Origem: Livro: Os Evangelistas

João 5

Já mostrei, a partir de vários exemplos, que houve, por todos os estágios da história de Israel, a ocasional manifestação de uma energia especial do Espírito, pela qual, e não pelos recursos de seu próprio sistema, o Senhor estava sustentando Israel, e ensinando-os a saber onde estava sua esperança final. Do chamado de Abraão ao trono de Davi, vimos isso.

Agora julgo que Betesda foi testemunha da mesma coisa. Betesda não era aquilo que o próprio sistema fornecia. Ela estava aberta em Jerusalém, como uma fonte de cura, pela graça soberana de Jeová (como, de fato, o nome dela significa). Nem era um alívio permanente, mas apenas ocasional, como os juízes e profetas tinham sido. Como eles, Betesda era um testemunho da graça e do poder que estavam no próprio Deus para Israel, e tinha, talvez, produzido este seu testemunho em certos momentos durante toda a era das trevas que se passou desde os dias do último de seus profetas. Mas agora ela deve ser colocada de lado. Suas águas não devem mais ser agitadas. Aquele a Quem todas essas testemunhas da graça apontavam tinha aparecido. Como a verdadeira Fonte de saúde, o Filho de Deus tinha agora vindo à filha de Sião, e estava Se mostrando a ela.

Somos informados de que era um tempo de festa (v. 1). Tudo prosseguia em Jerusalém como se tudo estivesse correto diante de Deus. As festas eram devidamente observadas; o tempo era de serviços religiosos precisos. Mas Betesda, por si só, poderia ter dito à filha de Sião que ela precisava de um médico, e não estava naquele descanso que a fidelidade a Jeová teria preservado para ela. E o Senhor agora lhe diria a mesma verdade. Ele cura o homem impotente, tomando assim o lugar de Betesda; mas Ele o faz de uma forma que conta a Israel sobre sua perda do sábado – a perda de sua própria glória. “E aquele dia era sábado”.

A nação imediatamente se sensibiliza a isso. Tocou no lugar do orgulho deles; pois o sábado era o sinal de toda a sua distinção nacional; e eles se ressentem disso – eles “procuravam matá-Lo, porque fazia estas coisas no sábado”.

Mas devo me demorar um pouco mais aqui.

Jesus ao lado do tanque de Betesda, como O vemos neste capítulo, é uma visão para a qual, no espírito de Moisés diante da sarça, bem podemos nos virar para ver. Se, outrora, Ele havia Se refletido naquela água, agora Ele está ali para secá-la. Ele está ali como uma coisa nova, em forte contraste com o tanque. “Queres ficar são?” foi a palavra que Ele dirigiu ao pobre aleijado que estava deitado ali. Será que ele estava pronto para se colocar, assim como estava, em Suas mãos? Ele estava disposto a ser Seu devedor? Ele poderia confiar-se, em toda a sua necessidade e impotência, somente a Jesus? Isso era tudo. E certamente isso estava em contraste com o pesado e incômodo maquinário de Betesda. Nenhuma rivalidade precisava ser temida, nenhuma ajuda precisava ser procurada, nenhuma demora precisava ser suportada, nem incerteza sentida. Aqueles que poderiam ter lutado com este aleijado para descer ao tanque antes dele, ou aqueles que poderiam, por pena, ter sido atraídos para ajudá-lo a descer antes dos outros, a todos agora ele podia igualmente ignorar; e a demora e a esperança podem agora ser trocadas por uma libertação presente e completa. Anjos e o tanque, ajudantes e rivais, demora e incerteza, agora estavam todos abençoada e gloriosamente despedidos por Jesus em favor do aleijado. Quando Jesus apareceu, quando o Filho de Deus estava ao lado deste tanque, a única questão era: O pobre aleijado estaria disposto a ser Seu devedor – a permanecer ali e ver Sua salvação?

A pobreza do tanque é exposta. Ele é visto como nada mais que um “rudimento pobre”. Não tem glória em razão da excelente glória. E desta mesma maneira o Espírito, pelo apóstolo, expõe o “santuário terrestre”, e todas as suas provisões e serviços, na Epístola aos Hebreus. Como posso dizer, Jesus está ali de pé novamente ao lado de Betesda. Ele é apresentado pelo Espírito Santo em contraste com todo aquele sistema de ordenanças e observâncias que havia antes, e Ele expõem todos eles em sua impotência e pobreza. Havia, de fato, um reflexo de Cristo naquelas cerimônias do antigo tabernáculo, assim como havia nesta água perto da porta das ovelhas; mas esse reflexo desaparece agora, quando a própria Luz preenche o lugar.

Mas, enquanto nos demoramos um pouco mais neste tanque, o que diremos, quando vemos, não apenas este aleijado, mas uma “grande multidão de enfermos” que morria aos poucos ao redor daquela água incerta e decepcionante, embora o Filho de Deus estivesse por toda a terra, carregando n’Ele e com Ele cura e libertação sem dúvida ou demora, e desafiando toda rivalidade, e independente de toda ajuda! Certamente isso nos ensina uma lição. O tanque densamente frequentado, Jesus passando despercebido! O tanque procurado, enquanto Jesus tem que buscar, e Se propor! Que testemunho da religião do homem! Ordenanças, com todo o seu maquinário incômodo, ainda aguardavam; a graça de Deus que traz salvação desprezada!

Poderíamos nos maravilhar se não soubéssemos, a partir de nós mesmos, algumas das operações dessa nossa natureza arruinada.

Mas ainda mais. Nos outros Evangelhos, quando o Senhor é desafiado por fazer Suas obras no dia de sábado, Ele responde como se fosse o caso de Davi comendo os pães da proposição, dos sacerdotes trabalhando no templo, ou do fato de que eles mesmos, Seus acusadores, levavam seus jumentos para beber água no dia de sábado. Mas aqui, no Evangelho de João, não é o que Davi, ou os sacerdotes, ou Seus próprios acusadores fariam, ou fizeram, que Ele alega, mas o que o Pai celestial sempre fez neste mundo necessitado e arruinado. “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também”, o Senhor aqui diz àqueles que estavam desafiando este Seu ato em Betesda, porque era o sábado.

Frase maravilhosa! E quão completamente em caráter com Sua maneira por todo João. Ele não Se coloca aqui, como nos outros Evangelhos em ocasião semelhante, em companhia de Davi, dos sacerdotes ou de Seus próximos, mas com Deus! “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também”.

Isto é cheio de caráter consistente com tudo o que obtemos neste Evangelho. E certamente é cheio, também, daquilo que pode suscitar o jubiloso louvor daqueles que O conhecem. Com os Judeus, no entanto, era diferente. Estas palavras novamente lhes contaram sobre sua perda do sábado em que se orgulhavam; sim, que eles o haviam perdido há muito tempo, perdido desde o princípio; pois, em cada estágio de sua história, Deus tinha estado operando em graça entre eles, operando como Seu Pai, do qual Betesda era o sinal; e que Ele mesmo havia vindo agora, exatamente da mesma forma, para operar em graça entre eles, do qual este pobre aleijado restaurado era o sinal. Esta foi a voz destas palavras: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também”; referindo-Se ao ato de graça por toda a história de Israel, que eu observei, mas sobre isso os Judeus O ressentem ainda mais; e, não estando no segredo de Sua glória, eles O acusam de blasfêmia por chamar Deus de Seu Pai.

A isto Ele novamente responde (ainda, como antes, falando de Si mesmo como Filho, mas também tomando um lugar de sujeição), “Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por Si mesmo não pode fazer coisa alguma”. (Sem o conhecimento da dignidade Divina de Sua Pessoa, não podemos descobrir o lugar que o Senhor aqui toma para ser o lugar de sujeição voluntária, como era. Pois não teria sido assim em nenhuma mera criatura, por mais exaltada que fosse, ter dito: “Eu não posso de Mim mesmo fazer coisa alguma”. Mas isto, no Filho, era sujeição.)

Mas tudo isso é muito abençoado. Aquele que veio a este mundo em favor de Deus e Sua honra, não poderia tomar outro lugar. Era o único lugar de justiça aqui. Aquele “que busca a glória d’Aquele que O enviou, Esse é verdadeiro, e não há n’Ele injustiça”. O homem, por orgulho, desonrou a Deus. O homem fez uma afronta à majestade de Deus quando deu ouvidos às palavras: “Sereis como Deus”. E o Filho, que veio para honrar a Deus, deve humilhar-Se. Embora na forma de Deus, Ele deve esvaziar-Se aqui. O louvor de Deus, em um mundo que se afastou d’Ele em orgulho, deve ter este sacrifício. E este sacrifício o Filho ofereceu. Mas isso não convinha ao homem; isso não era de acordo com o homem; e o homem não poderia receber ou sancionar tal Pessoa. “Eu vim em nome de Meu Pai, e não Me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis”.

Este é um assunto profundo e santo, amados. Por Sua humilhação e sujeição, o Filho estava ao mesmo tempo honrando a Deus e testando o homem; dando ao “único Poderoso” Seus direitos neste mundo, mas assim Se tornando Ele mesmo um sinal para tornar manifestos os pensamentos do coração. E o Judeu, o Judeu favorecido, foi encontrado no ateísmo comum do homem; pois revelar esta fonte oculta de incredulidade em Israel era a tendência do discurso de nosso Senhor neste capítulo. Não foi por falta de luz e testemunho. Eles tinham as obras de Cristo, a voz do Pai, suas próprias Escrituras e o testemunho de João. Mas, além disso, eles tinham o amor do mundo neles, e não o amor de Deus; e estavam, portanto, despreparados para o Filho de Deus (v. 42).

“Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?” (v. 44). Certamente isso tem uma voz para nossos ouvidos, amados! Isso não nos diz que o coração e seus movimentos ocultos precisam ser vigiados? “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Pode haver correntes fortes e perigosas correndo abaixo da superfície. Jó era um homem piedoso. Não havia ninguém como ele em sua geração. Mas em sua alma fluía uma corrente rápida. Ele valorizava seu caráter e suas circunstâncias. Não que ele fosse, da maneira comum, hipócrita ou mundano. Ele era verdadeiramente um crente, um amigo e benfeitor generoso. Mas ele valorizava suas circunstâncias na vida e sua estima entre os homens. Nos exercícios ocultos de seu coração, ele costumava examinar sua boa condição com complacência (Jó 29). Essa era uma forte corrente subterrânea. Seus próximos não haviam traçado o curso dessa corrente; mas seu Pai celestial havia; e porque Ele o amava e queria que ele participasse de Sua santidade, com a qual tudo isso era inconsistente, Ele o colocou em Sua própria escola para exercitá-lo.

Que gracioso aviso isso nos dá, para manter os fluxos e refluxos do coração sob vigilância. “Em que estamos pensando?”, podemos nos perguntar repetidamente ao longo do dia. Em que estamos gastando nossa diligência? Quais são os cálculos secretos de nossa mente em momentos de relaxamento? É o espírito ou a carne que está nos fornecendo alimento? Nossas afeições que se agitam dentro têm sabor de céu ou de inferno?

Estas são perguntas saudáveis para nós, e são sugeridas pelo forte pensamento moral do Senhor aqui: “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros?”

Como poderia o homem, apóstata em seu orgulho, suportar o humilde Filho do Homem, o esvaziado Filho de Deus? Esta foi a fonte onde sua incredulidade teve sua origem. Não havia associação entre eles e Aquele que permanecia em favor da honra de Deus diante dos homens. Sua forma de humilhação agora era rejeitada, assim como Sua obra e graça em Betesda haviam sido recusadas antes. Seus irmãos deveriam ter entendido como Deus por Sua mão os livraria; mas eles não entenderam; eles não creram em Moisés, e estavam assim, em princípio, ainda no Egito, ainda na carne, ainda não redimidos. Se tivessem crido em Moisés, teriam crido em Cristo, e sido conduzidos por Ele, como neste momento, para fora da mão do Faraó, do poder da carne e do mundo. Mas sob tudo isso, por meio da incredulidade, este capítulo os encontra e os deixa.

Compartilhar
Rolar para cima