Origem: Livro: Os Evangelistas

João 4

Assim, João se vai, e com ele tudo, exceto o ministério do Filho. Tudo agora está somente em Sua mão; e, consequentemente, Ele sai simplesmente como o Filho de Deus, o Salvador do mundo. Ele aparece diante de nós aqui (cap. 4:1) como Aquele que foi rejeitado por Israel, e agora está deixando a Judeia, o lugar da justiça, simplesmente como o Salvador dos pecadores. E, saindo neste caráter, Ele precisa passar por um lugar imundo, e descobrir que Sua jornada entre nós Lhe custará amarga dor e cansaço; a amostra da qual obtemos aqui.

Foi em justiça perfeitamente consistente que os Judeus recusaram todo relacionamento com os samaritanos. Era de acordo com seu chamado dizer: “É uma coisa ilícita para um homem que é Judeu manter companhia, ou vir a alguém de outra nação”; pois isso era um testemunho contra o mal; e tal testemunho era a própria confiança que Jeová havia confiado a Israel. Eles deveriam ser testemunhas de Deus contra o mundo; eles eram os limpos separados dos imundos, para um testemunho da justiça de Deus contra uma Terra corrompida. Mas Jesus estava afastado de Israel. Ele havia deixado a Judeia, o lugar da justiça, e estava na contaminada Samaria como Filho de Deus, o Salvador dos pecadores. Ele já tinha ido à Judeia em busca de justiça, o fruto próprio daquele país, mas não a havia encontrado. Ele não deve agora procurá-la em Samaria. Aqui Ele está de uma maneira completamente diferente, no caminho da graça somente; e na consciência de que Ele era assim, de que Ele estava aqui somente em graça, como o Salvador dos pecadores, Ele Se dirige a uma mulher que tinha vindo tirar água no poço de Sicar.

Havia desde o princípio um segredo com Deus, além e por detrás de todas as exigências reveladas e da ordem de justiça que havia sido estabelecida na Judeia. Havia “graça” e “o dom pela graça”. Ao Judeu poderia ter sido confiado um testemunho à justiça contra o mundo, mas o Filho era o Dom de Deus ao mundo, e a Ele foi confiada a vida para o mundo. “A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” e na abençoada consciência de que Ele carregava Consigo este segredo de graça para os pecadores, Ele diz à mulher: “Dá-me de beber”. Ela se maravilha, como realmente deveria, de que Ele, como Judeu, não manteve distância dela. Mas ela ainda não sabia que o segredo de Deus estava com Ele. Isso, no entanto, logo seria revelado. A glória que excede estava prestes a encher esse lugar imundo. O Senhor Deus está agora tomando Sua posição, não em justiça no monte fumegante, mas na nascente do rio da vida, como seu Senhor, pronto para dispensar suas águas.

Que bênção está, portanto, sendo preparada para esta pobre rejeitada! Ninguém além de uma rejeitada poderia conhecê-la. Mas tais rejeitados também devem saber que a fonte desta bênção não está neles mesmos. E isto a samaritana aprende. Ela é levada a conhecer a si própria, a olhar bem para todas as coisas que ela sempre fez, e ver que isso a deixou apenas num deserto e numa terra de trevas. Sua consciência está assombrada. “Esse que agora tens não é teu marido” (ARA). Mas embora fosse deserto e terra de trevas, o Filho de Deus estava ali com ela. Esta era uma bênção, uma tal bênção que uma rejeitada em um deserto poderia conhecer. Foi para o rejeitado Jacó, que tinha apenas as pedras do lugar como seu travesseiro, que o céu foi aberto, e Deus em plena graça e glória foi revelado. E assim foi aqui, com esta filha de Jacó. O Senhor estava novamente abrindo a rocha no deserto. A arca de Deus estava agora novamente estabelecida com o arraial no meio do deserto. O Senhor fala da fonte de vida com a samaritana impura; e isto era gozo e o poder do amor para ela. Isso a separa do seu cântaro e preenche seu espírito e seus lábios com um testemunho ao Seu nome.

Amados, isto é divino! Uma pobre samaritana, a quem a justiça havia ordenado que ficasse em um lugar imundo, é feita o modelo da obra de Jesus, e introduzida nos segredos e intimidades do Filho de Deus! É seu próprio lugar e caráter de pecadora que a coloca em Seu caminho. É somente o pecador que se encontra no caminho do Salvador. E, irmãos, qualquer que seja a tristeza ou provação que a entrada do pecado possa ter nos causado, ou ainda possa nos causar, ainda assim, sem ela não poderíamos ter tido nosso Deus, como agora O temos, abrindo Seu próprio tesouro de amor, e daí nos dando o Filho.

Os discípulos, ao retornarem, se maravilham, assim como a mulher havia se maravilhado, que Jesus não tenha mantido Sua distância Judaica. Mas ainda assim eles estão conscientes da presença de uma glória que estava acima deles; pois “nenhum Lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?” Eles ainda não conheciam o segredo que o Filho de Deus carregava; e Ele então lhes mostra, como já brancas para a ceifa, as terras que a fé deles nunca havia examinado. Eles não conheciam as terras, a não ser aquelas que, antigamente, tinham sido divididas entre as Tribos. Na avaliação deles, a lavoura de Deus deveria ser confinada àquele santo recinto; e Samaria, eles julgaram, estava agora fora dele, e era apenas um lugar imundo. Mas havia, como já vimos, um segredo com Deus. Era o Filho de Deus, o Salvador dos pecadores, que agora havia saído com a semente, e Seu esforço havia preparado uma colheita para os ceifeiros, nas planícies contaminadas de Samaria.

(Eu observaria que, ao considerar a questão da “adoração”, para a qual a mulher O atraiu, Ele ainda fala em Seu caráter como Filho. A mulher se dirige a Ele como Judia, mas Ele não responde a ela como Judia. Ele antes mostra que toda a adoração Judaica estava agora terminando; e na consciência de que o Filho havia chegado, Ele a ensina que chegou a hora em que toda a adoração aceitável deve ser no espírito de adoção, que era o Pai que agora estava reivindicando adoração. Toda a Sua resposta expressa a consciência disto, que Ele estava Se dirigindo à mulher, não como o Filho de Davi que havia vindo para purificar o templo e trazer de volta os samaritanos revoltosos que estavam “neste monte”, mas como o Filho que veio para dar aos pecadores “acesso ao Pai em um mesmo Espírito”).

Ele mostra a Seus discípulos um grupo de pessoas que acabava de sair de Sicar, que logo diria: “Este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo”. E assim eles estavam prontos para a foice. A colheita na Judeia era grande (Mt 9:37); mas em Samaria estava madura para os ceifeiros. O Senhor havia suportado o trabalho do semeador; havia falado, cansado e fraco, com a mulher; mas Ele agora compartilharia com Seus discípulos a alegria da colheita; e, em garantia disto, Ele permanece por dois dias com esta pequena colheita feita em Sicar, crido e reconhecido como o Salvador do mundo.

É muito bendito conhecer a proximidade com Ele mesmo à qual o Senhor convida a alma, e a intimidade com a qual Ele busca envolver o coração de um pecador crente. Ele não trata conosco no estilo de um protetor ou benfeitor. O mundo está cheio desse princípio. “Os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores” (Lc 22:25). O homem estará pronto o suficiente para conferir benefícios no caráter de um protetor, ocupando o tempo todo o lugar distante de consciente e confessada superioridade. Mas Jesus não é assim. Ele pode dizer: “Não vo-la dou como o mundo a dá”. Ele traz o Seu dependente para muito perto d’Ele. Ele o deixa saber e sentir que Ele está tratando com ele como um Parente e não como um protetor. E isso faz toda a diferença. Sou ousado em dizer que o céu depende dessa diferença. O esperado céu da alma, e que em espírito a mulher prova agora, depende do Senhor Jesus não agir conosco no princípio de um protetor. O céu seria então apenas um mundo bem ordenado de princípios e benevolências humanas. E que coisa seria isso! São as condescendências de um grande ser que vemos em Cristo? “Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve”, diz Ele. Cada caso, posso dizer, me diz isso. Seu estilo nunca foi o de um mero benfeitor; nunca à distância e elevação de um protetor. Ele suportou nossas fraquezas e carregou nossas tristezas.

Basta olhar para Ele nesse poço, com essa samaritana. Ela teve, naquele momento, os pensamentos mais exaltados sobre Ele. “Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando Ele vier, nos anunciará tudo” Este era seu elevado e justo senso do Messias, não sabendo que Aquele com Quem ela estava então falando face a face poderia dizer imediatamente em resposta a ela, “Eu O Sou, Eu que falo contigo”.

Mas onde estava Ele, o Cristo exaltado, todo esse tempo? Conversando com ela, enquanto se encontravam, ao lado de um poço, onde (para dar-lhe conforto em Sua presença) Ele lhe dissera: “Dá-me de beber”.

Era essa proteção à maneira dos homens? Era essa a distância e a condescendência de um superior? Era esse o céu ou o mundo, o homem ou Deus? A condescendência ou o mundo conferirá o favor que você quiser, mas manterá e honrará a elevação de um superior e a reserva de um dependente. Mas o céu ou o amor não agem assim. Bendito, bendito seja Deus! Jesus, Deus manifestado em carne, era Parente daqueles a quem Ele favoreceu. E Ele agiu como um Parente, não como um protetor. Ele busca nos trazer para perto, para envolver nosso coração com tranquilidade e confiança. Ele nos visita. Não, Ele vem a nós mediante o nosso convite – como Ele foi e habitou dois dias com os samaritanos que saíram e buscaram Sua companhia por causa do testemunho da mulher. Ele pede um favor de nossa mão, para que possamos receber um favor d’Ele sem reservas. Ele beberá de nosso cântaro, para nos encorajar a beber de Suas fontes; e comer da nossa vitela à porta da tenda, enquanto nos revela segredos eternos (Gênesis 18; João 4).

Certamente nosso coração pode se regozijar com isso. O coração do Senhor se regozija com essa Sua própria maneira de amar. Pois esses dois dias em Sicar foram para Ele um pouco da alegria da colheita. Eles foram alguns dos momentos mais revigorantes que o cansado Filho de Deus já provou nesta nossa Terra. Pois Ele conheceu aqui um pouco da fé mais brilhante que já encontrou; e foi somente a fé dos pecadores que poderia tê-Lo revigorado aqui. Nada no homem poderia ter feito isso – nada além daquela fé que tira o homem de si mesmo.

Mas essa alegria durou apenas dois dias. Ele é rapidamente chamado para uma região mais baixa; pois depois desses dois dias Ele segue para a Galileia, entrando assim em conexão Judaica novamente; mas Ele vai com este triste pressentimento: “um profeta não tem honra na sua própria pátria”. E com maior provação de coração Ele deve sentir isso agora, por causa da liberdade que Ele tinha acabado de conhecer entre os pecadores em Samaria. E Seu pressentimento foi considerado verdadeiro. Ele encontra fé na Galileia, é verdade, mas fé de uma ordem inferior. Os galileus O recebem, mas é porque foram “vistas todas as coisas que fizera em Jerusalém”. O nobre e sua casa creram, mas não antes de terem cuidadosamente se assegurado Quem era Ele, por suas próprias testemunhas. A colheita em Sicar havia crido n’Ele próprio, os galileus agora creem n’Ele por causa de Suas obras (veja João 14:11); os samaritanos O conheceram como Ele mesmo, os Judeus estavam agora, por assim dizer, pedindo um sinal novamente. Uns, portanto, entraram em comunhão com o Filho de Deus, o outro recebeu saúde do Médico de Israel. A profanada Samaria está, em bênção, antes do que o justo Judá.

Aqui a primeira seção do nosso Evangelho se encerra. Ela nos conduziu pelos caminhos do Filho de Deus, o Filho do Pai, em meio a esse nosso mundo mal. No início da seção, vimos Sua glória e descobrimos que, no momento em que ela brilhou sobre o mundo, ela comprovou as trevas do mundo. Tal glória não encontrou resposta do homem. O mundo que foi feito por Ele não O conhecia. Mas Ele carregava Consigo um segredo, o segredo da graça de Deus para os pecadores, mais profundo do que todos os pensamentos dos homens. Ele era um Estrangeiro na Terra; mas a revelação de Seu segredo aos pecadores tinha a virtude de torná-los estrangeiros com Ele.

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