerra na trombeta de prata do santuário, proferindo estas vozes em seus ouvidos: “Um pouco de fermento leveda toda a massa”; e ainda: “Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei” (Gálatas 5:8-9, 18).
E na feliz estrutura desta epístola, como também posso falar dela, o apóstolo termina consigo mesmo assim como começa consigo mesmo. Vimos como ele lhes contou, a princípio, sobre as peculiaridades de seu apostolado, como havia recebido tanto sua comissão quanto suas instruções vindas diretamente de Deus, e como então, com uma fé que era a resposta a tal graça, se conduziu de imediato em plena confiança pessoal em Cristo, independentemente de todos os recursos da carne e do sangue. E agora, ao final, ele lhes diz que, quanto a si mesmo, não conhecia outro motivo de glória senão na cruz do Senhor Jesus, por Quem o mundo foi crucificado para ele, e ele para o mundo; e ele lhes diz ainda que ninguém precisa se intrometer ou incomodá-lo, nem afligi-lo ou preocupá-lo, com seus pensamentos sobre a circuncisão e a lei, ou com as obras de uma religiosidade carnal, os rudimentos de um mundo para o qual ele agora estava crucificado, pois ele trazia em seu corpo as marcas do Senhor. Ele pertencia a Jesus por meio de sinais pessoais e individuais, imediatamente impressos nele como pela mão apropriadora do próprio Cristo; e ninguém tinha o direito de tocar no tesouro do Senhor.
Precioso segredo da graça de Deus! Preciosa simplicidade na fé de um pecador ensinado pelo céu! Amados, não é o conhecimento da Escritura, ou a capacidade de falar sobre ela, ou mesmo ensiná-la, de Gênesis a Apocalipse – não são os cultos ordenados da religião – não são os sentimentos devotos – mas, oh! É aquela ação sincera da alma que liga o nosso próprio ser a Jesus, na calma e na certeza de uma mente crente.
