Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais

A Glória do Unigênito

“O Verbo Se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade”.

Esta foi a manifestação de Cristo como Filho, e declarada por meio do Espírito por João. E é esta glória, esta plenitude de graça e verdade, que resplandece em todo o ministério público de Cristo, conforme registrado por João em João 1-9. E no progresso desse ministério, observei dois atributos ou atuações desta glória. Primeiro: ela sempre se recusa a se unir a outra glória de qualquer tipo que seja. Segundo: ela persevera em se manifestar a si mesma, desafiando todo tipo de resistência.

Essas duas maneiras, constantemente aderidas a ela, evidenciam o valor que ela tinha para si mesma e a firmeza do propósito divino de abençoar o pecador, a cuja condição e necessidades essa glória se adapta.

Em João 2, Jesus é tentado por Sua mãe a deixar que a glória do poder se manifestasse n’Ele. Em João 3, Nicodemos O convida a Se manifestar como Mestre. Em João 6, a multidão queria fazer d’Ele um rei. Em João 7, Seus irmãos queriam que Ele Se manifestasse ao mundo. Em João 8, os fariseus queriam que Ele usasse o trovão do monte Sinai em juízo. Mas nenhuma oferta ou solicitação prevalece. Jesus não Se mostrará a não ser como “cheio de graça e verdade”, ou na glória do “unigênito do Pai”. Ele Se recusa a aparecer em qualquer outra glória ou a agir em qualquer outro caráter. Mas então, nessa glória, Ele resplandecerá, e nesse caráter Ele agirá, seja qual for a resistência ou o obstáculo; e ao considerar isso, eu entraria, no momento, um pouco mais em detalhes.

Em João 4, vemos o Senhor insistindo em resplandecer na glória da graça e da verdade, apesar dos obstáculos e da resistência de uma das partes mais determinada – “a lei dos mandamentos, contida em ordenanças”. Os Judeus não tinham relações com os samaritanos. Mas Jesus, o Filho de Deus, resplandece em um raio tão brilhante e difuso em uma região quanto em outra, recusando-Se a ser impedido.

Em João 5, o Senhor prossegue em Seu caminho com o mesmo caráter inabalável, desafiando o medo ou o perigo. Os Judeus procuraram matá-Lo, porque Ele fez essas coisas no dia de sábado. Mas Sua resposta a tal perigo ou ameaça foi apenas esta: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também”; e Ele continua, ainda persevera, como testemunha do caminho do Pai ou da graça de Deus, embora isso pudesse apenas aguçar a inimizade e predispor os Judeus ainda mais a procurarem matá-Lo.

Em João 6, essa glória peculiar, pela qual sozinho Ele trilhava Seu caminho, novamente encontra um grave obstáculo. O Senhor evidentemente sente uma grande distância moral da multidão. Eles eram, de fato, como falamos, a razão de Seu afastamento. Eles haviam despertado um pouco do santo desgosto de Sua alma justa. Isso é evidente, e o coração sabe que isso é um grave impedimento. Mas isso não O impede de manter a demonstração de Sua própria glória, que era para a bênção deles. “Trabalhai, não pela comida que perece”, diz Ele a eles, “mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, O selou”. E assim, em João 7, como em João 5, Ele continua Seu caminho, embora os inimigos estivessem irados e confederados, enviando oficiais para prendê-Lo. Pois, depois de tudo isso, a glória que era plena de graça e verdade irrompe em um de seus mais intensos esplendores, no grande último dia da festa, com Jesus em pé e dizendo: “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba”. Que vigor no propósito deve ter havido para que pudesse sustentá-Lo adiante em triunfo, apesar de tamanha série de oposições e obstáculos! E assim, até o último momento, posso dizer, essa glória se manifesta em regiões imensuráveis. Jesus “passa” (João 9). Ele vai aonde quer que vá. Mas ainda mantém o mesmo caráter. A mudança de clima, por assim dizer, não faz diferença. A glória ainda é plena de graça e verdade, a glória “como a glória do Unigênito do Pai”. Jesus vê um homem cego de nascença; mas Ele é “a luz do mundo”. E Jesus, depois, o encontra expulso, mas o acolhe para a eternidade.

Não sei se algo possa assegurar mais plenamente ao coração de um pecador de seu interesse no Filho de Deus do que tudo isso. Nenhuma resistência prevalece, nenhuma tentação. Nada pode forçá-Lo, nada pode afastá-Lo de Seu propósito de abençoá-los, por um único momento. Essa glória, e somente essa atende às suas necessidades, irrompe em cada ocasião em que vemos Jesus agindo, abrindo caminho através de todos os obstáculos e Se afastando de toda distração. O que demonstra uma firmeza de propósito como essa? Se você vir um homem prosseguindo com sua obra, destemido pela oposição e sem se deixar distrair por seduções, que mais precisamos para conhecer a singeleza e a decisão de sua alma? E tal é o Filho do Pai nesta ação. Na glória que se ajusta à necessidade dos pecadores, Ele resplandece, e somente nela, seja qual for o meio que a obscureça, por mais denso que seja, ou a solicitação que a distraia, por mais sedutora que seja.

Ó preciosa graça salvadora! Como tudo isso, em outras palavras, nos diz que Deus achou mais abençoado dar do que receber! Jesus era “o Verbo” que “Se fez carne”, “Deus” que “Se manifestou em carne”. E se Ele tivesse querido, como estes capítulos nos mostram, poderia ter recebido os louvores dos homens, a admiração do mundo, a coroa do reino; mas Ele, “passando” por tudo, estava concentrado no único propósito de levar a bênção aos pobres pecadores.

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