Origem: Livro: Os Evangelistas
João 7
Uma nova cena se inicia novamente aqui: Era a época da festa dos tabernáculos; assim como a cena anterior havia acontecido na época da páscoa.
Este era o tempo mais alegre do ano Judaico. Era a grande festa anual em Jerusalém; a grande comemoração da passada peregrinação de Israel no deserto, e de seu presente descanso em Canaã; a figura também da glória e gozo vindouros do Messias como Rei de Israel. Seus irmãos insistem com Senhor que tire proveito desse momento; a deixar a Galileia e subir a Jerusalém, para lá exibir Seu poder, e obter um nome para Si no mundo. Mas eles não O entenderam. Eles eram do mundo; Ele não era do mundo. O Filho de Deus era um Estrangeiro aqui; mas eles estavam como que em casa aqui. Eles podiam subir e encontrar o mundo na festa, mas Ele testemunhou por Deus contra o mundo. Ele, a Quem a festa dava testemunho, não podia subir e reivindicar o que era Seu ali, porque o mundo estava ali, porque o deus deste mundo havia usurpado e estava corrompendo a cena de Sua glória e gozo.
Mas quão caído estava Israel quando isso aconteceu! E qual era sua vangloriada festa, quando a Fonte de seu gozo e o Herdeiro de sua glória permanecia assim afastado dela!
Como se escureceu o ouro! Os caminhos para Sião ainda estavam solitários; ninguém realmente vinha às festas solenes. Em espírito, o profeta ainda estava chorando (Lm 1:4). O Senhor sobe, é verdade, mas não em Sua glória. Ele não vai como Seus irmãos queriam que Ele fosse; mas em simples obediência, para tomar o lugar dos humildes e não do grande da Terra. E, quando chegou à cidade das solenidades, nós O vemos apenas no mesmo caráter, pois Ele vai ao templo e ensina; mas quando isso atrai atenção, Ele Se esconde, dizendo: “A Minha doutrina não é Minha, mas d’Aquele que Me enviou”. Ele Se esconde, para que não Ele, mas o Pai que O havia enviado, pudesse ser visto. Como Aquele que Se esvaziou e tomou a forma de um servo, Ele está disposto a não ser nada. Aqueles que estavam na festa manifestaram sua total apostasia do princípio da festa, dizendo: “Como sabe Este letras, não as tendo aprendido?” Em seu orgulho, eles não reconheciam nenhuma fonte de conhecimento ou sabedoria acima do homem. Eles teriam a criatura em honra; mas a festa celebrava Jeová, e era para a exposição das honras d’Aquele que agora em justiça tinha que esconder Sua glória, e separar-Se de tudo. Israel e a festa, Israel e o Filho de Deus, estavam completamente dissociados. Eles não tinham nada um no outro. E assim, quer ouçamos os Judeus, ou os homens de Jerusalém, ou os fariseus, neste capítulo, todos nos falam de sua rejeição a Ele; e Ele tem no final a dizer-lhes: “Onde Eu estou, vós não podeis ir”.
Jesus, portanto, Se recusa a sancionar a festa. Ele diz a Israel que eles agora não tinham direito ao descanso e à glória que a festa lhes prometia – que eles não estavam realmente em Canaã, e nunca haviam tirado água dos poços da salvação; que sua terra, em vez de ser regada pelo rio de Deus, era apenas uma porção estéril e sedenta da terra amaldiçoada; que eles haviam deixado o manancial de águas vivas, e todas as suas próprias cisternas estavam rotas. E, consequentemente, quando a festa estava terminando, Jesus coloca a água viva em outros vasos e seca os poços que estavam em Jerusalém. Por causa da impiedade dos que nela habitavam, Ele transforma a terra frutífera em esterilidade, e abre o rio de Deus em outros lugares. “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-Se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”.
E em conexão com isso, eu brevemente traçarei o rio de Deus através da Escritura; e o veremos fluindo em diferentes canais de acordo com diferentes dispensações.
No Éden, ele teve sua origem na Terra para regar o jardim, e dali se dividia em diversos riachos sobre a Terra. Pois a dispensação era de bens terrenais. O homem não conhecia fontes de bênção, ou correntes de gozo, além daquelas que estavam conectadas com a criação. No deserto, a rocha ferida era sua fonte, e em cada jornada do arraial de Deus, era seu canal. Ela os seguia; pois naquele tempo eles eram apenas os redimidos do Senhor, em quem Seus olhos repousavam no mundo. Em Canaã, depois, as águas de Siloé fluíam suavemente; Jeová regava a terra de Suas próprias fontes, e a fazia beber da chuva do céu; e para as almas do povo, cada festa e cada sacrifício eram como um poço dessa água; e a corrente do serviço anual do santuário era seu canal constante. O rio também subirá sob o santuário para regar Jerusalém e toda a terra (Ez 47; Jl 3; Zc 14; Sl 46:4, 65:9). Pois então será o tempo da bênção dupla, o tempo da glória celestial e terrenal. Todas as coisas terão a graça e o poder de Deus dispensados entre elas, todas serão então visitadas pelo “rio de Deus, que está cheio de água”. A festa dos tabernáculos será então devidamente guardada em Jerusalém, e aquela nação da Terra que não subir para guardá-la ali, não terá nenhuma visitação graciosa de chuva.
Sobre tudo isso, eu apenas notaria ainda mais a conexão que há entre nossa sede e o fluxo desta água viva (João 7:37-38). O santo tem sede, então vai a Jesus pela água que Ele tem para dar, e depois vem com a água da vida, o fluir do Espírito, nele, para seu próprio refrigério e o dos cansados. Sua sede recebe a presença abundante do Espírito Santo, abrindo nele um canal para o rio da vida, que agora sobe na Cabeça ascendida da Igreja, para fluir através dele para os outros. Oh, que suspiremos mais por Deus, como o cervo suspira pelas correntes das águas! Que ansiemos mais pelos átrios do Senhor! Então o Espírito encheria nossa alma, e deveríamos confortar e reanimar uns aos outros. E este é de fato o poder de todo ministério. O ministério é apenas o fluxo desta água viva, a expressão desta presença oculta e abundante do Espírito dentro de nós. A Cabeça recebeu os dons para nós; e, da Cabeça, todo o corpo, pelas juntas e ligaduras tendo nutrição ministrada, e unida, aumenta com o aumento de Deus. E esta é nossa única festa de tabernáculos, até que celebremos uma ainda mais feliz ao redor do trono. Pois esta festa não pode agora ser guardada em Jerusalém; os santos devem tê-la em sua própria forma presente, caminhando juntos na liberdade e no refrigério do Espírito Santo.
Esta festa, esta “alegria no Espírito Santo”, é algo mais do que a páscoa no Egito, ou o maná no deserto. Aqueles eram para redenção e vida; mas este é para alegria e o antegozo da glória. Aqueles eram da carne e do sangue do Filho do Homem, partida e derramado aqui; mas este do Filho do Homem glorificado no céu. Tem sabor de Canaã, embora para conforto no deserto; como a festa dos tabernáculos era uma festa em Canaã, a terra de descanso e glória depois o deserto.
Mas Israel, até então, não sabia nada dessas coisas, como aqui nos é mostrado. No capítulo 5, o Senhor os havia encontrado, como no Egito, com graça e poder redentores. O aleijado restaurado testemunhou, que era como Moisés lançando sua vara à vista de Israel em prova de sua comissão. Mas isso só terminou provando que eles permaneceriam no Egito – pois eles se recusam a acreditar em Moisés, não acreditando n’Aquele de Quem Moisés escreveu; e que redenção para fora do Egito haveria para Israel, se Moisés fosse recusado? No capítulo 6, Ele os havia encontrado, como no deserto, com o maná; mas apenas, da mesma maneira, para provar que eles não estavam se alimentando ali, como o arraial de Deus, do pão de Deus. Neste capítulo, Ele os havia encontrado como em Canaã; mas todos haviam mostrado que Canaã ainda era a terra dos incircuncisos, a terra da seca, e não do rio de Deus. Ele, portanto, agora está fora da cidade das solenidades, e em espírito ascende ao céu, como Cabeça de Seu corpo, a Igreja, para alimentar os sedentos dali. Ele diz: “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba”. Os Judeus podem raciocinar sobre Ele entre si, e então ir cada um “para sua casa”; mas Ele, reconhecendo Seu presente afastamento de Israel, e consequente condição de sem um lar na Terra, vai para o Monte das Oliveiras.
