Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo

Filipenses

A Epístola aos Filipenses tem um caráter pastoral muito forte. O vínculo entre a Igreja de Filipos e o apóstolo era estreito e afetuoso. Ele estivera com eles no início de sua história espiritual (Atos 16), e eles continuaram a se comunicar com ele, mesmo quando ele estava longe (cap. 4:15). Eles eram ricos nessa graça peculiar, e o apóstolo encontra regozijo em mencioná-la, mesmo tendo que adverti-los contra certos sinais de desunião que, segundo ele, estavam surgindo entre eles (cap. 4:1-3). Ele trata com esse mal de uma maneira que expressa sua confiança de que havia graça entre eles para vencer a questão, e isso confere à sua abordagem um tom profundamente terno e afetuoso. E isso certamente deve nos ensinar que, quando vemos muita graça de Cristo em algum santo companheiro, devemos dar-lhe o devido crédito por isso e administrar qualquer correção ou repreensão que considerarmos necessária à luz dessa graça.

Não há uma ordem estrita de ensino doutrinal nesta epístola, contudo, há muito de grande valor para os santos ao demonstrar as energias da vida que eles já possuíam em Cristo (cap. 1), ao apresentar-lhes o modelo perfeito dessa vida no exemplo do Senhor enquanto esteve aqui entre os homens (cap. 2), o progresso e o objetivo de alguém em quem essa vida atuava com toda a sua força e energia (cap. 3) e a descoberta em Cristo de tudo o que o coração busca em termos de paz e poder (cap. 4), em um mundo onde tudo tende a perturbar a alma.

Os santos são vistos aqui em meio a uma “geração corrompida e perversa”, trilhando seu caminho na companhia do Deus de toda graça, que supre todas as suas necessidades. Há adversários, e a própria morte pode pôr fim à sua jornada, mas tudo está bem. Viver é Cristo e morrer é lucro. A jornada pode ser longa ou curta, mas o fim é abençoado. A “salvação”, ao longo da epístola, refere-se à libertação plena e definitiva de todo o mal, com uma entrada triunfal naquela glória na qual Cristo já entrou. A mente humilde e as afeições graciosas que caracterizam aqueles cujos olhos estão fixos no Exemplo perfeito de humilhação, entrega e submissão testemunhados no Senhor são, de maneira bela, descritos por Timóteo e Epafrodito no capítulo 2. A energia que provém da contemplação de Cristo em glória, permitindo ao santo considerar tudo o que está aqui como escória, é vista no capítulo 3.

A ressurreição que Paulo aguardava era uma ressurreição à semelhança da do próprio Senhor. Certamente, ela possuía qualidades peculiares. Era uma ressurreição dentre os mortos, vitoriosa sobre a morte. Ele detinha o poder dela em Si mesmo ou em virtude do que Ele era. Ele era as Primícias de uma colheita que, no devido tempo, se seguiria segundo a sua espécie. Seu povo, diferentemente d’Aquele que, por este título de Primícias, lhes garante participação em Seu triunfo, não possui em si mesmo tal virtude como Ele tem: ela lhes é conferida por infinita graça; eles participam do Seu triunfo porque “são de Cristo”. Contudo, certamente é uma bênção saber que a ressurreição deles será dentre os mortos, como foi a do seu Senhor – uma ressurreição vitoriosa. Este era o objetivo do apóstolo, e para ele Paulo prosseguia. Seus olhos estavam voltados para os regozijos distantes, e por eles deixou tudo para trás, avançando em direção a eles. E celestial também é a cidadania do santo. Sua herança está lá, no lugar para o qual foi chamado quando foi alcançado pelo Senhor em glória. Sua esperança também reside ali. Ele anseia pelo Salvador, que é o Objeto do seu coração, Aquele que realizará por Sua mão aquilo para o qual, em Sua graça, vinha preparando o coração do Seu santo e servo para buscar – para ser semelhante a Ele e estar com Ele para sempre.

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