Origem: Livro: Os Evangelistas

Lucas 9:51 – 19:27

Lucas 9:51-62

Neste lugar, começa o que foi sugerido como a quarta parte do nosso Evangelho. O Senhor, tendo terminado Seu ministério mais formal na Galileia, começa Sua jornada para Jerusalém (v. 51).

Nosso evangelista é o único que observa as circunstâncias com as quais essa jornada se inicia. E há algo de seu arranjo moral de incidentes a ser notado aqui. Como foi observado por alguém, comentando sobre esta parte de Lucas, “esta passagem da história parece entrar aqui por causa de sua afinidade com o texto anterior (a repreensão do Senhor a João por proibir o homem que não os seguia); pois ali, sob o tom do zelo por Cristo, os discípulos eram a favor de silenciar e restringir os separatistas; aqui, sob o mesmo tom, eles eram a favor de matar os infiéis; mas, assim como por aquilo, quanto por isso, Cristo os repreendeu”.

A ordem moral na narrativa do nosso evangelista é, creio eu, assim exibida neste lugar do seu Evangelho. Mas introduz um caminho muito peculiar do Senhor.

A visão recente no monte pode ter levado a isso; mas, seja isso assim ou não, encontramos nosso Senhor aqui Se referindo à Sua jornada, na consciência de que ela O levaria à glória. O tempo havia chegado, lemos, quando Ele seria “recebido no céu” (TB) – palavras que expressam Sua ascensão à glória. E Ele parece agir de acordo com essa consciência, enviando mensageiros diante de Sua face, como se fosse para preparar para Ele um caminho adequado a essa glória antecipada. O carro de Deus estaria pronto para atendê-Lo de Jerusalém para cima (Lucas 24:51); mas agora cabia aos filhos dos homens preparar Seu caminho anterior do lugar onde Ele estava até aquela cidade. E Ele estava, por assim dizer, provando se o mundo reconheceria Sua reivindicação de ser “recebido”, como depois Ele provou se Israel reconheceria Seu lugar real em Sião (Lucas 19:28). Mas nem o mundo O conheceria, nem Israel O receberia. O mundo não estava pronto para Suas reivindicações, como é aqui expresso pela conduta dos aldeões samaritanos. A Terra não se importava com Sua glória celestial. “Sobe, calvo, sobe, calvo!”, um mundo infiel estava novamente dizendo, no espírito disso.

Os discípulos, que tinham, talvez, captado o tom da mente de seu Senhor nessa ocasião marcante, olham para Ele como outro Elias indo para encontrar os carros de Israel, e eles O movem a fazer o que Elias havia feito, ao se ressentir dessa indignidade dos aldeões samaritanos, como dos capitães e seus cinquenta. Mas o caminho do Filho do Homem, por enquanto, deve ser diferente. Ele passará para a glória antes pela aflição de Sua própria Pessoa do que pelo julgamento do mundo. Ele “sofrerá até aqui”; e, portanto, Ele aqui restringe esse movimento de Seus discípulos, curva Sua cabeça a esse desprezo dos homens ao buscar outra aldeia, e isso, também, não com preparação diante de Sua face, mas como o Cristo rejeitado de Deus.

Em tal caráter, Ele consequentemente retoma Sua jornada. Nenhum senso de glória preenche Sua alma, como havia feito quando Ele partiu. Os samaritanos mudaram seu curso, e Ele continua, conscientemente desprezado e rejeitado pelos homens, que agora em plena deliberação esconderam seus rostos e fecharam suas portas a Ele. E se, amados, é para o louvor da graça em Paulo, que ele aprendeu como ser humilhado e como ter abundância, como ter fartura e como ter fome, não vemos tudo isso com perfeição em nosso bendito Mestre? Ele sabia como agir em um momento no perfeito sentido de Sua plenitude de glória, e no momento seguinte Se tornar o desprezado Filho do Homem. Ele toma o lugar que os desprezadores aldeões de Samaria Lhe dão, sem um esforço ou um murmúrio. Mestre perfeito, bem como Libertador gracioso!

E nesse lugar de rejeição vemos alguns trazidos à relação com Ele, para que por meio deles possamos ter algumas boas lições lidas para nossa alma. Dois deles são introduzidos em Mateus 8, mas não na mesma conexão moral que aqui.

O Senhor fala sobre cada caso no sentido pleno de Seu presente lugar de rejeição na Terra. Todo o peso da instrução procede disso. É a rejeição do Senhor que deu a Seus santos um novo lugar, novos deveres e novos apegos; e estes são aqui trazidos para nossa contemplação, para que possamos calcular o custo de sermos d’Ele. Nada traz os santos a essas coisas novas, a não ser a total rejeição de seu Senhor pelo mundo; mas deixe o Senhor ser apreendido em Sua rejeição, e então a alma imediatamente adentrará a essas coisas. Nenhum olhar “para trás”, nenhum conhecimento do homem “segundo a carne”, por aqueles que foram ao Filho de Deus fora do arraial; e é somente quando nós, em espírito, estamos lá com Ele, que O entendemos corretamente.

Essas santas e solenes lições são lidas para nossa alma por nosso divino Mestre de Seu lugar atual – “desprezado e o mais rejeitado entre os homens” (ARA). Ele ainda nos ensinaria, mesmo por meio de Suas próprias aflições, para que pudéssemos ser mantidos em companhia d’Ele e de Seus pensamentos, enquanto passamos de uma cena para outra por este mundo maligno. (Ao responder à terceira dessas pessoas, nosso Senhor parece Se referir ao chamado de Eliseu, para o qual a recente menção de Elias por Seus discípulos pode naturalmente ter mudado Sua mente. Sua pequena analogia e instrução tiradas de um lavrador parecem ter sido sugeridas pela história de Eliseu – veja 1 Reis 19:21).

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