Origem: Livro: Os Evangelistas

João 13

Aqui, no início, a ação do Senhor, lavando os pés dos discípulos, é uma exibição de uma grande parte de Seu serviço celestial.

A lavagem dos pés estava entre os deveres da hospitalidade. O Senhor repreende a negligência dela em Seu anfitrião em Lucas 7 (veja 1 Tm 5:10). Posso dizer que a água trazia dois benefícios ao hóspede, limpava o viajante após a sujeira da jornada, e o revigorava do seu cansaço.

Abraão, Ló, Labão, José e o velho de Gibeá são eminentes entre aqueles que observavam esse dever (Gênesis 18, 19, 24, 43; Juízes 19). E o Filho de Deus, ao receber na casa celestial, daria aos Seus eleitos a plena percepção de suas boas-vindas e sua aptidão, para que pudessem tomar seu lugar com feliz confiança, em qualquer lugar daquele santuário real. Era um santuário, é verdade. Mas essa lavagem os preparou para tal lugar. O Filho de Deus estava fazendo para os discípulos o dever e serviço da pia de cobre para com os sacerdotes, os filhos de Arão, no tabernáculo (Êx 30). Ele estava assumindo a responsabilidade de tê-los aptos para a presença divina. É o modo comum de toda família bem organizada, que os servos se mantenham limpos, ou saiam de casa. Mas tal é a graça do Filho de Deus, o Mestre da casa celestial, que Ele Se encarrega do dever de manter a casa em santificação e honra sacerdotais.

“Maravilha insondável e mistério divino!” Tudo o que precisamos é do espírito de uma fé simples e inquestionável que repousa na realidade de uma graça tão insuperável.

Mas em Seu serviço por nós no santuário, como o Sumo Sacerdote de nossa confissão, em Sua limpeza de nossos pés como a verdadeira Pia da casa de Deus, Jesus não entrou até que Ele tivesse cumprido Seus sofrimentos na Terra, e ascendido aos céus; e, assim, não aconteceu, como lemos aqui, até depois que a ceia estivesse “acabada” que Ele tomou uma toalha e Se cingiu para lavar os pés de Seus discípulos. Pois a “ceia” foi a exibição de Seus sofrimentos e morte, como Ele havia dito, “Tomai, comei, isto é o Meu corpo”. E, consequentemente, Ele parece passar por toda essa cena mística na consciência de que Ele havia agora terminado Seus sofrimentos, havia ascendido, e estava olhando para trás para os Seus santos; pois é introduzido nestas palavras, “Tendo amado os Seus que estavam no mundo” (ARA) – palavras que sugerem a apreensão que Ele tinha de Seus santos ainda estarem no mundo, enquanto Ele os havia deixado para regiões mais elevadas e santas. E no sentido de tudo isso, embora glorificado novamente no e com o Pai, como o gracioso Servo de suas necessidades e fraquezas, Ele Se cinge com uma toalha e lava seus pés; dando-lhes a saber que Ele estava habitando no santuário celestial, apenas para transmitir a eles a virtude constante da “santidade” que, como seu Sumo Sacerdote, Ele sempre carregou para eles em Sua testa diante do trono de Deus. Veja Êxodo 28. (A ceia não é notada neste Evangelho, a não ser por alusão. E isso está em bela consonância com seu caráter geral; pois é, como já vimos, o Evangelho do Filho, em vez da humilhação de Jesus. E, portanto, nós O temos, como neste capítulo, em Seu sacerdócio, mas não O vemos em Seus sofrimentos, como na ceia.)

Assim, há uma diferença entre a importância mística da ceia e desta subsequente lavagem dos pés; e a diferença é a mesma entre o dia da expiação e as cinzas da novilha vermelha, sob a lei. O dia da expiação, como a ceia, expôs a virtude do sangue de Cristo; as cinzas da novilha, como esta lavagem, a virtude de Sua intercessão. O dia da expiação era apenas um dia no ano Judaico, um grande dia anual de reconciliação, no qual os pecados de Israel eram eliminados de uma vez por todas; as cinzas da novilha eram fornecidas para as transgressões de cada dia, para todas as contaminações ocasionais que qualquer israelita pudesse contrair, ao passar pelo ano. Assim com o derramamento de sangue primeiro, e as intercessões sacerdotais de Cristo depois: como diz uma passagem: “Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida”.

E temos as mesmas bênçãos, na mesma ordem, sob outra forma; a saber, o cordeiro pascal redimiu Israel do Egito de uma vez por todas, mas no deserto foi a intercessão de Moisés que desviou a ira das transgressões ocasionais do arraial. E assim o sangue de Jesus, nossa Páscoa, e a intercessão de Jesus, nosso Mediador – a ceia primeiro, e depois a lavagem dos pés; a morte aqui, e depois a vida no céu por nós. Aquele que é lavado uma vez no sangue, não precisa se lavar, a não ser seus os pés; e essa lavagem dos pés, essa remoção da sujeira que o santo acumula em sua caminhada por esta Terra dia a dia, o Sumo Sacerdote que está no céu por ele realiza por Sua presença e intercessão ali. Ele é o Mediador do novo concerto, e Seu sangue é o Sangue desse concerto.

Assim, o amor do Filho de Deus pela Igreja, como tinha sido desde a eternidade, há de ser assim por toda a eternidade; como está escrito aqui: “Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Cada época e circunstância deve testemunhar o mesmo amor em alguns de seus serviços, e em seu fervor e verdade permanentes. Nenhuma mudança de tempo poderia afetar esse amor. A tristeza deste mundo e as glórias do céu encontraram o mesmo em Seu coração. Nem tristeza nem alegria, sofrimento nem glória, poderiam tocá-lo por um momento sequer. Sua morte aqui, e Sua vida no céu, declaram isso da mesma forma. Não, na verdade muito mais. Ele já havia servido a Igreja neste amor antes que o mundo existisse, quando Ele disse: “Eis aqui venho!” – e no reino depois do mundo, Ele ainda a servirá no mesmo amor, fazendo Seus santos se assentarem para comer, enquanto Ele serve à alegria deles (Lucas 12:37).

Assim era o Senhor, assim é o Senhor, e assim será o Senhor, em Seu serviço incessante de amor para com Seus santos; e Ele lhes diz para serem Seus imitadores. “Se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros”. Ele espera ver entre nós na Terra a cópia daquilo que Ele está fazendo por nós no céu. Ele está lá diariamente lavando nossos pés, carregando nossas necessidades e enfrentando nossas contaminações diante do trono; e Ele quer que lavemos diariamente os pés uns dos outros, carregando as fraquezas uns dos outros e ajudando na alegria uns dos outros, aqui no escabelo.

Esta ação e ensinamento do Senhor foram, portanto, uma condução da Igreja, como Moisés antes, para o monte, para mostrar a ela os padrões segundo os quais as coisas na Terra deveriam ser feitas. Moisés então estava acima da lei, além da região do fogo e da tempestade; e assim a Igreja aqui. Os discípulos são chamados em espírito para o santuário celestial, e ali lhes são mostrados os caminhos do Sumo Sacerdote em Seu amor e cuidado diários por eles; e eles são instruídos a descer e fazer o mesmo. Como foi dito a Moisés: “Atenta, pois, que o faças conforme o seu modelo, que te foi mostrado no monte”. O tempo para a condução de Moisés para o monte para permanecer lá não havia chegado ainda. Ele deveria apenas visitá-lo, para que pudesse ver os modelos e receber as ordens. E assim também aqui. A Igreja ainda não estava pronta para a glória e para a casa do Pai. “Para onde Eu vou”, diz o Senhor aos discípulos, “não podeis vós ir”. Eles seguirão depois, como Ele promete mais adiante; mas, por enquanto, haveria apenas uma visão dos modelos no monte, para que pudessem copiá-los na Terra. Mas somente o amor pode moldar essas cópias, pois o amor é o artífice dos originais no céu. Como o Senhor novamente diz: “Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Não é, como antigamente, a habilidade de alguém para “trabalhar em ouro, e em prata, e em cobre” que servirá agora, mas a habilidade de quem anda “em amor”. A conformação de qualquer pensamento amável no coração para com um irmão, o armamento da mente com poder para suportar e relevar em amor, as saídas da alma em empatias e a eliminação ou amolecimento de qualquer afeição dura ou egoísta; essas são as cópias dos modelos celestiais. É somente como “filhos amados” que podemos ser “imitadores de Deus” (Ef 5:1). E que conforto é esse! Quando o Senhor designaria na Terra a testemunha de Seus próprios caminhos no céu, Ele nos diz para amarmos uns aos outros, para lavarmos os pés uns dos outros! Que visão d’Ele, embora dentro do véu, isso nos dá! “Ele mostra quão gentis são Seus pensamentos”. Que tipo de ocupação diária de nosso Sacerdote em Seu santuário nas alturas é aqui revelada a nós!

E, amados, deixem-me admoestar a mim mesmo e a vocês para procurarmos andar mais em meio a essas testemunhas do Senhor do que temos feito. Pois isso seria nossa segurança diante d’Ele, e nossa alegria entre nós. Se nossos caminhos fossem firmes, caminhos inabaláveis de amor, estaríamos sempre andando em meio às sombras e emblemas de Cristo; teríamos os pensamentos do Senhor em toda a sua bondade e constância sempre diante de nós; e que gozo e segurança isso nos daria! Nenhuma suspeita de Seu amor, nenhuma sombra de dúvida e medo, poderia então se acumular na alma; mas deveríamos ouvi-Lo com nossos ouvidos, e vê-Lo com nossos olhos, e tocá-Lo com nossas mãos; pois tudo aquilo que os ouvidos, ou os olhos, ou as mãos encontrassem entre si testemunharia, assim como teria cheiro do Seu amor. Isso, de fato, seria uma doce morada “na casa do Senhor”, uma contemplação abençoada da “formosura do Senhor”. Mas o pobre coração do homem não está preparado para toda essa demonstração de amor glorioso. Pedro expressa essa ignorância comum. Ele ainda não entende essa conexão entre glória e serviço. Ele segue seus pensamentos humanos e diz: “Tu nunca lavarás os pés”. Mas Pedro saberia de tudo isso em breve, como seu Senhor promete; pois Pedro e seu Senhor eram um. Mas Judas deve ser separado. “Não falo de todos vós”, disse o Senhor. A presença do traidor no meio dos santos até esse momento solene era necessária; pois a Escritura havia dito: “O que come o pão Comigo, levantou contra Mim o seu calcanhar”. Judas deve receber o bocado da própria mão do Senhor. A promessa de amor deve ser dada e desprezada antes que Satanás possa entrar; pois é a rejeição do amor que amadurece o pecado do homem, assim como o permanecer insensível diante desse marcante sinal de bondade da mão de seu Mestre aperfeiçoou o pecado de Judas; e Satanás entrou. A habitação de Satanás não é notada até que o bocado tenha sido recebido – como o homem, nesta nossa dispensação, tem desprezado o amor e, assim, amadureceu seu pecado – como o Senhor disse depois: “Se Eu entre eles não fizesse tais obras, quais nenhum outro tem feito, não teriam pecado” (Jo 15:24). Mas, tendo agora desprezado o amor do Evangelho, o homem seguiu seu caminho; como Judas aqui, tendo recebido o bocado, saiu para trair Aquele que o havia dado. E nosso evangelista acrescenta: “Era noite” (ARA). Palavras solenes! Noite no homem e noite para Jesus.

Mas Ele imediatamente olha além desta noite; pois, por mais tenebrosa que fosse para Ele, ela se abriria para o dia perfeito. Jesus seria glorificado em Deus imediatamente, pois Deus foi glorificado n’Ele; o único Filho do Homem em Quem Ele sempre foi glorificado. Ele havia mantido a natureza sem mácula, e agora estava prestes a apresentá-la a Deus como um feixe de fruto humano imaculado, adequado para o celeiro de Deus. O Homem em Jesus havia sido glorificado, pois tudo o que havia procedido d’Ele, tudo o que havia sido extraído d’Ele, era de acordo com Deus (João 14:30-31). Nenhuma partícula manchou a beleza moral ali. O Homem em Jesus não havia ficado aquém da glória de Deus. E Deus, que havia sido assim glorificado n’Ele, portanto O glorificaria em Si mesmo. Mas quanto a tudo em redor, era completamente diferente. Jesus podia ir imediatamente a Deus, em virtude de toda essa glória moral; mas quanto a tudo em redor, não importa; sejam santos ou descrentes, sejam Pedros ou fariseus, não poderia haver isso. Um lugar com Deus deve ser preparado, antes mesmo que os santos possam ser reunidos nele (João 14:2); e, portanto, o Senhor lhes diz: “Vós Me buscareis, mas, como tenho dito aos judeus: Para onde Eu vou não podeis vós ir; Eu vo-lo digo também agora”.

Jesus aqui antecipa este dia de Sua própria glória em Deus, dizendo, assim que o traidor saiu, “Agora é glorificado o Filho do Homem”. (Eu notaria a segurança de coração que a consciência do amor em todos os momentos nos dá. Pedro e João não estão nem um pouco alarmados com os solenes indícios do Senhor sobre o traidor; eles se aconselham juntos para investigar e descobrir o significado daquelas palavras, e quem era aquele que faria tal coisa. Que assim pudesse nosso coração permanecer, amados, diante das investigações e discernimentos do Espírito de julgamento! O amor consciente é ousado como um leão.) E assim, em breve, haverá espaço novamente para a manifestação da glória, quando o Filho do Homem tiver recolhido de Seu reino tudo o que causa escândalo, e todos os que cometem iniquidade; quando o traidor sair novamente, então a glória será testemunhada, e os justos resplandecerão como o Sol no reino de seu Pai. Uma vez purificada a eira, os feixes de glória serão reunidos no celeiro.

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