Origem: Livro: Notas sobre Josué
Jericó e Ai – Josué 6-8
Tendo entrado na terra e assumido sua circuncisão, aquela ordem de santificação que convinha à herança e à presença do Deus de Israel, começa a subjugação da terra.
O Senhor agora Se coloca a Si mesmo como Cabeça do exército, para que Ele possa ordenar as batalhas, como Capitão de Israel, assim como no deserto, na coluna de nuvem, Ele Se colocou a Si mesmo como Cabeça do arraial, para que Ele pudesse ordenar suas jornadas como Guia de Israel.
Aqui, porém, eu olharia ao meu redor por alguns minutos.
O Senhor estava de pé como um Soldado junto aos muros de Jericó, e na presença de Josué. Mas Josué não O descobriu. Isso foi semelhante ao que aconteceu com Gideão posteriormente em Juízes 6, e com Manoá em Juízes 13; Josué teve que indagar por Ele, como era comum em sua época. Mas não havia sido assim com Abraão em Gênesis 18.
Abraão reconheceu o Senhor imediatamente e prostrou-se diante d’Ele, tratando-O como o Senhor. Mas Josué teve que desafiá-Lo e perguntar-Lhe, como alguém que não sabia quem Ele era: “Tu estás do nosso lado ou do lado dos nossos adversários?”
Mas isso jamais servirá. Cristo não pode continuar com aqueles que têm pensamentos depreciativos a Seu respeito. Foi assim com Marta em João 11. Ela disse: “Tudo quanto pedires a Deus, Deus To concederá” – isso não bastava. E Jesus a fez saber imediatamente que não bastaria. “Teu irmão há de ressuscitar”, respondeu Ele. Não em resposta ao Seu pedido a Deus para que Lázaro ressuscitasse, como as palavras de Marta sugeriam, mas com base em Sua própria autoridade pessoal, no exercício de Seus próprios direitos, Ele prometeu que Lázaro, seu irmão, ressuscitaria. E assim, quando na escuridão de seus próprios pensamentos ela falou novamente e disse: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia”, o Senhor, novamente demonstrando ressentimento, disse: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Ele queria que a mente de Marta estivesse voltada para a Sua glória. E assim também aconteceu aqui com Josué. “És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos?”, perguntou o líder de Israel. “Não”, disse Cristo, “mas venho agora como Príncipe do exército do Senhor”. Ele Se ressente do pensamento de Josué a respeito d’Ele, um pensamento que O considerava possivelmente do lado de Israel, mas não O reconhecia como o Cabeça e à frente de Israel. Ele deseja uma mente correta em Josué, assim como em Marta, ao contemplar Sua glória. Sim, em todos nós, amados. E certamente cada um de nós pode orar: “Que possamos sempre apreender isso sem qualquer dúvida e confessá-lo sem hesitação.”
E é bem-aventurado ver como a mente de Josué rapidamente encontra seu lugar correto. Ele adora o Estranho a Quem havia desafiado pouco antes. Ele é agora o Príncipe da salvação aos seus olhos, e é confiado como Aquele que conduziria os filhos de Israel à vitória. Podemos precisar de instrução sobre as diversas glórias do Filho de Deus e esperar que elas nos sejam reveladas, mas todo santo carrega uma mente preparada para recebê-las e, de imediato ou instintivamente, se alegra nelas.
Mas agora, como veremos a seguir, sendo esta a batalha do Senhor, não importavam quais fossem as armas de guerra. Uma aguilhada, uma funda e uma pedra, lâmpadas e cântaros, ou uma queixada de jumento serviriam. E assim, o grito dos soldados e o toque de uma trombeta de chifre de carneiro provariam ser suficientes; os muros de Jericó cairiam, e aquela cidade, como as primícias da terra, seria tomada. Foi a fé que o fez, e não a força (Hebreus 11:30) – a fé que traz Deus, e trazendo Deus, a fé, se necessário, não só pode derrubar muros, mas também remover montanhas. Mas o mundo precisa ser julgado. O reino precisa ser purificado de tudo o que causa escândalo e pratica a iniquidade, antes que possa ser tomado e governado por Cristo. Jericó é dedicada à espada. Ela se apresentou como a amostra daquilo que seria julgado, e todos os que nela estavam, ou que a ela pertenciam, exceto a família da fé que estava sob a proteção do fio escarlate, seriam exterminados. Essa família, e somente essa, foi redimida neste dia de juízo em Canaã, assim como a própria casa de Israel o fora num dia de juízo anterior no Egito (Êxodo 12).
Mas além disso… Todo o ouro e a prata deveriam ser do Senhor, assim como os utensílios de bronze e ferro. Isso nos surpreende? Uma única barra de ouro era suficiente para profanar uma tenda inteira e trazer o juízo de Deus em terrível e poderosa ruína sobre ela e todos os que nela estavam, enquanto o próprio Senhor podia tomar e guardar em Seu tesouro todo o ouro que fosse encontrado na cidade. Novamente, pergunto: isso nos surpreende? Bem, Deus é Deus e não homem. Cristo pode tocar um leproso; nenhum israelita poderia tocá-lo, fosse quem fosse; sacerdote, rei ou mesmo um nazireu. A ira do homem louvará a Deus. Deus pode usá-la, mas não devemos exercê-la. Cristo pode usar até mesmo aqueles que O pregam em contenda, mas devemos nos purificar quando tomamos Seu Nome sobre nós para proclamá-lo.
Jericó agora representa o mundo para o arraial de Israel, aquilo que seria julgado; que cada homem do arraial se mantenha afastado dela e de tudo o que lhe pertence. E, portanto, como lemos aqui, o povo é advertido a não tocar em nada que fosse daquele lugar, nem mesmo, por assim dizer, “nem um fio, nem uma correia de sapato”. Ela deveria ser como Sodoma aos olhos de Abraão. E ainda mais, marcando-a, como Sodoma novamente, para ser queimada perpetuamente, Josué conjurou o arraial naquele momento, dizendo: “Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó”. Pois isso seria, de fato, um ato de Ninrode, um desafio ao Deus do juízo, um ato de Amaleque. Seria agir novamente como Caim de Gênesis 4, retornando à terra que Deus havia amaldiçoado, revivendo o que Deus havia sentenciado e condenado à destruição. A coisa amaldiçoada, porém, desafiando todas essas palavras solenes, é tomada. Era, de fato, um pecado à mão levantada. Nenhum sacrifício poderia expiá-lo. “Há pecado para morte, e por esse não digo que ore”. Uma barra de ouro e uma veste babilônica são cobiçadas, tomadas e escondidas no meio de Israel; e Israel, o arraial, torna-se, aos olhos de Deus, por um tempo, uma Jericó. A maldição que antes repousava sobre aquela cidade dos incircuncisos, agora repousa sobre o arraial do povo de Deus. A lepra de Naamã é lançada sobre Geazi – e, por justa razão de tudo isso, Israel é derrotado em sua segunda batalha em Ai.[2]
[2] Que nível de iniquidade madura Jericó havia alcançado ao ter em si a consciência da Babilônia. Certamente ela estava preparada para o juízo. ↑
E aqui, deixe-me dizer, isto foi feito sob todas as provações do homem – a coisa maldita tem sido tomada repetidas vezes, sempre.
A criatura de Deus, Sua criatura responsável, uniu-se à impureza, isto é, exatamente com aquilo que ela deveria ter julgado. Tal foi Adão em Gênesis 3 – tal é Israel agora, e tal novamente em Juízes 1 – tal foi Salomão em Judá, e tal Jeroboão em Israel – e tal é a Igreja ou Cristandade como em 2 Timóteo 2.
Esta ocasião nos ensina isso. Josué deveria ter conhecido o segredo da derrota de Israel. Deveria ter percebido o mal que se escondia ali dentro, e que Israel não estava estreitado em Deus, mas em si mesmo. “Por causa disso”, como diz um apóstolo, por causa de algo interno – dentro das portas –, “há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem”. E também, pelo capítulo 6:18, ele deveria ter sabido onde se encontrava a causa desse desastre. Mas ele parece acusar e desafiar o Senhor e, como Davi no dia da sua indignação (JND) por causa da brecha contra Uzá, Josué precisa aprender que a culpa foi toda sua. Em vez das vitórias de Israel, portanto, a purificação de Israel deve ocorrer. Em vez de ir de força em força, primeiro as obras devem ser feitas novamente. Se não nos julgarmos a nós mesmos, o Senhor o fará, para que não sejamos condenados com o mundo. O arraial de Israel não será como uma nação cananeia, embora por um momento possa ser como Jericó. O pecado e o juízo de Miriã atrasaram o progresso de Israel pelo deserto; o pecado e o juízo de Acã agora devem atrasar o progresso de Israel pela terra. Mas é apenas um atraso. A disciplina não revoga a graça; apenas mantém a santidade. O vale de Acor é uma porta de esperança (Oséias 2:15). (Assim, agora, o juízo sobre Israel, durante toda esta era entre parênteses, atrasou ou interrompeu novamente a história ordenada da Terra e de Israel. Mas a era do juízo terminará e Israel voltará a ser Israel.)
E é algo bendito saber que uma alma restaurada é sempre uma alma abençoada. Assim é aqui. O arraial ataca Ai uma segunda vez, e Ai é tomada, não com a mesma facilidade e honra com que Jericó fora conquistada; mas ainda assim é tomada, como na experiência de nossa própria alma, pois, embora perdoada e restaurada, e encaminhada para bênçãos ainda mais ricas e elevadas, a alma encontra novos elementos em sua história. Ela tem exercícios pelos quais passar, que poderiam ter-lhe sido poupados se tivesse andado de modo mais constante. Mas, no fim, certamente, Israel é abençoado. Ai cai, e seu gado e despojos tornam-se propriedade do povo, assim como o ouro e a prata, o bronze e o ferro de Jericó já haviam se tornado propriedade do Senhor.
O altar é então erguido. Deus é reconhecido imediatamente, assim como Ele foi reconhecido por Noé quando saiu da arca para o novo mundo – e como Abrão O reconheceu quando chegou ao lugar que o Deus da glória lhe havia indicado – como Israel O reconheceu assim que ultrapassou o Egito e o Mar Vermelho – e como Salomão O reconheceu quando assumiu o reino. Quaisquer que sejam a misericórdia, a coluna e o altar a seguirão, a misericórdia deve ser a ocasião de testemunho e de louvor.
Ao final desses capítulos, a aliança que submeteu Israel à lei é inscrita em sua respectiva coluna e lida perante o povo; pois a lei era a condição sob a qual a herança, na qual agora haviam sido introduzidos, seria assegurada e desfrutada, como veremos adiante, no capítulo 23.
E, voltando a esses capítulos por mais um instante, permitam-me dizer: se o Senhor julga isso no mundo, certamente não o deixará passar em Seus santos. Se a coisa maldita de Jericó for encontrada em Israel, a mão de Deus repousará sobre Israel como esteve sobre Jericó. Há uma diferença aí, pois, embora a controvérsia da santidade seja julgada da mesma forma em ambos os casos, no santo o pecado é julgado como por meio da disciplina para purificação; no mundo, é julgado para destruição. E tudo isso se manifesta aqui. Jericó é destruída, o arraial é purificado. Jericó não existe mais, o arraial está a caminho de novas conquistas. No caso do santo, o vale de Acor é sempre uma porta de esperança. A tribulação gera esperança por meio da paciência e da experiência. O Senhor não abandona Seu povo naquele vale. Somos julgados pelo Senhor para que não sejamos condenados com o mundo.
Mas aqui, gostaria de lembrar uma verdade que considero moralmente de grande importância, e que devemos sempre ter em mente ao seguir o curso das vitórias de Josué, a saber, que essas vitórias foram o juízo de Deus sobre um povo que havia sido suportado por séculos e que agora, antes mesmo da espada de Josué ser desembainhada, havia enchido a medida dos seus pecados (veja Gênesis 15). A iniquidade dos amorreus estava completa, e o juízo foi executado. A espada de Josué era um instrumento de juízo, mais do que de vitória. Ele deve aparecer diante de nós como um juiz, e não como um conquistador; e alivia o coração, ao contemplar as matanças desta solene história, ter em mente que as guerras deste Líder de Israel jamais devem ser consideradas meras invasões de um país mais fraco, pela força desenfreada e sem princípios de um exército superior. Josué era ministro de Deus, e “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”.
