Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo

Gálatas

Creio que poderíamos descrever sucintamente esta epístola da seguinte forma: “a Escritura” pelo ministério de Paulo agora, como outrora pela voz de Sara, expulsando a escrava e seu filho da casa de Abraão.

O apóstolo, para isso, primeiro comprova sua autoridade. E ele o faz com perfeição nos capítulos 1 e 2, mostrando que recebeu seu evangelho, pura e imediatamente, do próprio Deus, de uma maneira que não admitia qualquer interferência humana; e que, sob a plena autoridade consciente de um evangelho assim recebido, ele já havia encontrado a escrava e seus costumes na pessoa do apóstolo Pedro em Antioquia, e resistido a ela – comprovando, assim, seu ministério presente em pequena escala, por assim dizer; ou, como Sansão matando o leão a caminho da cova dos filisteus na Galácia, quando encontraria um exército deles.

Além disso, ele usa a experiência da própria alma deles e as vozes das Escrituras referentes a Abraão e à lei como testemunhas adicionais. Ele as utiliza, por assim dizer, para selar sua autoridade para realizar esta grande obra em nome do Senhor (cap. 3). E, mais ainda, ele mostra que o tempo havia chegado plenamente, quando o Senhor havia amadurecido todos os Seus atos dispensacionais até este exato momento de expulsar a escrava e seu filho (cap. 4:1-7).

Nada poderia ser mais perfeito do que uma autorização assim entregue, assim confirmada, assim selada e assim respaldada, se posso falar assim, pelos próprios atos de Deus. O apóstolo, portanto, com total tranquilidade e autoridade consciente, encontra-se na companhia de Sara em Gênesis 21. Assim como ela então conhecia o seu direito, sem licença do seu marido ou um pedido de desculpas a quem quer que fosse, de exigir sumariamente a expulsão de Agar e Ismael da casa, assim também Paulo faz aqui. Ele mostra o que é a Agar moderna ou mística – que é a religiosidade da mera natureza, ou um sistema de observâncias e ordenanças, imposto ou revivido pelo homem nas igrejas dos santos – essa formalidade de dias, meses, tempos e anos, que gera o espírito de escravidão e impede a formação de Cristo na alma, e aquele espírito de liberdade que Ele sempre traz Consigo. E a expulsão desta Agar, esta escrava, da casa de Abraão, ou das igrejas dos santos, ele exige com a mesma decisão plena e implacável com que Sara exigiu a expulsão de Agar, a egípcia, e de seu filho zombador (caps. 4:8; 5:12).

Mas, se me permitem dizer, a energia do apóstolo supera até mesmo a de Sara. E isso é correto. É correto que, à medida que avançamos nos caminhos e pensamentos revelados de Deus, e passamos do tempo de Gênesis 21 ao tempo de Gálatas 5, encontremos as energias e exigências do Espírito ainda mais amplas e intensas. Frequentemente vemos isso. Estava escrito antigamente: “Não jurarás falso” (ARA); mas, em um período posterior, está escrito: “de maneira nenhuma jureis”.[6] Portanto, aqui, as exigências de Paulo são de certa forma maiores e mais intensas do que as de Sara. Ela se contentou com a expulsão de Agar e do menino, mas Paulo exige, além disso, que tudo aquilo que lhes pertencia fosse removido da casa. Ele fará o que puder para apagar todo vestígio de sua antiga residência ali. Ele desejava eliminar por completo toda lembrança deles – os próprios costumes que outrora observavam ali, seus hábitos e modos de vida, e o espírito e temperamentos que nutriam e praticavam; tudo isso ele queria que desaparecesse, assim como eles próprios. Ele purificaria até mesmo o ar que sua respiração e presença haviam difundido. Não apenas a religiosidade da carne ele rigorosamente expulsa da casa, os rudimentos fracos e pobres que mantinham a alma em cativeiro, mas também as obras da carne, seus caminhos morais, suas vanglórias e energias. Sim, e também sua presunção e altivez – seu desprezo por uma pobre alma subjugada, por meio da vã ideia de sua própria segurança. Contra tudo isso, e mais do que isso, Paulo ergue sua voz, mais do que a de Sara, sem medir esforços para exigir que a escrava, com tudo o que lhe pertence, assim como seu filho, seja expulsa das igrejas dos santos, ou da moderna casa mística de Abraão. E além disso, ele queria que aquela casa aprendesse e praticasse hábitos exatamente opostos e contrários – os caminhos do Espírito e não da carne, as coisas que convêm à nova criatura em Cristo, e não aquilo que era inseparável da carne (caps. 5:13; 6:10).
[6] Assim como todos sabemos por inúmeros casos, os propósitos dispensacionais de Deus são gradualmente revelados com maior perfeição, e as exigências santas do Espírito tornam-se cada vez mais fervorosas e intensas. Veja um exemplo disso no Salmo 8 e em 1 Coríntios 15.

Ele então nos dá outro testemunho da importância que atribuía a toda essa verdade, escrevendo esta epístola de próprio punho (veja Rm 16:22). Pois a defesa dela exige mais vigor do que a sua publicação (v. 11).

Ele, em seguida, expõe os propósitos morais ou interesseiros daqueles que os estavam conduzindo de volta à circuncisão ou à religiosidade, e ousa apresentar-se como alguém que conhecia o poder do princípio oposto (veja capítulos 1:4; 6:14), com toda a autoridade, também, como vinda de Deus, falando de paz a todos os que se apegavam a esse princípio (vs. 12-17).

E ele conclui com uma despedida apropriada. Pois é o espírito deles que ele encomenda à graça do Senhor (v. 18).

Considero que esses são os principais detalhes desta epístola. E, de modo geral, posso dizer que há nela um tom de peculiar decisão e fervor. O apóstolo sentia como se a própria cidadela estivesse em perigo. Um porta-estandarte em Antioquia quase desmaiara. Ele viera, por assim dizer, ainda sob o impacto daquela visão, e precisava empunhar o estandarte do evangelho com renovado vigor por causa disso, e avançar para a brecha como um homem.

Foi um momento de profundo interesse, e ele não pôde deixar de estar atento a isso. E embora não estejamos comissionados exatamente como ele estava, incumbidos da verdade da dispensação de uma maneira especial (1 Coríntios 9:17), ainda assim estamos como que no cortejo deste grande embaixador, para termos a mesma mente que ele e não darmos lugar em submissão, nem por um momento, caso as minas que ameaçam a cidadela forem colocadas novamente.

Compartilhar
Rolar para cima