Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais
Jesus Cristo Veio em Carne
A arca e o arraial eram, em certo sentido, necessários um ao outro durante a jornada pelo deserto. A arca, assentada no tabernáculo sobre o qual repousava a nuvem, tinha que guiar o arraial; e o arraial, em sua ordem, tinha que acompanhar e guardar a arca e tudo o que estava relacionado a ela.
Esta era a missão do arraial. Deveria haver sujeição à vontade d’Aquele que habitava na nuvem; dependência d’Aquele que os guiava diariamente; liberdade consciente por terem deixado o Egito para trás, e esperança por terem Canaã diante deles. Uma mentalidade como esta deveria estar no arraial; mas sua missão era conduzir a casa mística de Deus para o seu descanso, a “posse da terra das nações” (AIBB).
A jornada deles por aquele deserto não teria constituído uma peregrinação divina. Muitos já haviam percorrido aquele caminho sem ser estrangeiros e peregrinos com Deus. Para que fossem assim, a arca precisava estar em sua companhia.
A mente do arraial, da qual falei, poderia revelar sua fraqueza, ou esquecer-se de si mesma, e isso poderia levar, como sabemos que levou, a repetidos castigos. Mas se seus deveres, dos quais também falei, fossem abandonados, haveria perda de tudo. E isso de fato aconteceu. O tabernáculo de Moloque foi erguido em lugar da arca de Jeová, e o arraial, portanto, teve seu caminho desviado para Damasco ou Babilônia, longe da Canaã prometida (Amós 5:25; Atos 7:1-3).
E assim acontece conosco. Devemos manter aquelas verdades ou mistérios que o tabernáculo e seus móveis representavam: e o apóstolo confia nossa entrada em Canaã a isso. “Se… permanecerdes… na fé”; e novamente: “se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado”. Nossa segurança, nosso descanso na Canaã celestial, depende de guardarmos a verdade.
Contudo, deve-se acrescentar que a verdade deve ser guardada não apenas para a nossa própria segurança, mas para a honra de Cristo. Isso deve ser muito considerado. Suponhamos, por um momento, que a nossa própria segurança não estivesse em questão, mas sim a honra de Cristo, e isso bastaria. Tal coisa é contemplada em 2 João 10: a senhora eleita estava dentro de casa – ela estava em segurança pessoal, mas tinha um dever a cumprir com a “doutrina de Cristo”; de modo que, se alguém chegasse à sua porta e não trouxesse essa doutrina, ela deveria mantê-lo do lado de fora e recusar-se a recebê-lo.
O título de entrada é a confissão dessa doutrina, uma confissão de “Jesus Cristo vindo em carne” (ARA), uma confissão que envolve ou assegura a glória de Sua Pessoa. Uma confissão completa de Sua obra não serve. Quem está do lado de fora pode trazer consigo uma fé sólida quanto à expiação, à soberania da graça e a verdades semelhantes; mas tudo isso não é garantia para deixá-lo entrar. Deve haver confissão à Pessoa também. “Todo aquele que vai além do ensino de Cristo e não permanece nele, não tem a Deus; quem permanece neste ensino, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz este ensino, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda participa de suas más obras” (AIBB).
Certamente isso é claro e final. Creio que isso merece muita consideração. A verdade concernente à Pessoa de Cristo deve ser mantida por nós, mesmo que a segurança de nossa alma não esteja envolvida nisso. Admito que nossa salvação esteja envolvida. Mas isso não é tudo. Aquele que não reconhece essa verdade deve ser mantido fora. Isso desperta ternura, bem como força, ao ver que o nome de Jesus está assim confiado à guarda dos santos. É isso que Lhe devemos, se não a nós mesmos. O muro de separação deve ser erguido pelos santos entre eles e a desonra de Cristo.
A mera jornada do Egito para Canaã não basta. Mesmo que a jornada seja acompanhada de todas as provações de uma estrada tão árida, desprotegida e sem trilhas, ainda assim não é uma peregrinação divina. Uma mera vida laboriosa e abnegada, mesmo que suportada com aquela coragem moral que convém aos peregrinos, não basta. É preciso carregar a arca de Deus, confessar a verdade e manter o nome de Jesus.
Ora, nas epístolas de João, o nome “Jesus Cristo” expressa ou indica, creio eu, a Divindade do Filho. O Espírito Santo, ou a Unção, encheu de tal forma a mente daquele apóstolo com a verdade de que “o Verbo” que “Se fez carne” era Deus, que, embora fale d’Ele por um nome que expressa formalmente o Filho em Sua Humanidade ou em Seu ofício, para João isso não importa. O nome não é nada – pelo menos nada que possa interferir no pleno poder da firme certeza de que Ele é “Aquele que era desde o princípio”, o Filho na glória da Divindade. Isso é visto e sentido logo no início de 1 João, e assim, creio eu, em todo o texto. (veja 1 João 1:3, 7; 2:1; 3:23; 4:2; 5:20; 2 João 3-7).
Nos pensamentos desta epístola, “Jesus Cristo” é sempre, por assim dizer, este Ente divino, a Vida eterna manifestada. Para João, “Jesus Cristo” é “o Deus verdadeiro”. Jesus é o “Ele” e o “d’Ele” no argumento de sua primeira epístola; e este “Ele” e “d’Ele” sempre mantém diante de nós Aquele que é Deus, embora em relacionamentos assumidos e em tratamentos de aliança.
A confissão, portanto, que é exigida por eles é esta: que foi Deus Quem Se manifestou, ou que veio em carne (veja 1 João 4:2; 2 João 7). Pois nestas epístolas, como vimos agora, “Jesus Cristo” é Deus. O Seu nome como Deus é Jesus Cristo. E presume-se ou conclui-se que “o verdadeiro Deus” não é conhecido, se Aquele que estava em carne, Jesus Cristo, não for conhecido como tal; e tudo isso simplesmente porque Ele é Deus. Qualquer outro recebido como tal é um ídolo (1 João 5:20-21). A alma que não permanece nesta doutrina “não tem a Deus”, mas quem permanece nela “tem tanto ao Pai como ao Filho” (2 João 9).
Isto, julgo eu, é a mente e a importância da confissão exigida: “Jesus Cristo vindo em carne” (ARA). Falo aqui de Deus sob o nome de Jesus Cristo, e esta é, portanto, a exigência de uma confissão do grande mistério de “Deus manifestado em carne”.
O próprio adjunto (como alguém me escreveu), “vindo em carne”, destaca fortemente a Divindade de Cristo; porque, se Ele fosse um homem, ou qualquer coisa inferior ao que Ele é, não seria de admirar que Ele viesse em carne. E 1 João 1:2-3 nos guia aos pensamentos de João quanto ao uso do nome “Jesus Cristo”. Aquele que era desde o princípio, a Vida eterna que estava com o Pai, era a Pessoa que ele lhes declarou. As palavras “com o Pai” são importantes, tornando evidente que o Filho era o Eterno, sendo o nome deste Filho eterno “Jesus Cristo”. E é interessante comparar o final com o início desta epístola: “Este é o verdadeiro Deus e a (com o artigo) vida eterna”.
Desejo bendizer ao Senhor por dar à minha alma uma renovada certeza, em tão simples base da Escritura, de que recai sobre nós o dever de manter a honra do nome de Jesus.
No decorrer da jornada de nosso Senhor na Terra, nós O vemos das seguintes maneiras:
Como o Nascido – santo, satisfazendo o pensamento de Deus na natureza ou no material humano.
Como o Circuncidado – perfeito sob a lei, satisfazendo o pensamento de Deus quanto a ela.
Como o Batizado – satisfazendo o pensamento de Deus em ordem e justiça dispensacionais.
Como o Ungido – satisfazendo o pensamento de Deus como Sua imagem ou representante.
Como o Obediente – fazendo sempre aquelas coisas que agradam ao Pai,
Como o Devotado – satisfazendo o pensamento de Deus em todas as coisas; e entregando Sua vida (João 10:17-18).
Como o Ressuscitado – selado com a aprovação de Deus na vitória pelos pecadores.
Assim, Ele satisfaz toda a vontade de Deus enquanto provê para nós. Tudo foi magnificado n’Ele e por Ele, tudo foi tornado honroso. O deleite que Deus pretendia ter no homem, ou a glória por meio dele, foi ricamente correspondido no bendito Jesus. Pois, enquanto em Sua Pessoa Ele era “Deus manifestado em carne”, na sucessão de Seus estágios pela Terra, Ele estava realizando todo o propósito divino, deleite e glória no homem. Nada indigno de Deus havia no Homem Cristo Jesus, em Sua Pessoa, em Suas experiências ou em Seus caminhos.
