Origem: Livro: Os Evangelistas
João 3:22-36
Depois que o Senhor havia assim discutido com Nicodemos a questão da entrada do homem no reino, Ele é visto por um breve momento prosseguindo em Seu ministério, como Ministro da circuncisão na Judeia (v. 22). Mas vemos isso apenas por um momento; pois reter tais coisas diante de nós não estaria dentro do escopo geral deste Evangelho, que tira o Senhor, como vimos, da conexão Judaica. E na próxima passagem podemos notar o mesmo (vs. 23-24); pois o Batista é visto em conexão com Israel; mas é, da mesma maneira, apenas por um momento passageiro; e para, também, como parece, dar-lhe ocasião, sob o Espírito Santo, de dar um testemunho de Jesus, não em Sua glória Judaica, mas em honras mais elevadas e alegrias mais doces do que Cristo poderia ter conhecido como Filho de Davi (veja vs. 27-36).
Eu, no entanto, me demoraria aqui um pouco; pois esta me parece ser uma ocasião de grande valor moral. João é chamado para a mesma prova que Moisés em Números 11 e Paulo em 1 Coríntios 3.
Josué, que era ministro de Moisés, teve ciúmes por causa de seu mestre quando Eldade e Medade profetizaram no arraial. Mas Moisés o repreendeu, e isso também, não apenas com uma palavra, mas também com um ato – pois ele vai imediatamente para o arraial, evidentemente com o propósito de desfrutar e aproveitar o dom e as ministrações daqueles dois, sobre quem o Espírito acabara de repousar.
Essa foi uma maneira nobre de agir desse querido homem de Deus. Nenhuma mágoa ou ciúme manchava a bela maneira de seu coração, ou perturbava o fluxo uniforme de sua alma; mas, sendo ele um vaso dotado, rico e abundante em dons do próprio Espírito, ele ainda assim receberia por meio de qualquer outro vaso, ainda que de menor medida, e receberia com gratidão e prontidão de coração.
Paulo, em seus dias, foi convocado para uma prova semelhante. No meio dos santos em Corinto, rivalidades surgiram. Um dizia: “Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo”. E como Paulo enfrenta isso? Será que ele triunfa neste dia do tentador, como Moisés havia triunfado? Sim, apenas com uma arma diferente. Com mão firme e coração fervoroso, ele despedaça cada vaso, para que Aquele que enche todos os vasos, e somente Ele, possa receber todo o louvor. “Quem é Paulo, e quem é Apolo?”, diz ele, “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”. Esta foi a vitória em uma hora igualmente má, mas apenas de uma forma diferente, ou com outra arma.
Mas como devemos contemplar João, o Batista? Nesta ocasião, ele enfrenta a mesma maneira do tentador. Seus discípulos tiveram ciúmes de Jesus por causa de João. Mas, como Moisés e Paulo, ele permaneceu firme num dia mau, ainda que em uma atitude um pouco diferente. Ele não pode, como Paulo, quebrar em pedaços seu vaso companheiro. Ele não pode dizer: “Quem é João”, e então, “e Quem é Jesus?” – como Paulo diz: “Quem é Paulo”, e então, “e quem é Apolo?” Ele não poderia tratar o nome de Jesus como Paulo trata o nome de Apolo. Mas ele despedaça um desses dois vasos, isto é, ele mesmo, sob os olhos de seus afeiçoados discípulos, e glorifica Jesus, a Quem eles estavam invejando por sua causa, com glórias além de todo o seu pensamento, e tais que nenhum outro vaso poderia conter.
Quão perfeito era tudo isso! Quão belo testemunho é todo esse método de João, ao lidar com tal ocasião, para a orientação e manutenção do Espírito de sabedoria! Jesus, é verdade, era, em certo sentido, um Vaso da casa de Deus, como eram os profetas e apóstolos. Ele era um Ministro da circuncisão. Como João, Ele pregou a vinda do reino. Ele tocou flauta, e João lamentou. Deus falou por Ele, como por qualquer profeta. E assim Ele era, certamente, um Vaso na casa de Deus, como os outros. Mas Ele era de uma ordem peculiar. O material e a moldagem daquele Vaso eram peculiares. E se a ocasião O coloca em questão com qualquer outro vaso, como neste lugar do nosso Evangelho, a honra peculiar que se atribui a Ele deve ser tornada conhecida. João se deleita em ser o instrumento para isso. Ele se deleita, como sob o Espírito Santo, e como em plena concordância com a mente de Deus, em trazer à luz a vara em flor do verdadeiro Arão, florescendo com seus frutos e flores, e expor cada vara adversária em seu nativo estado morto e murcho, para que as murmurações de Israel, os pensamentos afetuosos e parciais até mesmo de seus próprios discípulos, possam ser silenciados para sempre (Números 17). Ele reconhece que todo o seu gozo foi cumprido naquilo que estava provocando o desagrado de seus discípulos. Ele era apenas o amigo do Noivo. Ele havia esperado por um dia como este. Portanto, seu curso estava terminado agora, e ele estava disposto a se retirar e ser esquecido. Como seus companheiros servos, os profetas, ele havia sustentado uma luz para guiar sua geração a Cristo, para conduzir a Noiva ao Noivo; e agora, só lhe restava se retirar. Ele se posiciona aqui, como no final da linha de profetas; e, em seu próprio nome e no deles, deixa tudo nas mãos do Filho. E quando ele assume esse tema (as glórias d’Aquele que era maior do que ele), com que gozo ele prossegue no tema. O Espírito o conduz de um raio dessa glória para outro; e é bem-aventurado quando Jesus é o tema que assim desperta toda a nossa inteligência e desejo. Bem-aventurado, quando podemos, cada um de nós, ser assim voluntariamente nada, para que somente Ele possa preencher todas as coisas.
Que assim seja com os Teus santos, Senhor, pela Tua graça celestial, cada vez mais!
