Origem: Livro: Os Evangelistas

Uma Meditação sobre o Senhor Jesus Cristo, em Seus Vários Caracteres nos Quatro Evangelhos

Já passei o tempo de minhas meditações sobre os quatro evangelistas, notando o serviço diferente confiado a cada um deles pelo Espírito de Deus, ao nos apresentar o Senhor Jesus. A facilidade com que eles cumprem sua tarefa indica a inspiração sob a qual escreveram, e a consciência que tinham da verdade de tudo o que estavam registrando. É como a facilidade com que Aquele sobre Quem eles escreveram fez Suas obras e ensinou Suas lições, e essa facilidade, da mesma forma, revelava a presença daquela luz e poder divinos que O preenchiam. Mas, quer consideremos o Filho que foi o Ator em todas essas cenas benditas, ou o Espírito que é o Registrador delas, nossa alma pode muito bem ter certeza disto, que Deus Se aproximou muito de nós.

O Senhor Jesus esteve diante de nós de várias maneiras nestes Evangelhos. Nós O vemos Deus e Homem em uma Pessoa, e ainda sem confusão das naturezas, Um em glória eterna com o Pai e o Espírito Santo, e ainda, tão verdadeiramente, o Filho de Maria, nascido de uma mulher, Seu corpo formado no ventre da virgem. Nós O vemos o Filho no seio do Pai; o Verbo feito carne revelando Deus; o Filho de Deus, o Cristo, o Filho do Homem, o Filho de Davi, Jesus de Nazaré, o Servo, o Enviado, o Santificado, o Dado, o Selado, o Cordeiro; e então o Ressuscitado, o Ascendido, o Glorificado. Em tais títulos e caracteres lemos sobre Ele.

Ele é visto por nós também em variadas condições e circunstâncias. Muito diversificada, certamente, era Sua vida diária. Ele sempre foi um Estrangeiro, um Solitário; e ainda assim Alguém tão sempre acessível. Ele estava em contínuo confronto com os governantes; ensinando o povo; aconselhando, advertindo, iluminando os discípulos que O seguiam; em comunhão mais próxima com os Doze; ou tratando ainda mais de perto e vivamente com almas individuais. Ele conhecia os ânimos dos fariseus, saduceus e herodianos, e tinha palavras a seu tempo para cada um deles. Ele tinha que responder a todo tipo de pessoas, todo tipo de doenças para curar, todos os tipos de necessidade e enfermidade para aliviar; casos de todos os tipos faziam demandas sobre Ele continuamente, e, como dizemos, de forma inesperada. Toda a Sua vida estava sempre estendendo um convite ao mundo sobrecarregado e aflito ao Seu redor. Nessas diferentes conexões vemos o Senhor.

Às vezes, da mesma forma, Ele é desprezado e rejeitado, vigiado e odiado; retirando-Se, como que para salvar Sua vida das investidas do inimigo.

Às vezes Ele está fraco, seguido apenas pelos mais pobres do povo; cansado e faminto, atendido por algumas mulheres amorosas que sabiam que eram Suas devedoras.

Às vezes, Ele é, com toda gentileza, compassivo com as multidões ou fica em companhia com Seus discípulos.

Às vezes Ele está em força, fazendo maravilhas ou emitindo alguns raios de glória; os reinos da morte e os poderes dos mundos invisíveis estando sujeitos a Ele.

Dessa forma Ele está novamente diante de nós, conforme lemos os Evangelistas. “Aquele que desceu é também O mesmo que subiu”, certamente podemos dizer, neste sentido. Ele pedirá um copo de água da mão de uma estrangeira, porque está cansado do Seu caminho, embora transforme água em vinho para uso de outros. Ele pedirá um barco emprestado a um pescador quando o povo O pressionasse e O oprimisse. Ele Se fará passar por um viajante, que iria para mais longe, e não entraria, sem ser convidado, na morada de outros. E ainda assim, quando as ocasiões o exigissem, Ele reivindicaria um animal do seu possuidor, como tendo o título de Senhor sobre o animal; ou que se saiba que a destra do poder nas alturas era Seu assento, e as nuvens eram a Sua carruagem.

O mundo não conteria os livros que seriam escritos, se tudo fosse contado; mas o que é contado é contado para nossa bênção, para que possamos conhecê-Lo, viver por esse conhecimento, amá-Lo e confiar n’Ele.

Suas glórias são tríplices: pessoal, oficial e moral. Sua glória pessoal Ele velou, a não ser quando a fé a descobrisse, ou uma ocasião a exigisse. Sua glória oficial Ele velou da mesma forma. Ele não andou pela terra nem como o Filho divino no seio do Pai, nem como o Filho de Davi com a correspondente autoridade. Tais glórias eram comumente escondidas enquanto Ele passava pelas circunstâncias da vida diária. Mas Sua glória moral não podia ser escondida. Ele não podia ser menos que perfeito enquanto agia, ou enquanto era visto e ouvido. A glória moral pertencia a Ele – era Ele mesmo. Por causa de sua intensa excelência, ela era brilhante demais para os olhos do homem, e o homem estava sob constante exposição e repreensão por causa dela – mas ali ela brilhava, quer o homem pudesse suportá-la ou não. Agora ela ilumina cada página dos quatro Evangelistas, como uma vez iluminou cada caminho que Ele próprio trilhou nesta nossa Terra.

Mas além dessa glória moral que sempre brilhou n’Ele, nós O vemos indo de glória em glória ao longo de todo o caminho desde o ventre até aos céus. Nossos evangelistas nos capacitam assim a rastreá-Lo.

Em Seu nascimento, Ele surge na glória da Humanidade imaculada. Ele nasceu de uma mulher, nasceu no mundo. Ele era, no entanto, “o Ente Santo” (ARA). E assim, em Sua Pessoa, é vista a glória plena da natureza que Ele havia assumido.

Durante Sua infância e juventude, e todo o período de Sua sujeição aos Seus pais em Nazaré, era a glória da lei que Ele estava refletindo. Perfeito sob Moisés, Ele cresceu em graça (favor – JND) diante de Deus e dos homem. Moisés, em seus dias, trazia em seu rosto a glória da lei; mas ele a trazia apenas de forma oficial ou representativa (2 Co 3:7). Ele não podia refleti-la de forma essencial ou pessoal, pois ele mesmo não estava guardando-a. Ele não podia fazer isso. Como o mais fraco no acampamento, ele tremeu ao ouvi-la. Mas Jesus a guardou, e assim, pessoalmente ou essencialmente, Ele trazia o reflexo dela. Claro, refiro-me em espírito. Ele era a expressão viva da perfeição que a lei exigia.

No devido tempo, no entanto, Ele tem que deixar as solitudes de Nazaré. Ele é batizado; tomando o novo lugar para o qual a voz de Deus havia chamado Israel. Ele estava, assim, cumprindo toda a justiça; aquela exigida por alguém chamado de Deus, bem como aquela exigida por outro.

Aqui, no entanto, podemos permanecer por um momento, e notar algo peculiar. Ele Se retirou imediatamente de debaixo de João. Seu batismo foi mais acompanhado do que sucedido por Sua unção, por Sua ordenação (como podemos chamá-la), Sua comissão por parte do Pai, e capacitação pelo Espírito Santo; pois lemos: “E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que Se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre Ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”.

Isto é peculiar. Jesus não foi mantido um momento sequer sob o batismo de João. Ele não podia permanecer ali. Nenhum fruto de arrependimento poderia ser esperado d’Aquele que já havia sido perfeito sob a lei. Ele passou por este batismo porque Ele cumpriria toda a justiça; Ele não foi mantido sob ele, porque nenhum fruto desse batismo, nenhum “fruto digno de arrependimento” poderia ser exigido d’Ele. Quando Ele saiu da água, os céus se abriram sobre Ele, o Espírito desceu, e a voz disse: “Este é o Meu Filho amado, em quem me comprazo”. Esta foi a Sua glória, como posso dizer, sob João – verdadeiramente peculiar e perfeita em sua geração.

Então, como Ungido e Comissionado, Jesus surge em ação. Não é mais apenas Nazaré, mas toda a terra. E Ele surge para manifestar o caráter divino. O perfeitamente Obediente ainda, honrando a lei em cada jota e til, Seu negócio agora é manifestar o Pai e a bondade divina, em meio às misérias e necessidades de um mundo autodestruído. A glória da Imagem do Pai agora brilhava n’Ele, no ministério que Ele tinha vindo cumprir.

Não foi meramente como perfeito sob a lei que Ele Se mostrou ao mundo. Ele mesmo guardou a lei, mas não a apresentou a outros. Se Ele tivesse feito isso, Ele teria sido um legislador, como Moisés havia sido. Mas, enquanto a lei foi dada por Moisés, foi “a graça e a verdade” que vieram por Jesus Cristo. Em retiro em Nazaré, Ele trazia sobre Si a glória da lei; em público, em meio às ruínas do homem, Ele trazia a glória do Pai, manifestando o caráter divino em favor da necessidade e da miséria, embora ainda fosse o Obediente, e tão perfeito sob a lei como antes. Mas quem O via, via Aquele que O enviou. Tal era o vivo, o ativo e o ministrador Jesus.

Como o morto, o ressuscitado e o ascendido Jesus, nós O vemos em seguida. Por Sua morte, tudo o que poderia manter a justiça de Deus, enquanto Ele estava tornando o pecador justo, ou justificando-o, foi mantido. A cruz reflete as glórias reunidas de misericórdia e verdade, de justiça e paz. Glória a Deus, paz aos pecadores, é a linguagem dela. A plena glória moral brilha ali, enquanto Deus aceita e perdoa o mais vil. O véu do templo foi rasgado por ela, assim como foram os túmulos dos santos. É justo para Deus (fruto também, eu sei, de riquezas ilimitadas e eternas de graça) justificar o pecador que pleiteia a cruz. E assim, a glória de Deus agora brilha na face d’Aquele que estava morto e está vivo novamente – na face do Crucificado assentado à direita da Majestade nos céus.

Certamente, posso portanto dizer, é como de glória em glória que vemos o Senhor percorrendo todo o caminho, o maravilhoso e variado caminho, desde o ventre até aos céus. A glória da natureza humana brilhou em Sua Pessoa quando Ele nasceu da virgem; a glória da lei brilhou em Seu comportamento e maneiras enquanto Ele cresceu e viveu por trinta anos em solitude, ou em sujeição a Seus pais em Nazaré; a glória do Cumpridor de toda a justiça brilhou em Sua momentânea passagem pelo batismo de João; a glória do Pai brilhou em Seu ministério pelas cidades e vilas de Israel; e a glória de Deus agora brilha na “face de Jesus Cristo”, ressuscitado, ascendido e assentado nos céus, após Sua crucificação e morte.

E traçando assim Suas glórias do ventre aos céus, posso me lembrar do que alguém disse sobre Sua ascensão. “Na trasladação de Elias, os delineamentos da ascensão de Cristo aparecem, a ascensão d’Aquele que, não arrebatado em uma carruagem de fogo, nem necessitando da purificação daquele batismo de fogo, nem requerendo uma carruagem comissionada para carregá-Lo, porém, na calma muito mais sublime de Seu próprio poder interior, Se elevou da Terra e, com Seu corpo humano, passou para os lugares celestiais” (Trench’s Hulsean Lectures). Muito verdadeiro e belo.

Mas, além disso, os evangelistas nos dão amostras das glórias que O aguardam no dia vindouro de Seu poder. A transfiguração, a entrada em Jerusalém e o desejo dos gregos na festa nos mostram “o reino” em certos aspectos dele. Pois essas várias ocasiões colocam Suas glórias diante de nós por um momento. Os céus e a Terra, os lugares ao redor do trono no alto, Israel e sua Jerusalém, com todos os gentios desde os quatro ventos do céu, são vistos aqui entretendo-O adequadamente, de acordo com seus diferentes estados e capacidades.

Na transfiguração, nós O vemos aceito nos lugares celestiais, recebendo ali aquelas honras que tais lugares em suas mais elevadas esferas bem sabiam que pertenciam a Ele, e honras tais que somente esses lugares poderiam Lhe conferir. Ele é aqui glorificado com a glória do celestial. Suas vestes também são batizadas na luz celestial. Aqueles que pertencem a essas esferas saem para atendê-Lo. Moisés está de um lado, e Elias do outro; mas Jesus, como o Sol, está no centro ou fonte da glória a qual então os envolvia a todos.

Esta era Sua completude e honra no céu. Ele foi pessoalmente glorificado ali, e Seu séquito enchia o templo.

Ao entrar em Jerusalém, nós O vemos aceito em Israel, recebendo, da mesma forma, tais honras que Israel poderia conferir a Ele. O dono do jumento reconhece Sua reivindicação mais elevada como Senhor. A multidão, é verdade, não pode batizar Suas vestes em glória, como os céus antes fizeram, mas eles podem estender suas próprias vestes sob Seus pés, e cercá-Lo com as alegrias de uma festa de tabernáculos. Não há glorificados para esperá-Lo, para sair de suas casas de glória para saudá-Lo e honrá-Lo; mas Seus cidadãos O saudarão como seu Rei.

E os gregos, representantes das nações, estão prontos para esperar na festa, para esperar por Ele como o Senhor da festa – como Zacarias tanto antecipa quanto requer (Zc 8:20-23; 14:17). O Senhor recusou isso naquele momento, é verdade (Jo 12). Sua hora não havia chegado. Ele seria, por enquanto, a Semente sob o solo, em vez do Molho (ou Feixe – ARA) no dia da colheita. Tudo isso é assim; mas ainda assim, os gregos estavam prontos em seu lugar, como os céus estavam prontos no dia do Filho de Davi.

Mas tudo isso durou apenas um momento. Sabemos que, apesar dessa passageira exultação da multidão, eles e seus principais rapidamente O negaram; sim, e a inimizade das nações nos é mostrada na cruz, em companhia da incredulidade de Israel. Ainda assim, Suas glórias brilharam assim por esses pontos e essas ocasiões, para que pudéssemos reuni-las como penhor – fragmentos ou antecipações do que O aguarda no dia em que o céu e a Terra e toda a criação de Deus, em suas várias maneiras, falarão d’Ele e reconhecerão Sua presença em um mundo digno d’Ele. E que esperança seria, se tivéssemos um coração voltado para Ele, vê-Lo em um mundo que será digno d’Ele.

Mas não conhecemos essas glórias como deveríamos, e às quais as páginas dos Evangelistas nos apresentam. Acima de tudo, não usamos essa Imagem de Deus com aquela fé simples que ela requer. Temos nossos próprios pensamentos sobre Deus; e eles provam, mais ou menos, ser a perda e a tristeza de nossa alma. Mas o apóstolo pôde nos dizer o valor dessa Imagem. Ele pôde testemunhar como essa glória de Deus na face de Jesus Cristo surge no coração; como, antigamente, a Palavra que ordenou que a luz brilhasse das trevas surgiu na criação (2 Co 4:6). E deveríamos instruir nosso coração que não mais se ocupe com seus próprios pensamentos e devoções religiosas, mas que se ocupe com essa Imagem de Deus, e encontre nosso objeto e nosso descanso nela.

Qual é a obra do Espírito Santo nos apóstolos, seja falando aos pecadores por meio da pregação, ou ensinando os santos por meio de epístolas, senão a revelação do Jesus que os evangelistas, sob Sua direção, já nos deram? Certamente Jesus é tudo. “Cristo é tudo.” E por diferentes persuasões e argumentações somos desafiados a fazer d’Ele o nosso tudo. Nada é deixado para nossas próprias especulações – absolutamente nada.

Temos o próprio Deus revelado em nossa própria natureza, em nosso próprio mundo, em nossas próprias circunstâncias. Com razão reis e profetas desejaram tal privilégio. Mas eles não o tiveram. É nosso, e está além de todo preço. Não somos deixados para reunir nosso conhecimento de Deus a partir de descrições; nós vemos, ouvimos e aprendemos por nós mesmos, por meio da manifestação pessoal, Quem Ele é e o que Ele é. Sentamo-nos diante de Sua Imagem, Sua Semelhança, no Senhor Jesus. O evangelho é “o evangelho de Cristo, que é a imagem de Deus” (KJV). A Escritura, como posso dizer, permite que Deus Se revele por meio de Seus atos, e não adota o método de descrevê-Lo. Ele não confiou a revelação de Si mesmo à pena de uma descrição, ainda que inspirada. Ele graciosamente escolheu ser o Seu próprio Revelador, em ação viva e pessoal, por meio de Suas próprias palavras e feitos – a maneira mais simples e segura de Se tornar conhecido, a maneira pela qual o caminhante errará, e pela qual a criança não precisa se enganar em sua lição.

E, de acordo com isso, vemos o Senhor, durante Sua vida, em constante atividade. Pois há um profundo significado nessa atividade. Ele estava por meio dela sempre pressionando Deus ou o Pai sobre a atenção dos pecadores; e essa diligência constante em fazer e falar nos diz que Ele quer que aprendamos muito de Deus. Parece nos dizer que devemos nos familiarizar amplamente com Ele; em tudo aquilo, pelo menos, em que tal conhecimento é bom, doce e proveitoso, adequado a nós em nossas necessidades e para nossa bênção.

Não é por meio de tratados ou discursos, mas por meio de atividades pessoais em nossas próprias circunstâncias comuns, que O aprendemos; e, portanto, quanto mais simples formos, quanto mais nos comportarmos como crianças (que aprendem suas lições em vez de discuti-las), tanto mais certamente O encontraremos, O alcançaremos e O conheceremos.

A natureza divina foi encontrada em Sua Pessoa, o caráter divino em Sua vida. E isso nos dá interesse em cada passagem de Sua vida, por menor, mais ocasional ou comum que seja. Pois aquele que traça a vida e a morte de Jesus lê Deus, ou as características da glória moral divina.

E eu pergunto, amados: Será que esta imagem, esta glória, como resplandeceu no rosto de Jesus, causou alarme? Os pecadores tiveram que tratá-la como Israel tratou a glória que resplandecia na face de Moisés? Será que o pobre, aquele que fora convencido, precisava que o Senhor colocasse um véu em Seu rosto, como Arão e os filhos de Israel exigiram que Moisés fizesse? A samaritana foi convencida tão profunda e completamente como nunca o Sinai a teria convencido. Jesus tinha todos os segredos de sua consciência expostos. Mas ela se retirou? A pecadora no templo está diante de Jesus como alguém a quem a lei teria apedrejado. Mas ela se esconde? Ela acha aquela luz opressiva ou esmagadora, a luz que então enchia aquele lugar, e que havia esvaziado dele os seus acusadores?

E pergunto novamente: Os discípulos, que andavam com Ele todos os dias, tremiam diante d’Ele? Será que desejavam que Ele Se afastasse como se sentissem que Sua presença era demais para eles? Nada disso. Eles ficaram tristes quando Ele falou em deixá-los; e quando eles de fato O perderam, como julgaram, foram encontrados pelos anjos chorando. Eles nunca andaram com Ele como se desejassem que um véu estivesse em Seu rosto. E Suas repreensões não mudaram isso. Para seus espíritos, tais repreensões, embora fossem severas às vezes, jamais foram os trovões do Monte Sinai. Eles sentiram a santidade de Sua presença e ficaram envergonhados de revelar o segredo de seu coração; mas nunca desejaram Sua ausência. Que privilégio! Que consolo!

Podemos bem entender como é mais fácil receber alguém de distinção em nossa casa, do que ir visitá-lo em sua casa. Mas uma visita dele seria a maneira mais segura de nos preparar para fazer uma visita a ele, e vê-lo naquelas condições e circunstâncias que são propriamente dele, e superiores às nossas. E assim é entre o Senhor e nós. Quem pode descrever isso em sua bem-aventurança! Ele esteve aqui, no meio de nossas circunstâncias, como o Filho do Homem que veio comendo e bebendo, mostrando-Se na graciosa liberdade de Alguém que queria ganhar nossa confiança. Ele andou e falou conosco como um homem faria com seu amigo. Ele nos conheceu face a face. Ele estava em nossa casa. E, depois que Ele ressuscitou, Ele retornou para nós, se não para nossa casa, para o nosso mundo – pois as cenas da ressurreição todas aconteceram aqui. Ele estava então a caminho de Seu próprio lugar; mas novamente Ele demorou-Se no nosso, para que os laços entre nós pudessem ser fortalecidos. Pois então, depois que Ele ressuscitou, Ele era O mesmo para nós como Ele tinha sido antes. Mudança de condição não teve efeito sobre Ele – bendito é dizer isso. Exemplos semelhantes de graça e caráter, antes que Ele sofresse e depois que Ele ressuscitou, nos mostram isso abundantemente. Eventos recentes colocaram o Senhor e Seus discípulos a uma distância maior do que qualquer companheiro jamais conheceu. Eles haviam revelado seu coração infiel, abandonando-O e fugindo na hora de Sua fraqueza e perigo; enquanto Ele, por causa deles, passou pela morte, provando o juízo de Deus sobre o pecado. E eles ainda eram pobres galileus, e Ele foi glorificado com todo o poder no céu e na Terra. Mas tudo isso não operou nenhuma mudança n’Ele. “Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura”, como diz um apóstolo, poderia causar mudança n’Ele. E Ele retorna a eles, o mesmo Jesus que eles conheceram antes. Ele lhes mostrou Suas mãos e Seu lado, para que pudessem saber que era Ele mesmo. Não, podemos acrescentar, Ele lhes mostrou Seu coração, Seus pensamentos e Seus caminhos; Suas empatias, e consideração, e todas as Suas afeições; para que, em outro sentido, eles pudessem saber que era Ele mesmo.

Eu não cessaria de oferecer a evidência disto dos Evangelistas; ela é tão abundante, dirigindo-se a nós em todas as ocasiões em que vemos o Senhor em ressurreição, se apenas prestarmos a devida atenção. Mas se eu pudesse por um momento passar os limites dos Evangelistas, e olhar para o Jesus ascendido no Livro de Atos, lá encontramos a mesma identidade. Jesus aqui no ministério, Jesus em ressurreição, Jesus no céu, é o mesmo Jesus. Pois desde os céus Ele parece deleitar-Se em conhecer a Si mesmo pelo nome que Ele adquiriu entre nós e por nós, o nome que O torna nosso pelo vínculo de uma natureza comum, e pelo vínculo da graça e salvação consumadas. “Eu sou Jesus” foi Sua resposta como do lugar mais elevado no céu, quando Saulo, na estrada para Damasco, perguntou a Ele, “Quem és Tu, Senhor?” (ARA).

O que diremos, amados, das condescendências, da fidelidade, da grandeza, da simplicidade, da glória e da graça juntas, que formam e marcam Seu caminho diante de nós! Sabemos o que Ele é neste momento, e o que Ele será para sempre a partir do que Ele já tem sido, como O vemos nos quatro Evangelhos. E podemos passar para Seu mundo com toda facilidade e naturalidade, quando pensamos nisso.

“Não há estrangeiro – Deus te encontrará,
Estrangeiro, tu nas cortes celestiais.”

Ele é “o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente”, em Sua própria glória. Com Ele “não há mudança, nem sombra de variação”, de acordo com Sua natureza essencial e divina. Mas assim também em Seu conhecimento de nós, Seu relacionamento conosco, Suas afeições por nós e Seu caminho conosco.

Depois que Ele ressuscitou e retornou aos Seus discípulos, Ele nunca os lembrou de que fora abandonado por eles. Isso nos fala sobre Ele. “Não conheço ninguém”, alguém disse, “tão gentil, tão condescendente que tenha descido até aos pobres pecadores, como Ele. Confio em Seu amor mais do que em qualquer santo; não apenas em Seu poder como Deus, mas na ternura de Seu coração como Homem. Ninguém jamais demonstrou algo assim, ou teve algo assim, ou provou isso tão bem. Ninguém me inspirou tanta confiança. Que outros recorram aos santos ou anjos se quiserem, eu confio mais em Jesus.”

Mas este é apenas um raio da glória moral que resplandeceu n’Ele. Que visão é essa, se pudéssemos apenas contemplá-la em sua medida completa! Quem poderia ter concebido tal Objeto? Era necessário que fosse exibido antes que pudesse ser descrito. Mas tal era Jesus, que uma vez andou aqui na resplandecente plenitude dessa glória, e cujas reflexões foram deixadas pelo Espírito Santo nas páginas sagradas dos Evangelistas.

Que atratividade deve ter havido n’Ele para os olhos e os corações que foram abertos pelo Espírito! Isso nos é testemunhado nos apóstolos. Doutrinariamente, eles sabiam pouco sobre Ele, e quanto aos seus interesses mundanos, eles não ganharam nada permanecendo com Ele. E ainda assim eles se apegaram a Ele. Não se pode dizer que eles se valeram de Seu poder para fazer milagres. Na verdade, eles o questionaram em vez de usá-lo. E temos razão para julgar que, normalmente, Ele não teria exercido esse poder por eles. E ainda assim lá estavam eles com Ele; e por amor a Ele deixaram seu lugar e parentela na Terra.

Que influência Sua Pessoa deve ter exercido sobre as almas atraídas pelo Pai!

E essa influência, essa atratividade, eram igualmente sentidas por homens de temperamentos muito opostos. O lento de coração e raciocinador Tomé, e o ardente e impetuoso Pedro, eram mantidos juntos, perto e ao redor d’Ele.

Acaso não poderíamos refletir saudavelmente sobre essas amostras de Sua proximidade conosco e de Sua preciosidade para corações como o nosso; e aceitá-las também como garantias daquilo que ainda está reservado para todos nós, quando, reunidos de todos os climas, redimidos de todas as cores, caracteres e fases da família humana, estaremos com Ele para sempre?

Precisamos conhecê-Lo pessoalmente melhor do que O conhecemos. Era esse conhecimento que os apóstolos tinham d’Ele, naqueles dias dos Evangelhos – era a força e a autoridade de tal conhecimento que a alma deles sentia. E precisamos mais disso. Podemos estar ocupados em nos familiarizar com verdades sobre Ele, e podemos até progredir nesse caminho; mas com todo o nosso conhecimento, e toda a ignorância dos discípulos, essas coisas podem nos deixar muito para trás no poder de uma afeição dominante por Ele próprio. E não me recusarei a dizer que é bom quando o coração é atraído por Ele além do conhecimento que temos d’Ele (refiro-me ao conhecimento em uma forma doutrinária) pode explicar. Existem almas simples que exibem isso; mas, geralmente, é o contrário.

“A prerrogativa da nossa fé Cristã”, diz alguém (e suas palavras são boas e oportunas), “o segredo de sua força é este – que tudo o que ela tem, e tudo o que ela oferece, está depositado em uma Pessoa. Isso é o que a tornou forte, enquanto tudo o mais se mostrou fraco. Ela não tem apenas livramento, mas também um Libertador; não apenas redenção, mas também um Redentor. Isso é o que a torna luz do Sol, e tudo o mais, quando comparado a ela, parece como a luz da Lua; bela talvez, mas fria e ineficaz; enquanto aqui, a vida e a luz são uma só. E oh, quão grande é a diferença entre nos submetermos a um conjunto de regras, e nos lançarmos sobre um coração pulsante; entre aceitar um sistema, e nos apegarmos a uma Pessoa! Nossa bem-aventurança (e que não a percamos) é esta: que nossos tesouros são depositados em uma Pessoa, que não é um Mestre presente e um Senhor vivo para uma geração, e então para todas as gerações seguintes um Mestre passado e um Senhor morto, mas que está presente e vivo para todos.”

Sim, de fato – e Este sempre presente e vivo nos Evangelhos, é constantemente Ele mesmo visto ou ouvido. Ele é o Mestre ou o Fazedor em todas as ocasiões e os evangelistas têm pouco ou nada para eles em termos de explicação ou comentário. E isso dá às suas narrativas simplicidade e veracidade palpável, uma veracidade que pode ser sentida.

Mas, além disso, em Seus relacionamentos com o mundo que estava ao Seu redor, nós O vemos ao mesmo tempo um Conquistador, um Sofredor e um Benfeitor. Que glórias morais resplandecem em tal confluência! Ele venceu o mundo, recusando todas as suas atrações; Ele sofreu com ele, dando testemunho contra todo o seu curso; Ele trouxe bênção a ele, dispensando o fruto de Sua graça e poder incessantemente. Suas tentações apenas O tornaram um Conquistador – suas corrupções e inimizades um Sofredor – suas misérias apenas um Benfeitor! Que combinação!

Não é, porém, somente assim que vemos nosso Senhor Jesus nos Evangelhos. Temos Sua Pessoa, Suas virtudes e Seu ministério tanto ao ensinar quanto ao agir – mas sem Sua morte, tudo para nós seria nada.

No “lugar chamado Calvário” (ARA), ou seguindo para esse lugar desde o jardim do Getsêmani, vemos a grande crise (como certamente podemos chamá-la) onde todos estão engajados em seus respectivos papeis, e todos dispostos, respondidos ou satisfeitos, expostos ou revelados e glorificados, de acordo com o merecimento de cada um. Que lugar, que momento, apresentado a nós e registrado para nós por cada um dos evangelistas em sua maneira única.

O homem é visto ali, tomando seu lugar e fazendo sua parte, miserável e sem valor como ele é. Ele está ali em toda variedade de condições; no Judeu e no gentio; tão rude e tão culto; no lugar civil e no eclesiástico; como trazido para perto ou como deixado à distância; como privilegiado, quero dizer, ou como deixado a si mesmo. Mas, qualquer que seja essa variedade, todos estão expostos à sua vergonha.

O gentio Pilatos está lá, ocupando o assento da autoridade civil. Mas se procurarmos por justiça ali, é opressão que encontramos. Pilatos empunhou a espada não meramente em vão, mas para a punição daqueles que fizeram o bem. Ele condenou Aquele que ele reconhecia como “Justo”, e de Quem ele havia dito: “não acho n’Ele crime algum”; e os soldados que serviram sob seu comando compartilharam ou excederam sua iniquidade.

Os escribas e sacerdotes Judeus, a coisa eclesiástica daquela hora, buscam falso testemunho; e a multidão que os serve é uma com eles, e clama contra Aquele que havia estado ministrando às suas necessidades e tristezas.

Os que passavam, meros viajantes ao longo da estrada, homens deixados à distância, ou quanto a si mesmos, insultavam, desabafando ódio impotente, como tantos Simeis nos dias de Davi. E os discípulos, um povo trazido para perto e privilegiado, revelam a corrupção comum, e tomam parte nesta cena de vergonha para o homem, abandonando impiedosamente seu Senhor na hora do perigo, e justamente quando Ele havia procurado por alguns para ficar ao Seu lado.

Tudo é, portanto, indigno. Exposto a toda essa variedade, o homem é envergonhado como diante da criação; nessa crise, esse momento solene de pesá-lo e testá-lo, como pela última vez. A mulher com seu vaso de unguento não é exceção. Sua fé era da operação de Deus; e por mais belo que fosse o ato para ser lembrado por todo o mundo, é louvor de Deus, e somente d’Ele, por meio do Espírito.

Satanás, assim como os homens, se mostra nessa grande crise. Ele engana e então destrói. Ele faz de seu cativo sua vítima, destruindo pela própria armadilha pela qual ele havia tentado. A isca se torna o anzol, como sempre acontece em sua mão. O pecado que cometemos perde seu encanto no momento em que é realizado, e então se torna o bicho que não morre. O ouro e a prata são cancerosos, e sua ferrugem corrói a carne como se fosse fogo. As trinta moedas de prata fazem isso com Judas, o cativo e a vítima de Satanás.

Jesus está aqui em Suas virtudes e em Suas vitórias; virtudes em todos os relacionamentos e vitórias sobre tudo que estava em Seu caminho.

Que paciência em suportar Seus discípulos fracos e egoístas! Que dignidade e calma em responder a Seus adversários! Que consagração própria e entrega à vontade de Seu Pai! Essas eram Suas virtudes, enquanto O seguimos neste caminho, desde Seu assentar-se à mesa até Sua morte na cruz. E então Suas vitórias! O Cativo é o Conquistador, como a arca na terra dos filisteus. Ele veio para tirar o pecado e abolir a morte.

“Seu seja o nome do Vencedor
Que lutou a luta Sozinho.”

Deus está aqui, o próprio Deus, e nas alturas. Ele entra na cena, como poderia expressar, quando as trevas cobrem toda a terra. Essa era a Sua aceitação da oferta do Cordeiro que disse: “Eis aqui venho”. E tal oferta sendo aceita, Deus não mostraria misericórdia. Se Jesus é feito pecado por nós, é o juízo não abrandado, não mitigado que Ele precisa suportar. As trevas eram a expressão disso. Deus estava aceitando a oferta e tratando com a Vítima apropriadamente, não diminuindo em nada das exigências da justiça.

E então, quando a oferta foi consumada, e o sacrifício prestado, e Jesus entregou Sua vida, quando o sangue da Vítima fluiu, e tudo está consumado, Deus, por outra figura, reconhece a realização de tudo, a plenitude da expiação, e a perfeição da reconciliação. O véu do templo é rasgado de cima a baixo. Aquele que Se assenta no trono, que julga corretamente, e que pesa todas as reivindicações e suas respostas, o pecado e seu julgamento, a paz e seu preço e sua compra, dá aquele testemunho maravilhoso da profunda e indizível satisfação que Ele obteve no ato que foi então aperfeiçoado no “lugar chamado Calvário”.

Que parte para o próprio Deus bendito tomar nesta grande crise, nesta maior de todas as solenidades, quando tudo estava tomando seu lugar para a eternidade!

E mais ainda. Anjos também estão aqui, e o céu, a Terra e o inferno; pecado, também, e a morte, sim, e o mundo também.

Os anjos estão aqui, testemunhando essas coisas e aprendendo novas maravilhas. Cristo é visto por eles.

O céu, a Terra e o inferno estão aqui, esperando por este momento; rochas e sepulturas, o terremoto e as trevas do céu, anunciando isso.

O pecado e a morte são eliminados, tirados e destruídos; o véu rasgado e o sepulcro vazio publicam esses mistérios.

O mundo descobre seu julgamento quando a pedra selada é removida, e os guardiões dela são forçados a aceitar a sentença de morte em si mesmos.

Certamente podemos chamar isso de Grande Crise – o momento mais solene na história dos tratamentos de Deus com Suas criaturas. Maravilhosa reunião de atores e atuações; Deus e Jesus, homem e Satanás, anjos, céu, Terra e inferno, pecado e morte, e o mundo, todos ocupam seu lugar, seja de vergonha ou de derrota, ou de julgamento, de virtudes e de triunfos, de manifestações e de glória. Este é o registro de cada um dos evangelistas em suas várias maneiras, ou de acordo com seu próprio método, sob o Espírito. Nossas especulações não podem encontrar lugar. Temos apenas que receber as lições que eles nos ensinam, lições para uma eternidade esquadrinhada e bem compreendida.

E assim como olhei um pouco mais atentamente para a cruz, também olharei um pouco mais atentamente para o sepulcro vazio.

Morte vitoriosa, ou ressurreição dentre os mortos, é o grande segredo. Foi intimado na primeira promessa: pois a palavra à serpente em Gênesis 3 falou da morte de Cristo, e então de Sua vitória; isto é, de Sua vitória por ter morrido. O Ferido seria o Feridor.

O sacrifício de Abel, e todos os sacrifícios nos tempos patriarcais ou mosaicos, anunciavam a morte e a virtude na morte – morte vitoriosa, meritória e expiatória.

A fé de Abraão estava no mesmo mistério. Estava no Vivificador dos mortos. Era a fé padrão; pois ele é chamado de “pai de todos os que creem”.

Entre as muitas vozes dos profetas, o capítulo 53 de Isaías, aquela escritura bem conhecida, anuncia o mesmo mistério; pois fala das glórias do Ferido; e isso fala ou sugere uma morte vitoriosa.

O Senhor, em Seu ensino, antecipa Sua morte como o Vitorioso, falando às vezes de Sua ressurreição dos mortos e de Ele levantar ao terceiro dia o templo de Seu corpo (João 2).

A mulher que O ungiu para Seu sepultamento nos dá uma expressão de fé no mesmo mistério. Ela cria que Ele morreria e seria sepultado, mas que Ele passaria pela morte e pelo túmulo como um Conquistador, e por esse mesmo processo seria introduzido ao Seu ungimento ou Suas glórias. Ela entendeu o mistério da morte vitoriosa, ou da ressurreição dentre os mortos, o grande fato do qual o evangelho depende. Portanto, é isso que o Senhor diz dela, que onde quer que o evangelho fosse pregado, sua ação, sua fé, deveria ser lembrada. Ele fez disso uma fé padrão, como a de Abraão havia sido.

Então as epístolas, em sua época, revelam abundantemente esse mesmo mistério, interpretando a morte e ressurreição do Senhor Jesus como sendo o segredo do evangelho.

Assim, por toda parte, a morte vitoriosa de Jesus tem sido apresentada. Sem esse grande fato, não poderia haver a redenção – com ele, não poderia deixar de haver a redenção.

O pecado e Cristo se encontram, como posso expressar, nas planícies da morte. O pecado é o aguilhão da morte, ou o seu causador; Cristo é o Conquistador da morte ou seu Destruidor. Eles se encontram; e com certeza o resultado é a remoção do pecado, e a redenção de seu cativo.

A ressurreição dos mortos simplesmente, ou a sepultura devolvendo os mortos que estão nela, não seria vitória. Os mortos podem ser convocados de suas sepulturas, apenas para se sujeitarem ao julgamento; como acontecerá com aqueles não inscritos no livro da vida do Cordeiro. É a ressurreição dentre os mortos que é vitoriosa; e assegura a redenção, e este grande resultado, que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”; pois “o Senhor” é Jesus em ressurreição, o Purificador dos pecados e o Abolidor da morte (veja Romanos 10:13).

A ressurreição do Senhor Jesus é um grande fato. Quer ouçamos, quer deixemos de ouvir, lá está ela, e não pode ser contrariada. Nem podemos escapar de sua aplicação a nós mesmos. Ela tem a ver conosco, com cada um de nós, repito, quer queiramos ou não. Ela tem sua virtude diferente, sua dupla força e significado; e – cada um deve saber como ela se dirige a si mesmo. Ainda assim, lá está, e ninguém pode evitá-la. Jesus ressuscitado e glorificado está acima de nós e diante de nós, assim como o Sol se põe nos céus, e a criação de Deus tem a ver com isso.

E quem poderia arrancar o Sol do céu?

A glória se assentou na nuvem, enquanto Israel atravessava o deserto; e Israel deve saber que ela está lá, e tem que tratar com ela lá, estejam eles em que condição estiverem. Ela pode conduzi-los alegremente, se eles andarem obedientemente; ela os repreenderá e julgará, se não andarem. Mas lá está ela, como sobre eles e diante deles; e eles não podem escapar de sua aplicação a eles, e torno a dizer, estejam eles em que condição estiverem.

Então, novamente, profetas surgem de Deus entre o povo. Lá estão eles; e quer o povo ouça, quer se abstenha, eles saberão que profetas estiveram entre eles. Eles não podem negar o fato, ou escapar de sua aplicação.

E assim novamente. Cristo no mundo, nos dias de Sua carne, era um fato semelhante. Satanás tinha que saber disso como um fato, e como se aplicando a ele; e o homem teve sua bênção trazida a ele por isso, ou sua culpa e julgamento agravados. O reino de Deus havia chegado; e disso, e da força disso, eles tinham que se assegurar.

E exatamente de acordo com tudo isso está o grande fato presente da ressurreição. Jesus está ressuscitado e exaltado. Ele ascendeu e está glorificado. Podemos muito bem tentar arrancar o Sol do céu, como tentar escapar da aplicação deste grande fato à nossa condição. Ele fala de “juízo” e de “misericórdia”, quando olhamos para a cruz de Cristo com corações convictos e interessados, ou quando a desprezamos e a rejeitamos. Ela tem uma voz no ouvido de todos. Ela fala, quer os homens ouçam, quer se abstenham de ouvir. Há, no entanto, esta distinção a ser observada, e é séria – para desfrutá-la como a salvação de Deus, devemos, pessoalmente, vividamente, pela fé, ser trazidos em conexão com ela agora. Se a menosprezarmos todos os nossos dias, ela se conectará conosco em breve.

Isto, certamente posso dizer, é sério. Traz à mente Marcos 5. Apesar de Satanás, quer ele quisesse ou não, o Senhor Jesus Se coloca em conexão com ele na pessoa da pobre Legião de Gadara, a fim de julgá-lo e destruir sua obra. Mas Ele não Se coloca e a virtude que Ele carregava em Si em conexão com a pobre mulher doente na multidão, até que ela, pela fé, tenha trazido a si mesma e a sua necessidade a Ele.

Essa distinção tem uma verdade profundamente séria. Se nós, pela fé, não nos utilizarmos agora de um Jesus ressuscitado, e não obtivermos a virtude que está n’Ele, Ele nos visitará em breve com o juízo que então estará com Ele. Nenhuma súplica servirá naquele momento – nenhuma busca agora deixará de valer.

A consequência é bem ponderada. É inútil que o homem, ou o mundo, ou o deus e príncipe dele, resista a Cristo ressuscitado; isso se revelará apenas como recalcitrar (coicear) contra os aguilhões – autodestruição. É inútil que o pecador que confia no Cristo ressuscitado duvide, pois Deus já o justificou. A justiça de Deus é daquele que clama por redenção e resgate pelo sangue – a expiação de Jesus que glorifica a Deus. Sua morte foi a vindicação de Deus em plena e gloriosa justiça. Que Deus agora perdoe o mais vil – a cruz O autoriza a fazer isso, e ainda assim mantém Sua justiça e glória moral em toda a perfeição. Sim, é a justiça de Deus que aceita o pecador que clama pela cruz; pois assim como a cruz mantém a justiça de Deus, essa justiça é demonstrada ao tornar justo o pecador que a invoca.

E aqui posso acrescentar, somos ignorantes de Deus – não temos o conhecimento d’Ele, como o apóstolo fala (1 Co 15:34) – se não recebermos o fato ou doutrina da ressurreição. É por isso que Deus, em um mundo como este, Se mostra em Sua glória apropriada. O inimigo, por meio do pecado, trouxe a morte, e o Bendito é manifestado em vitória sobre ele – mas isso só é feito por aquela grande transação que tira o pecado e abole a morte. E a ressurreição é o testemunho disso.

Os discípulos estavam bastante descrentes quanto a esse grande fato, mesmo depois que ele aconteceu. Eles estavam, naquele momento, exibindo alguma afeição muito graciosa e sincera, mas estavam revelando total incredulidade quanto a esse fato. Mas isso é natural. Mais prontamente nos ocuparíamos em algo por Ele do que acreditar que Ele Se ocupou, lutou e conquistou, sofreu e triunfou por nós.

Com afeição sincera, as mulheres galileias visitaram o sepulcro. Com ousadia, José e Nicodemos reivindicaram o corpo. Era algo mais do que especiarias e unguentos que o embalsamavam – era amor e zelo, e seriedade e lágrimas. Madalena permanece junto ao túmulo, e Pedro e João correm até ele com pressa como que rival. Os dois na estrada para Emaús, enquanto falam de Jesus, estão tristes; e centelhas piedosas se acendem no coração deles, enquanto seu Companheiro de viagem faz d’Ele mesmo o assunto da conversa. Tudo isso era afeição graciosa; mas com tudo isso eles eram descrentes. Com essa ocupação de coração sobre Ele, eles não acolheram o grande fato de Sua vitória para eles.

O Senhor não está satisfeito com isso. Como poderia estar? Os pecadores devem conhecê-Lo na graça e força que os encontrou em sua necessidade. Os discípulos vêm ao sepulcro diligentemente e amorosamente, mas ainda assim isso não basta. Pela fé, devemos vê-Lo vindo a nós como em nosso sepulcro, e não pensar em ir até Ele em Seu sepulcro. Nós somos os mortos, e não Ele; Ele é o Vivo, e não nós. O Filho de Deus entrou nesta cena de ruína como um Redentor dos perdidos, e como um Vivificador dos mortos. É isso que devemos saber. Ele era terno, sabendo como apreciar a afeição; mas Ele repreendeu a incredulidade, e não ficou até que Ele levasse a luz deste grande mistério ao coração e consciência deles. “Adorando-O eles, tornaram com grande júbilo para Jerusalém” – assim, em espírito, como posso dizer, oferecendo sua oferta de manjares e sua oferta de libação, como ao trazer “o molho das primícias” do campo, no início da colheita (Lv 23:9-13).

Anjos, no entanto, estavam antes deles nisso. Eles aprenderam esse mistério; eles se alegraram nele; e à sua maneira o celebraram. E podemos, com conforto, quando pensamos nisso, dizer: Que interesse é tomado no céu nas coisas que são realizadas na Terra! Que intimidade dos anjos com os pecadores!

“Visto por anjos” é parte do “mistério da piedade”. O Cristo de Deus é o Objeto com anjos, enquanto Ele está percorrendo por Sua obra e caminho maravilhosos pelos pecadores! Quão bendito é isso.

Os “filhos de Deus”, os anjos, rejubilavam quando os fundamentos da Terra foram lançados; e o Livro do Apocalipse os mostra tomando seu lugar e participando da grande ação quando a carreira da Terra está se encerrando.

Eles se juntam à alegria que é conhecida no alto quando um pecador se arrepende pela primeira vez, e ministram a ele durante toda a sua jornada como um herdeiro da salvação. Podemos, portanto, dizer novamente: Que testemunhas interessadas são elas de tudo o que nos diz respeito (Hebreus 1:14)!

E o que eles estavam fazendo quando Jesus nasceu? E o que eles estavam fazendo quando Jesus morreu? Eles ainda estão presentes. Eles encheram as planícies de Belém no nascimento, eles se sentam no sepulcro vazio após a ressurreição. Isso não é intimidade?

Tem sido dito, e de forma bela: “Os anjos romperam as fronteiras naquela manhã”, quando apareceram em multidões, e com exultação, aos pastores. Verdade; mas eles sempre estiveram “rompendo fronteiras”, sempre deixando seu céu nativo para se interessarem pela Terra. Essa ação em Lucas 2 foi apenas um capítulo em sua história.

Certamente essa intimidade do céu com a Terra, esse interesse que as criaturas de Deus ali têm nos objetos de Sua graça aqui, nos fala das harmonias que estão destinadas a preencher toda a cena em breve. Deus é um Deus de ordem. As esferas que Ele forma e anima serão testemunhas dessas harmonias; e todas contarão da habilidade da mão que as dispôs, e do amor do seio que as uniu.

E, de fato, se tivesse me ocorrido antes, eu poderia ter acrescentado ainda mais quanto ao homem, que sua condição incorrigível e incurável está profunda e irrefutavelmente provada. O rompimento do véu deixa os escribas e sacerdotes tão endurecidos e perversos como sempre, e o rompimento do sepulcro deixa os soldados que o guardavam exatamente no mesmo estado em que os encontrou. Uns dão dinheiro, e os outros o recebem, para circular uma mentira diante desses fatos tremendos e assombrosos. E certamente podemos dizer, o coração que consegue recusar o temor, o arrependimento e o quebrantamento diante do convite de visitações como essas, de solenes feitos da mão de Deus como esses, precisa ser condenado diante de nós por estar irremediavelmente arruinado. Nada menos do que a palavra “perdido” é a que temos que inscrever sobre a alma humana.

Que momentos, posso dizer novamente, estamos contemplando assim no final de cada um dos Evangelhos! Podemos dizer isso, certamente. A obra consumada, no entanto, deu aos pecadores, perdidos de fato em si mesmos, os mais altos interesses em Deus, e isso para sempre. Ela nos deu um lugar na justiça de Deus, nos deu igualmente um lugar na família de Deus. Estamos em relacionamento, assim como em justiça. Somos filhos – adotados, bem como justificados. Pela cruz, Deus é revelado, assim como o homem é exposto. A condição de ruína moral total do homem foi vista no Calvário, e ali também é vista a gloriosa perfeição de Deus em bondade. O sangue encontrou a lança. O véu do templo foi rasgado em dois quando a vida de Jesus foi entregue – Jesus de Quem o homem havia dito: “Crucifica-o, crucifica-o”. Deus é revelado, assim como o homem é exposto; e a revelação é perfeita para Sua glória, assim como a exposição do homem foi perfeita para sua vergonha.

Na verdade, é nada menos que uma manifestação perfeita, brilhante e maravilhosa que a graça está fazendo de si mesma. A presença de Deus para com o pecador é restaurada em justiça. Ele coloca o pecador diante de Si mesmo de uma forma e caráter dignos do lugar. Mas não apenas justiça diante de Deus, mas, como dissemos, a adoção com o Pai também é nossa. E mais – aceitação no Amado, conformidade com a imagem do Filho, herança de todas as coisas com Ele, um corpo glorioso, e a casa do Pai, e o próprio trono de Cristo no mundo vindouro: todos estes são do pecador que pela fé entra no véu que a própria mão de Deus, por meio do sangue de Cristo, rasgou de cima a baixo. A graça, de fato, nos introduz a lugares ricos, assim como Deus está Se manifestando a Si mesmo. Mas para esses lugares ricos devemos fazer nossa passagem, cada um por si mesmo. Isso é uma coisa individual. Cada um de nós por si mesmo deve fazer essa jornada e passar da condição em que a natureza nos deixa para esses lugares ricos. Devemos, amados, ser individualizados diante d’Ele; depois, podemos conhecer nossos irmãos santos, reconhecer nossa aliança com eles, aprender nosso lugar em um corpo ou exercitar-nos e cumprir nossa parte e nossos deveres na congregação de Deus.

Uma lembrança necessária para a alma em todos os momentos – uma lembrança feliz e reconfortante para ela, em dias de confusão, ruptura e separação como o momento presente. Devemos ser individualizados diante de Deus.

Em outros dias, o povo de Deus esteve diante d’Ele em duas ocasiões muito solenes: na entrega da lei em Êxodo 19-20, e na consagração de Arão em Levítico 8-9.

Enquanto o Senhor estava entregando a lei dos Dez Mandamentos, Moisés levou o povo ao pé do monte, e os manteve lá até que as palavras terminassem. Enquanto Arão estava sendo colocado no cargo, e passou por seus serviços sacerdotais na presença de Deus, Moisés novamente levou o povo para fora, e os colocou na porta do tabernáculo até que a solenidade fosse cumprida.

Isso não era algo comum. Comumente o povo ouvia o que lhes dizia respeito, e era instruído em seus deveres, por meio de Moisés, ou por meio de Moisés e Arão. Mas nessas duas grandes ocasiões, a entrega da lei, e a instituição do sacerdócio, toda a congregação de Israel tinha que estar presente, para que cada um por si mesmo, ao ver e ouvir, pudesse testemunhar essas coisas, e conhecê-las.

Mas não só isso. Eles passaram por um exercício de alma adequado a cada ocasião. Eles não eram apenas espectadores, mas eram espectadores instruídos e comovidos.

No Sinai eles clamam e tremem. E foi assim que deveria ser. Moisés, como da parte do Senhor, aprova esse clamor e terror. Não podemos pensar adequadamente em Deus em juízo sem sermos como homens ouvindo uma sentença de morte sobre eles.

Na porta do tabernáculo, quando o fogo e a glória desceram do céu para atestar a suficiência dos serviços de Arão, e para prometer seus resultados, a congregação jubila, e todos se prostram sobre seus rostos, como adoradores e felizes. E isso, novamente, foi como deveria ser. Deus estava lá, não como um Legislador em meio aos terrores do julgamento, mas como um Salvador em meio às ricas provisões da graça. E não podemos receber Deus em graça e salvação sem uma resposta de gratidão e regozijo (pobre para alguns de nós, de fato, como sabemos) em nossos espíritos.

Assim era antigamente com Israel. Assim estavam todos, cada um por si mesmo, individualizados na presença divina nessas duas grandes e solenes ocasiões, e eles sentiam a autoridade de cada uma de acordo com sua diferente virtude. Estavam todos lá. O Deus vivo e cada alma individual estavam engajados lá, Deus com eles, e eles, cada um deles, com Deus. É bom marcar isso.

Quando um homem tem que ser convencido, ele próprio precisa estar na presença de Deus. Quando, como um pecador convicto, ele deseja ser aliviado e libertado, ele precisa estar novamente, na presença de Deus. Tais momentos devem ser intensamente pessoais. Devemos, cada um de nós, nascer de novo – nascer de novo (posso dizer?) para si mesmo – e passar, por meio do novo nascimento, para a luz e o reino de Deus. “Eu sei em Quem tenho crido”, diz alguém. “Estou crucificado com Cristo”, ele diz novamente; “e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o Qual me amou e Se entregou a Si mesmo por mim”.

Há, certamente, a percepção da possessão individual e pessoal de Cristo respirada em tais passagens. E isso deve ser nosso agora. Foi também a declaração em acentos mais fracos, se você preferir, de uma voz muito distante. “Eu sei que meu Redentor vive”, diz um patriarca; “e que por fim Se levantará sobre a Terra. E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus. Vê-Lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, O verão; e, por isso, o meu coração se consome dentro de mim”.

Certamente, amados, devemos buscar intimidade de coração com Ele. O primeiro dever, assim como o maior privilégio, sim, e a mais sublime ação de fé, é apenas tomar nosso lugar diante do Senhor, familiarizando-nos com Ele e estando em paz. Em vez de nos perguntarmos dolorosamente se estamos fazendo retornos adequados a Ele, devemos encarregar nosso coração de apreciá-Lo nessas maravilhosas manifestações de Si mesmo. Nosso primeiro dever para com a luz que brilha n’Ele é aprender o que Ele é – calmamente, agradecidamente e alegremente aprender isso; e não ansiosa e dolorosamente começar a nos medir por isso, ou buscando imitá-lo. Sua presença deve ser nosso lar; para que, num piscar de olhos, seja de manhã, ao meio-dia ou ao anoitecer, possamos entrar ali com facilidade e naturalidade, com uma entrada abundante; como alguém expressou anos atrás, “como aqueles que não têm nada a perder, mas tudo a ganhar”. Amém.

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