Origem: Livro: Os Evangelistas

Mateus 27:62 – 28

E, como ainda mantendo sua peculiaridade até o fim, este é o único Evangelho que nos fala da inimizade Judaica perseguindo o Senhor além da cruz. É Mateus, e somente Mateus, que nos fala do selamento da pedra e da colocação da guarda na porta do sepulcro. Isso foi permitido pelo governador romano, a pedido e sugestão dos anciãos e sacerdotes de Israel. Pilatos não se importou com isso; era o propósito estabelecido e o ódio amargo da mente Judaica; perseguir o Senhor além do túmulo; provando ser ela indomável. Nenhuma brasa de fogo, embora amontoada sobre a cabeça repetidamente, a reduz, nem a morte a acalma. Seu sepulcro deve testemunhá-la, como Sua vida e morte fizeram. Nosso evangelista não nos deixa perdê-la de vista por um momento sequer. É essa inimizade que inicia seu Evangelho, na tentativa de Herodes contra a vida do Menino, e é a mesma que agora o encerra, no túmulo de seu Messias martirizado. Não apenas isso, mas Sua ressurreição também testemunhará dela; pois quando o sepulcro os decepcionou, e, apesar do selo e dos soldados, o Senhor ressuscitou, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos estão na mesma obra novamente. Eles haviam conseguido a guarda de soldados romanos para vigiar o sepulcro, e agora corrompem os soldados romanos com muito dinheiro, para contar uma mentira sobre o sepulcro (Mateus 27:64-66; 28:12).

Surpreendentemente, de fato, o Espírito mantém a pena do evangelista fiel ao seu assunto por toda parte. Cristo foi apresentado repetidamente a Israel, e isso, também, de acordo com seus próprios profetas, e na maravilhosa graça curadora e abençoadora de Seu próprio ministério; mas Ele apenas atraiu o ódio de Israel repetidamente, do começo ao fim.

Essa inimizade do homem para com Deus pode ser vista ao longo de toda a história do homem; mas, de fato, aqui a vemos se exibindo ao máximo. “A inclinação da carne [a mente carnal – JND] é inimizade contra Deus”. Nenhuma atração a suaviza, nenhuma ameaça a subjuga. No começo, Caim peca apesar da súplica pessoal do Senhor a ele; Ninrode desafia os julgamentos de Deus; Faraó resiste às solenes visitações da mão de Jeová sobre sua terra; Amaleque insulta a bandeira hasteada do Senhor; e Balaão se endurece contra as advertências do Espírito de Deus. Absalão, Hamã e Herodes podem se apresentar como mais testemunhas do homem; e assim também pode a multidão feroz que se arremeteu loucamente sobre Estêvão, embora seu rosto, no momento, brilhasse como o de um anjo. E, em breve, os apóstatas do Apocalipse, no final da história, serão ousados para resistir ao Cavaleiro do cavalo branco e Seu exército, descendo do céu em glória e poder. Não é tudo isso o testemunho de algo incorrigível e incurável, que nenhuma atração pode suavizar, e nenhuma ameaça controlar? E uma amostra igual a qualquer uma dessas nós temos nesses sacerdotes de Israel, e nesses soldados de Roma. O véu tinha acabado de ser rasgado como na presença dos primeiros, e o túmulo na presença dos segundos, mas eles consentem juntos em inventar uma mentira, e falsificar tudo.

O homem está desesperado em sua obstinação e inimizade. Quem confiará em um coração que foi assim exposto?

E mais ainda, quanto a essa inimizade de Israel. Lemos aqui, em nosso capítulo 28, que essa mentira dos sacerdotes e soldados em conluio (de que os discípulos vieram e roubaram o corpo de Jesus enquanto a guarda dormia), é comumente relatada até hoje; um claro sinal da antiga inimizade, e de sua continuidade por todas as gerações da nação, até os dias de hoje.

Não adianta, no entanto, recalcitrar contra os aguilhões. Isso é apenas autodestruição. Jesus ressuscita no terceiro dia, o dia designado; e Sua ressurreição é julgamento sobre Seus inimigos. Ela nos diz isso – que Aquele com Quem estão as fontes da vida e da morte, colocou-Se do lado da Vítima do mundo, do lado d’Aquele a Quem o homem expulsou e recusou. Ela nos diz que há uma questão entre Deus e o mundo a respeito de Jesus; e o fim dessa questão será o julgamento, o julgamento daquilo que se alinhou contra Deus. Portanto, está escrito: “Deus porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do Varão que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-O dentre os mortos” (At 17:30-31 – AIBB).

Este é o poder e o fruto da ressurreição do Senhor Jesus que obtemos em nosso Evangelho. Uma garantia disso é dada no início de Mateus 28. O anjo remove a pedra selada. Ela trazia o selo oficial de que o propósito não poderia ser mudado; e quem ousaria tocá-la? Isso seria morte para qualquer homem. Mas Aquele que estava assentado nos céus riu dela com desprezo. O anjo se senta em triunfo sobre ela e decreta a sentença de morte sobre os guardiões da pedra. Israel havia desprezado a Pedra selada de Deus, Sua Pedra eleita e provada, e havia escolhido para si uma que trazia outro selo; mas esta em que eles confiavam agora é removida por Deus; pois não é a Rocha do povo de Deus, como eles próprios agora podem julgar. E o fruto pleno desta certeza será trazido à tona naquele dia, quando os inimigos de Jesus serão feitos escabelo de Seus pés, e a queda da Pedra rejeitada esmague até o pó (Mateus 21:42-44; 22:44).

Esta é a voz da ressurreição, como a lemos em Mateus. Claro que não preciso dizer como ela tem outras vozes que a fé escuta; como ela fala da remissão dos pecados, e como ela promete, como primícias, a colheita no dia do levantar e da ascensão da família celestial. Mas aqui, em Mateus, ela fala do julgamento. É como a vara que brotara de Números 17, que foi trazida, como algo vivo, vinda da presença de Deus, para silenciar o murmurante e rebelde arraial de Israel.

É somente em Mateus que temos essa cena da pedra selada; mas isso, é claro, porque é somente em Mateus que temos a pedra selada em si, como vimos antes.

Mas quão perfeito é isto na unidade de todo o evangelho! É o Evangelho da inimizade de Israel para com o Messias, e a rejeição d’Ele por eles; e aqui essa inimizade recebe a garantia completa de seu julgamento vindouro no dia do poder d’Aquele a Quem eles rejeitaram.

Mas mais adiante. O julgamento de Seus inimigos deve ser seguido pelo assento d’Ele no lugar de poder e domínio. O julgamento é para abrir caminho para a glória. Consequentemente, a ressurreição do Senhor neste Evangelho se encerra mostrando-O a nós naquele lugar; e este é o único Evangelho que faz isso. Aqui somente ouvimos o Senhor ressuscitado usando estas palavras, ao falar com Seus apóstolos: “É-Me dado todo o poder no céu e na Terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado” (ACF).

Esta é a exaltação e senhorio do Jesus ressuscitado. A conversão das nações, e a reunião de toda a Terra, todo o mundo gentio, em obediência a Ele, é aqui assumida; e isto, também, como o fruto daquele apostolado que o Senhor já havia ordenado; um apostolado Judaico em seu caráter; pois é aos Seus Doze que Ele confia este ministério.

Esta, portanto, é uma reunião das nações ao Jesus ressuscitado, como o Senhor de Israel. E assim, neste último capítulo, o Senhor em ressurreição “retoma Suas relações Judaicas” e, por meio dessas relações, Sua conexão com toda a Terra.

Ele testemunha o senhorio universal como em Sua mão, poder tanto no céu quanto na Terra; e então Ele faz Sua reivindicação ao discipulado e obediência de todas as nações. Não temos nada do efeito da ressurreição sobre os lugares celestiais aqui, nada do mistério da família glorificada. É apenas Jesus exaltado, e exaltado como Messias; e, sobre isso, o discipulado de toda a Terra, no testemunho e ensino do apostolado Judaico. É o Senhor retornado à Terra, com a finalidade de formar um povo para Seu nome lá, e lá exibir Seu reino. A ascensão não é vista aqui. É apenas o Cristo ressuscitado, não o ascendido, que temos aqui; e, portanto, as mulheres podem abraçá-Lo e adorá-Lo, embora, no Evangelho de João, Maria não pode nem mesmo tocá-Lo (João 20:17); pois lá Ele estava a caminho do Pai. Sua ressurreição levou apenas à Sua ascensão lá; a Terra era apenas um palco para o céu. Aqui é o fim de Sua jornada gloriosa e triunfante.

Quão consistente é tudo isso com o propósito do Espírito de Deus em nosso evangelista! A inimizade e a incredulidade Judaicas ainda operam, e mantém essa condição de coisas, essa liderança das nações em Jesus, seu Messias, não realizada. Mas as promessas de todos os profetas que falaram em nome de Deus desde o princípio serão cumpridas; o monte da casa do Senhor será estabelecido, e todas as nações fluirão para ele; e os direitos de Jesus-Messias serão vindicados em poder soberano. As “bênçãos [misericórdias – JND] de Davi” são “fiéis [seguras – JND], asseguradas pela ressurreição que estamos contemplando (Atos 13:34); e Ele reaparecerá, e as reivindicará, e as desfrutará, e as exercerá, por toda a era eterna e milenar.

A Semente de Davi, toda fidelidade e verdade como Ele é, terá Seus direitos, e Seu povo, todos miseráveis e incrédulos como eles foram, e ainda são, serão feitos dispostos. Até agora, como está escrito sobre eles, eles “não quiseram”; mas, em breve, como está escrito novamente sobre eles, “o Teu povo se apresentará voluntariamente” (Mt 23:37; Sl 110:3). E então todas as promessas serão cumpridas.

Mas temos uma promessa ainda mais profunda e maravilhosa dessa bênção que será a porção de Israel e de Jerusalém nos dias vindouros da glória e do poder do Messias. E Mateus, em plena consistência com todo o seu Evangelho, é o único evangelista que nos dá isso.

Ele registra o seguinte grande fato nestes capítulos finais; que depois que o Senhor entregou Sua vida na cruz, “Abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição d’Ele, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos”.

Este foi um evento maravilhoso, tão significativo quanto maravilhoso.

Sepulcros foram abertos como fruto do triunfo da morte do Senhor; e então esses sepulcros abertos revelaram corpos de santos após Sua ressurreição; e então esses santos ressuscitados foram e se mostraram na cidade santa.

Que glória para Jesus! Que publicação da vitória plena de Sua morte! Se o véu do templo cedeu então, também o fizeram os túmulos dos santos. O céu se deleitou em reconhecer essa vitória, e o inferno foi forçado a reconhecê-la!

Mas se isso era glória para Jesus, que graça era isso para Jerusalém!

Uma mensagem especial foi enviada a Pedro, pelo anjo do mesmo Senhor ressuscitado: “Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia; ali O vereis”. E isso foi terno e atencioso; pois Pedro precisava de uma garantia especial da mão de seu Mestre negado. E assim uma garantia especial, muito especial e maravilhosa, em graça semelhante, é aqui dada a Jerusalém, quando essas primícias da ressurreição do Senhor, de Seu triunfo sobre o pecado e a morte, são assim levadas a ela.

E ela é chamada de “A Cidade Santa”. Ainda excelentes maravilhas da graça, de fato! Jerusalém toma da pena do nosso evangelista seu título de honra. Esta é a cidade sobre a qual, um ou dois dias atrás, o Senhor chorou, a cidade na qual (Ele havia testemunhado recentemente) um profeta não poderia perecer. Ele havia Se retirado dela, deixando-a em desolação culpada. Ele havia, algumas horas antes, sido crucificado ali; e por suas próprias ações, ela havia conquistado para si o título de Sodoma e Egito.

Apocalipse 11:8. Mas agora é “a Cidade Santa”. No conselho da graça e na linguagem do Espírito, Jerusalém é “A Cidade Santa”.

Que promessa da purificação daquela fonte que agora havia sido aberta, como os profetas falam, até mesmo para Jerusalém! Que penhor era este daquele dia quando o cativeiro de Sião será trazido de volta, e este discurso será usado na terra de Judá: “O SENHOR te abençoe, ó morada de justiça, ó monte de santidade!” (Jr 31:23).

A graça daquelas palavras, “Começando por Jerusalém,” tem sido comumente admirada, e apropriadamente; pois quando o Senhor ressuscitado estava enviando a todo o mundo as novas da salvação na remissão dos pecados, Ele queria que isso fosse primeiro declarado na cidade culpada, a sangrenta Jerusalém. Mas dificilmente precisamos nos surpreender com isso, já que temos diante de nós esta maravilhosa e gloriosa promessa de graça – as próprias primícias da triunfante ressurreição de nosso Senhor enviadas a Jerusalém como “a Cidade Santa”!

Mas todos os profetas nos falam dessa graça que abunda e da bênção final de Israel por meio dela.

A glória, em Ezequiel, tem que deixar a cidade no início, por causa das abominações que foram feitas lá; mas, no final, ela retorna. E agora, como vemos, a glória no Evangelho segundo Mateus faz exatamente o mesmo. Jesus é a glória. Ele deixa a cidade; mas Ele deixa sinais seguros e infalíveis de Seu retorno no devido tempo. Assim, Ezequiel e Mateus estão juntos; assim, Isaías e Mateus estão juntos. A esposa divorciada de Isaías se tornou, no devido tempo, uma alegre mãe de filhos. E aqui, em Mateus, ouvimos o mesmo. Jerusalém é deixada pelo Senhor, como alguém rejeitado e desolado, em Mateus 23; mas no final, em Mateus 28, seu apostolado de doze fará discípulos de todas as nações (veja Is 50 e 54). Que harmonias! Nos caminhos do Senhor está a continuidade, e Israel será salvo (Is 54:5).

A luz dos profetas se levanta e brilha novamente, depois de tanto tempo, nos evangelistas. A glória em Ezequiel, e Jesus em Mateus, fazem as mesmas jornadas; a Jerusalém de Isaías é a Jerusalém do nosso evangelista. Podemos não ter esperado isso, mas então encontramos. E enquanto ouvimos as vozes dos profetas e evangelistas, como em concerto, podemos nos lembrar dessas duas linhas felizes:

“No Velho Testamento, o Novo é ocultado,
No Novo Testamento, o Velho é revelado.”

As luzes de Deus que suavemente despontam
Nos primeiros livros divinos,
Como as horas da manhã conduzem ao meio-dia,
Brilham ao longo do Volume.
É o mesmo, o Sol brilhante,
Que brilha mais claro e quente;
As nuvens que velavam seu raio ascendente,
Dissipam-se antes que a noite acabe.

Tão consistente, bem como rica; tão imutável, bem como plena, é a graça de Deus em todos os Seus propósitos, e aqueles oráculos de Deus que registram esses propósitos. “Verdadeiramente, Tu és o Deus que Te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador” profere o profeta; e o Jesus do nosso evangelista é o Deus de Israel, assim Se escondendo, virando as costas para Jerusalém por um tempo, e dizendo, “não me vereis mais” (Is 45:15; Mt 23:39).

Tal, não duvido, é o sentido do nosso Evangelho em geral, e da parte final dele, que agora estive observando em particular.

Posso dizer que é uma lição muito completa, necessária e maravilhosa no caminho do nosso Deus que nos sentamos para ler neste Evangelho. A inimizade Judaica que observamos e rastreamos do começo ao fim. Ela provou ser incansável, implacável, fiel a si mesma, recusando-se a ceder a qualquer súplica ou a se render em quaisquer termos. Ela perseguiu o Senhor em Seu nascimento, ao longo de Sua vida, até Sua morte, em Seu túmulo, após Sua morte e, como nosso evangelista nos mostra ainda, “até ao dia de hoje”.

Ela O rejeitou em todas as formas em que Ele poderia Se apresentar. Ele foi repetidamente apresentado ao Seu Israel pelos seus próprios profetas, mas eles não O conheceram.

No curso de toda essa terrível exibição de incredulidade em Israel, o Espírito, por meio de nosso evangelista, aproveita a ocasião, por causa dessa inimizade, para olhar, por um momento, para o tratamento de Deus com os gentios (como vimos em Mateus 13); e então, por outro momento (como vimos em Mateus 17), para antecipar o reino em sua glória celestial; pois essas coisas são os resultados dessa inimizade, estabelecidos seguramente na graça e soberania divinas.

E então, no final, nosso evangelista é levado, pelo mesmo Espírito, a dar indícios do julgamento que virá sobre essa inimizade, e também daquela graça abundante que reunirá e abençoará Israel nos últimos dias do glorioso reino milenar.

Será que não posso, portanto, dizer que é uma Escritura completa e maravilhosa? Verdadeiramente maravilhoso é que tais tesouros de sabedoria e conhecimento sejam encontrados em um livro curto!

Mas é de Deus, e quem ensina como Ele? “Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor”. E tenho certeza de que “se esperarmos pacientemente no Senhor, todas as dificuldades da Escritura são entradas para a luz e a bênção”. Isso foi dito por outro, e acho que posso dizer, eu constatei isso ser assim, embora a espera n’Ele tenha sido fria e fraca. E o coração ainda se curva a outro dito: “Concepções espirituais deslumbram, iluminam e animam a mente, antes de guiá-la e contentá-la; e nunca podemos ensinar com o mesmo vigor, aquelas verdades que apenas vemos e desfrutamos, como podemos ensinar aquelas pelas quais somos guiados e controlados.”

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