Origem: Livro: Os Evangelistas
Marcos
Introdução ao Evangelho de Marcos
Na luz variada e frutífera da Escritura, que novas maravilhas, às vezes, se lançam diante do olhar da alma! Sua semente está em si mesma, como as árvores do Éden. Seu testemunho está em si mesma, como todas as obras de Deus. Suas honras e virtudes são todas suas – feitas nossas, de fato, somente pelo poder do Espírito Santo. Mas assim é. Seu valor e sua excelência procedem de si mesma; e queremos apenas a fé que anda na luz dela, apreendendo e desfrutando Aquele cuja sabedoria e graça ela nos revela.
Que cada um dos quatro Evangelhos tem seu próprio caráter e propósito, sob o Espírito de Deus, é agora suficientemente familiar para nós. E, de fato, esse era o pensamento entre o povo de Deus desde os primeiros dias do Cristianismo. Eles perceberam então, como nós percebemos agora, variedade em unidade; de modo que alguns deles disseram: “Não são tão propriamente quatro Evangelhos que temos, mas um Evangelho de quatro faces.” A única vida é vista em diferentes relações – o mesmo Jesus passa pelas mesmas cenas e circunstâncias, em vários caracteres.
Isto é variedade em unidade. E isto me leva a sugerir que, da mesma forma, o Livro de Deus também tem unidade em variedade. Vemos nosso mundo em todas as partes dele, e nós mesmos em todas as pessoas dele. Ouvimos, por exemplo, a graça que se dirige a nós como pecadores, e aprendemos ruína e redenção agora, como Adão as aprendeu no dia de Gênesis 3. Ao sermos revestidos da justiça de Deus pela fé, nos encontramos na família e comunhão de Abraão, como em Gênesis 15. À mesa do Senhor, preparada em meio aos redimidos a cada dia de ressurreição, nos assentamos em um espírito com a congregação de Deus, como em Êxodo 12. No conflito da carne e do espírito, não apenas vemos que tipo de pessoa os santos nos dias de Paulo eram, mas lemos nossa própria experiência cotidiana bem conhecida.
Assim, estamos à vontade por todo o Volume, traçando nosso próprio mundo em todas as cenas dele, e nós mesmos nos atores. E isso é unidade em variedade. Tal é o caráter maravilhoso do Livro.
Milhares de anos são apenas um e o mesmo dia. O Livro é um, embora Moisés e João, os primeiros e os últimos escritores nele, estivessem separados por séculos e séculos; e embora reis e pescadores, escribas e pastores, profetas e publicanos, separados por todos os hábitos da vida e das circunstâncias humanas, fossem chamados a colocar a mão nele.
É um Livro de maravilhas, mas o Livro em si é a maravilha principal, como isso pode nos mostrar. Sua naturalidade e sua beleza são, com tudo isso, admiráveis além da expressão. Essa qualidade do Livro de Deus uma vez lembrou a alguém de uma analogia impressionante no reino da natureza. “É”, ele disse, “como uma árvore nobre, da qual a energia interior, a liberdade do poder vital soberano, produz uma variedade de formas, nas quais os detalhes da ordem humana podem parecer estar faltando, mas na qual há uma beleza que nenhuma arte humana pode imitar.”
Verdadeiro de fato; e verdadeiro também é o que ele acrescenta após contemplar os materiais que formam e fornecem este Livro. “Todos se combinam para coroar com glória divina a demonstração da origem e autoria do Livro que contém essas coisas.”
Que a meditação sobre isso seja misturada com a fé, para que a alma seja beneficiada enquanto o coração se encanta!
Este Evangelho, que sucede o de Mateus, poderia parecer à primeira vista, como história de eventos, apenas um relato mais curto das mesmas circunstâncias; mas, se o olhar despertado for um pouco mais atento, a peculiaridade que lhe é inerente e lhe dá o seu caráter não deixará de ser percebida.
O início dele pareceria dar a ele o último lugar na série ou sucessão dos quatro Evangelhos. Mas, novamente, em uma inspeção mais detalhada, ele será considerado muito apropriadamente para manter, como mantém, o segundo lugar.
Não temos nele nenhuma genealogia do Senhor Jesus, seja divina, humana ou Judaica. Somos apresentados a Ele imediatamente em Sua Humanidade. Não temos relato de Seu nascimento, nem dos precursores de Seu nascimento; nem é feita menção de Seus primeiros dias vividos em sujeição a Seus pais, ou sob a lei; muito menos de Sua encarnação. Tudo isso, glorioso e precioso como é, é deixado com os outros evangelistas.
João nos fala da encarnação. “O Verbo Se fez carne”. Este é o primeiro e mais alto pensamento. Isso nos dá o Senhor como Ele era divinamente, ou desde a eternidade.
Lucas então nos dá o fato de Sua vinda a este mundo, e relata a maneira dessa vinda. Ele nos conta sobre o nascimento pela sombra do Espírito Santo. E então ele nos deixa à vista d’Ele, por um pouco de tempo, crescendo em sabedoria e estatura, como no meio de circunstâncias familiares, ou em casa em Nazaré, na Galileia.
Mateus, retomando a maravilhosa narrativa por sua vez, nos mostra este Menino nascido, e este Filho dado, em Sua solene apresentação ao Seu povo Israel. Sendo vindo, Emanuel, Deus e Homem em uma Pessoa, Ele é apresentado em Seus direitos e reivindicações como o Governador prometido vindo de Belém de Judá.
Marcos então, passando por cima de tudo isso, mostra-nos imediatamente o Senhor em Sua idade adulta. Sua glória eterna; Sua encarnação; a maneira de Sua entrada na carne e no mundo; as reivindicações que foram feitas a Ele por vozes de profetas e visões do céu, assim que Ele chegou aqui; tudo passou. Aquele que estava no princípio; Aquele que nasceu, no devido tempo, em Belém; Aquele que, como um Menino, teve que ser levado em fuga para o Egito; que depois cresceu em graça e em anos em Nazaré, e, aos doze anos, conversou com escribas e doutores no templo; tal Alguém não é notado assim, mas no primeiro momento do nosso Evangelho, Ele é visto por nós como cingido em plena força e Humanidade para o serviço. “O princípio do evangelho de Jesus Cristo” são as primeiras palavras de Marcos.
Então, como observei, este Evangelho pode parecer ocupar o último lugar na ordem dos quatro. Mas esta é apenas uma primeira impressão.
Caracteristicamente, este Evangelho é o Evangelho de nosso Senhor Jesus como um Servo, ou como em ministério. Como tal, ele se inicia, como tal, ele se mantém por toda parte, e como tal, ele se encerra.
Mas não devemos dizer de nosso Senhor que Ele é nosso Servo. Ele está sempre nos servindo, é verdade; no entanto, Ele não é nosso Servo, mas de Deus. Falar d’Ele como nosso Servo, como alguém uma vez me sugeriu, seria torná-Lo sujeito ao nosso comando, o que não poderia ser. De modo que, embora em infinita graça Ele nos sirva, Ele é, o tempo todo, Servo de Deus, e não nosso.
E é por isso que podemos traçar, neste Evangelho, tantos pequenos traços e toques, que adornam e aperfeiçoam uma vida de serviço, que tem seus ornamentos, bem como sua substância, sua ternura e consideração, bem como sua devoção e sacrifício próprio.
Já observei que, geralmente, os materiais de Marcos são os mesmos de Mateus. O Senhor está fazendo as mesmas coisas, e é visto nas mesmas circunstâncias. Há, no entanto, essa diferença de propósito – em Mateus, Ele está testando Israel; aqui, Ele está servindo Israel.
Assim, em Mateus, o Senhor é apresentado em toda a apropriada forma, repetidamente, para que toda vantagem lhes fosse dada, enquanto Israel estava sob prova se aceitaria o Messias ou não.
Em Marcos há a ausência de toda forma e cerimônia. Não há introdução solene do Senhor, como o Evangelho inicia, além das coisas que eram necessárias para colocá-lo em Sua obra; e, assim que Ele está em Sua obra, Ele passa de um serviço para outro com toda diligência. E essas distinções têm verdadeira beleza em si. Pois o serviço, em sua própria natureza ou caráter, é informal e circunstancial. Ele responde às ocasiões conforme elas surgem. Ele faz seu trabalho, em vez de se preparar para fazê-lo. Mas, ao testar Israel em Mateus, o Senhor cuidadosa e devidamente Se apresenta em formas preditas por seus profetas; assumindo, no meio deles, todos aqueles caracteres que dão cumprimento diante deles às palavras de suas próprias Escrituras.
Essa variedade é, certamente, uma parte da perfeição que se liga a este Livro. Aquele a Quem temos em cada um dos Evangelhos é levado através das mesmas cenas e circunstâncias, porque a história é verdadeira; mas o Espírito O deixa passar diante de nós, através dessas cenas, em diferentes caracteres, todos consistentes, Mas um e outro são necessários, a fim de apresentá-Lo em Sua plenitude. Aqui, em Marcos, Ele é o Jesus que, tendo vindo não para ser servido, mas para servir, “andou fazendo o bem”.
O escritor deste Evangelho está, pessoalmente, como posso dizer, em companhia de seu Evangelho. É Marcos, ou João Marcos, a quem Paulo e Barnabé tiveram “como um ministro”; e de quem Paulo, em outra ocasião, disse que ele “me é muito útil para o ministério”. E como o apóstolo João era um escritor adequado para nos contar sobre Aquele que estava no seio do Pai, porque ele próprio se reclinava no seio do Senhor, então podemos observar aqui uma adequação semelhante do escritor ao assunto.
Agora eu abordaria este Evangelho, distinguindo as partes em que ele se apresenta naturalmente e, então, observando o que é característico.
Primeira Parte – Marcos 1-10.
Esses capítulos nos contam os serviços do Senhor no meio de Seu povo Israel.
Segunda Parte – Marcos 11-13.
Esses capítulos nos dão a apresentação do Senhor de Si mesmo, como seu Rei, ao Seu povo, os resultados imediatos disso; e então Sua palavra profética sobre os tempos e destinos de Israel, que agora O havia rejeitado.
Terceira Parte – Marcos 14-15.
Esta parte do nosso Evangelho nos mostra a cena dos últimos sofrimentos de nosso Senhor.
Quarta Parte – Marcos 16.
Este último capítulo nos mostra nosso Senhor em ressurreição.
