Origem: Livro: Os Evangelistas
Marcos 14-15
Aqui vemos o paciente e imaculado Cordeiro de Deus em Seus sofrimentos, passando da noite da última páscoa para a tristeza mortal das três horas de trevas.
Seu caminho aqui é geralmente o que está em Mateus 26-27. Ainda assim, há algumas características que o distinguem.
Ele parece ser deixado mais sozinho aqui. O relato é menos interrompido pelos atos ou sentimentos dos outros. Não temos nem o arrependimento de Judas, nem a compra do campo do oleiro, nem o sonho da esposa de Pilatos. E não temos a comunicação entre Herodes e Pilatos, nem as lamentações das filhas de Jerusalém; ambas mencionadas por Lucas. Não há cura da orelha de Malco aqui, nem qualquer menção ao direito do Senhor, se Ele quisesse, de usar os exércitos do céu a Seu serviço. Nem ouvimos o Senhor na cruz reconhecendo o Pai, nem prometendo o Paraíso ao ladrão que morria. Nem, quando a morte é toda consumada, temos o mesmo testemunho pleno e glorioso do valor dela, dado pela Terra, pelas rochas e pelos túmulos dos santos, como obtemos em Mateus. Expressões de dignidade consciente e selos de poder e autoridade colocados sobre Ele e Sua obra são menos notados.
Há, no entanto, introduzido por Marcos nesta cena solene, um objeto que não vemos em nenhum outro lugar. Quero dizer, o jovem que tinha o pano de linho amarrado em volta do seu corpo nu, e que fugiu nu, como estava, deixando seu pano de linho para trás, enquanto os oficiais estavam segurando Jesus. Mas este objeto aprofunda em nosso espírito o senso de tristeza e solidão. Está de acordo com a visão que nos é dada aqui d’Aquele sempre Bendito, que, durante esta hora, estava desamparado e abandonado, exposto e humilhado, como o Servo da glória de Deus na redenção dos pecadores.
Tudo isso, o que obtemos aqui e não em outro lugar, e o que não obtemos aqui, mas obtemos em outro lugar, é característico; tudo fala da habilidade do “destro Escritor” que guiou a pena do nosso evangelista. Em João, Jesus, durante esta mesma hora, é o Solitário, eu sei. Mas Sua solitude[1] ali é a elevação e a distância do Filho de Deus. Aqui Ele é o Solitário, como vimos agora; mas é a solitude do Servo voluntário e esvaziado de Si mesmo que havia tomado o lugar mais baixo.
[1] N. do T.: Solitude é um estado de isolamento voluntário e positivo; o gozo de estar a sós; já a solidão é uma condição associada à dor e à tristeza; o sentimento de um vazio interior. ↑
E, contemplemo-Lo sob qualquer luz ou caráter que seja, é apenas o brilho variado daquela glória moral que era tão pura e imaculada em sua natureza quanto a glória pessoal que Ele tinha antes que o mundo existisse e, desde a eternidade, ela era perfeita em sua natureza, assim como serão perfeitas em sua natureza, as glórias nas quais Ele será conhecido na eternidade vindoura.
