Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais
A Glória de Deus
O caminho da glória ao longo das Escrituras pode ser facilmente rastreado e tem muito valor moral para nós conectados a ela.
Êxodo 13 – Ela começa sua jornada na nuvem, na libertação de Israel do Egito, quando o sangue pascal, na graça do Deus de seus pais, os havia abrigado.
Êxodo 14 – No momento da grande crise, ela se posicionou, fazendo separação entre Israel e Egito, ou entre o juízo e a salvação.
Êxodo 16 – Ela se ressentiu das murmurações do arraial.
Êxodo 24 – Ela se conecta a si mesma ao Monte Sinai e era como fogo devorador aos olhos do povo.
Êxodo 40 – Ela deixa aquele monte para o tabernáculo, a testemunha da misericórdia, triunfando sobre o juízo, retomando também na nuvem seus serviços graciosos para com o arraial.
Levítico 9 – Havendo o sacerdote sido consagrado, e seus serviços no tabernáculo sendo cumpridos, ela se manifesta ao povo para a grande alegria deles.
Números 9 – Retomando sua jornada em companhia do tabernáculo, a congregação desfruta da condução da nuvem, que agora acompanha o tabernáculo, enquanto a glória o enche.
Números 16 – Na hora da total apostasia, ela se mostra em terror judicial aos olhos do povo rebelde.
Deuteronômio 21 – Na causa de Josué, um vaso eleito e fiel, ela reaparece na nuvem.
2 Crônicas 5 – Ao ser construído o templo, uma nova testemunha da graça, a glória e a nuvem reaparecem para alegria de Israel, como antigamente.
Ezequiel 1-11 – Novamente, em outra hora de completa apostasia, a glória, tomando asas e rodas para si mesma, por assim dizer, deixa o templo.
Atos 7 – Estêvão, um homem rejeitado pela Terra; vê a glória no céu em companhia de Jesus.
Apocalipse 21:9 – Em dias milenares, ela desce do céu em sua nova habitação, a santa Jerusalém, “a Esposa do Cordeiro”, repousando acima no ar, de onde ela sombreia e ilumina as habitações de Israel novamente (Is 4:5), como ela fez uma vez desde a nuvem no deserto, ou entra no segundo templo, o templo do milênio (Ez 43; Ag 2).
Tal é o caminho da glória, o símbolo da presença divina. Sua história, assim traçada, nos diz que, se o homem estiver em companhia da graça, poderá regozijar-se nela; mas que ela é um fogo devorador para todos os que se encontram sob o monte Sinai. Ela nos diz também que, ao mesmo tempo em que ela os anima e os guia em seu caminho, ela ressente-se do mal e se afasta da apostasia do povo professo de Deus.
É muito instrutivo e reconfortante observar essas coisas na história da glória, que era o símbolo da presença divina. E se essa presença se manifesta a si mesma em outras formas, as mesmas lições ainda nos são ensinadas. Os mais eminentes dos filhos dos homens foram incapazes de suportá-la em si mesmos; mas em Cristo todos, altos e baixos, anônimos e ilustres, puderam não apenas suportá-la, mas também se alegrar com ela.
Adão fugiu da presença de Deus. Mas no momento em que ouviu a promessa de Cristo, crendo nela, ele retornou àquela presença com a mais plena e íntima confiança.
Moisés, por mais favorecido que fosse, não pôde suportar isso a não ser em Cristo, a Rocha, a rocha fendida, da salvação (Êx 33).
Isaías, o principal entre os profetas, desfalece ao ver a glória, até que uma brasa do altar, o símbolo de Cristo em Sua obra pelos pecadores, expia seu pecado (Is 6).
Ezequiel e Daniel, companheiros dele no ofício profético, juntamente com ele também falham completamente na presença divina, e são capazes de suportá-la somente por meio da graciosa interferência do Filho do Homem (Ez 3; Dn 10).
João, o discípulo amado, o apóstolo honrado, mesmo no próprio lugar e tempo de seu sofrimento por Jesus, toma para si a sentença de morte ao ver Jesus glorificado, até que Aquele que amou, morreu e viveu novamente falou com ele e lhe deu paz e segurança (Apocalipse 1).
Esses distintos não podem medir a presença divina por nada além da simples virtude do que Cristo é para eles e por eles. Nessa virtude, eles permaneceram nela em paz; e assim, com eles, o mais distante e anônimo do arraial testemunha uma cena já mencionada (Lv 9). Lá, todos os que estavam à porta do tabernáculo contemplando a consagração e os serviços do sacerdote, o Cristo figurado, triunfam na presença da glória; como também em outra cena mencionada (2 Cr 5), quando a arca, outra figura de Cristo, é trazida para a casa de Deus.
O pecado e a justiça são responsáveis por tudo isso.
O pecado é acompanhado por isso, como sua consequência necessária – uma destituição da glória de Deus. “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Isso foi ilustrado nos casos ou nas histórias que venho traçando. O pecado nos incapacita de suportar a força da presença divina. É demais para um pecador. Mas há alívio total, pois se o pecado e a incapacidade de tolerar a presença ou a glória de Deus são moralmente um, assim também o são a justiça e o retorno a essa presença.
O pecado implica uma condição ou estado de ser; assim como a justiça. E assim como o pecado é a incapacidade de se aproximar da glória de Deus, a justiça é aquilo que se aproxima da glória de Deus. É a capacidade de permanecer no seu mais pleno resplendor; como essas histórias também ilustram. Pois em Cristo, por meio das provisões da graça, ou estabelecidos na justiça de Deus pela fé, todos aqueles a quem contemplamos, fossem grandes ou pequenos, encontraram-se à vontade na presença divina.
Experimentamos tudo isso em relação aos nossos semelhantes. Se prejudicamos alguém, instintivamente “ficamos aquém” da sua presença; ficamos incomodados com isso e procuramos evitá-lo. Mas se recebemos o perdão dele, selado com o pleno propósito e amor do seu coração, retornamos à sua presença com confiança. E quanto mais, posso dizer, se víssemos que ele nos concedia esse perdão com toda a habilidade e diligência do amor, e ao mesmo tempo nos dizia que todo o mal que lhe havíamos causado havia sido infinitamente reparado, e que ele próprio tinha boas razões para se regozijar com o prejuízo causado por causa da reparação? Certamente tudo isso formaria uma base e seria a nossa garantia para recuperar a sua presença com mais segurança e liberdade do que nunca.
Ora, assim é o evangelho. Ele autoriza o pecador a cultivar todos esses pensamentos com plena certeza. O erro que cometemos, a ofensa que Adão cometeu contra o amor, a verdade e a majestade de Deus, tudo foi gloriosamente reparado por Cristo. Deus é mais honrado na satisfação do que teria sido se o mal nunca tivesse sido cometido. Todos os Seus direitos são atendidos em suas mais completas exigências e ao seu mais alto grau de louvor. Ele é “Justo e o Justificador daquele que crê em Jesus”.
A fé assume isso, e o crente, portanto, não fica aquém da glória de Deus, embora, como pecador, tenha ficado uma vez. A fé recebe “a justiça de Deus”; e a justiça de Deus pode medir, e de fato mede, a glória de Deus. Em Sua justiça, podemos estar diante de Sua glória. E que a justiça pode, neste sentido, medir Sua glória – que a fé no evangelho, ou no ministério da justiça, pode nos colocar com liberdade ou com o rosto descoberto diante da glória de Deus – é ensinado em 2 Coríntios 3-4; sim, de fato, que a expressão dessa glória só pode ser alcançada no ministério da justiça, a glória plena somente “na face de Jesus Cristo”.
