Origem: Livro: OS DIAS INICIAIS DO MOVIMENTO DOS ASSIM CHAMADOS “IRMÃOS”
Uma Nota por W. Scott
John Nelson Darby era o filho mais novo de John Darby, de Leap Castle, King’s County, Irlanda, e sobrinho do Almirante Sir Henry Darby, Comandante do Bellerophon na batalha do Nilo. Ele foi educado em Westminster e Trinity College, em Dublin, onde foi medalhista de ouro em 1819; e foi chamado para a Ordem dos Advogados da Irlanda, mas posteriormente foi ordenado na Igreja. Quando tinha cerca de 27 anos de idade (1827), deplorando os males e divisões na Cristandade, e descobrindo da Palavra de Deus a bendita e prática verdade de que “há um só corpo”, e que todo verdadeiro crente na Terra é um membro dele, e ainda, que a Escritura não reconhece nenhuma outra membresia, ele cortou sua conexão com a Igreja Nacional, e se reuniu com outros somente ao nome do Senhor Jesus Cristo (Mt 18:20). Foi um movimento, em seu início e progresso, em casa, nas colônias e no continente por muitos anos, distintamente marcado por Deus – um movimento ainda mais espiritual em caráter, se não de natureza tão pública, como sob Lutero no século XVI. O Sr. Darby foi, talvez, o escritor teológico mais fecundo do século XIX.
O que segue, da caneta de Francis Henry Newman, que declarou abertamente a infidelidade (irmão do falecido Cardeal Newman), pode ser lido com interesse. É intitulado:
“O CLÉRIGO IRLANDÊS”
“Este (John Nelson Darby) era um jovem parente dele, um homem notável, que rapidamente ganhou uma influência imensa sobre mim. Vou chamá-lo de ‘o clérigo irlandês’. Sua ‘presença corporal’ era de fato ‘fraca’. Uma bochecha caída, um olho injetado de sangue, membros aleijados apoiados em muletas, uma barba raramente feita, um terno surrado e uma pessoa negligenciada no geral, a princípio despertava compaixão, com admiração ao ver tal figura em uma sala de estar. Foi relatado que uma pessoa em Limerick lhe ofereceu meio centavo, confundindo-o com um mendigo; e se não for verdade, a história pelo menos foi bem inventada.
Esse jovem recebeu altas honras na Universidade de Dublin e estudou para a ordem (dos advogados), onde, sob o apoio financeiro de seu eminente parente, tinha excelentes perspectivas, mas sua consciência não lhe permitia atuar como advogado num processo judicial, sob pena de vender seus talentos em prejuízo da justiça. Com aguçados poderes lógicos, ele tinha simpatia calorosa, sólido julgamento de caráter, ternura atenciosa e total abandono de si mesmo.
Não demorou muito para que recebesse ordens sagradas e tornar-se um infatigável clérigo auxiliar nas montanhas de Wicklow (Irlanda). Todas as noites ele saía para ensinar nas cabanas, e vagando por montanhas e pântanos, raramente chegava em casa antes da meia-noite. Por tais esforços, sua força foi prejudicada, e ele sofreu tanto em seus membros que temia-se não apenas o mancar, mas sequelas ainda mais sérias. Ele não jejuava intencionalmente, mas suas longas caminhadas por regiões selvagens e entre pessoas necessitadas lhe impunham privações muito severas; além disso, como comia qualquer comida que lhe fosse oferecida (comida intragável e muitas vezes indigesta para ele), todo o seu corpo poderia ter competido em magreza com um monge da Abadia de La Trappe…
“Fiquei inicialmente ofendido por sua aparente presunção de um exterior descuidado, mas logo compreendi que de nenhuma outra maneira ele poderia obter igual acesso às ordens mais baixas, e que ele era movido, não por ascetismo, nem por ostentação, mas por um abandono próprio fecundo de consequências. Ele havia praticamente desistido de todas as leituras, exceto a Bíblia; e não pequena parte de seu movimento logo tomou a forma de dissuasão de todos os outros estudos voluntários. Na verdade, concentrei cada vez mais minha leitura religiosa neste único livro; ainda assim, não pude deixar de sentir o valor de uma mente culta. Contra isso meu novo amigo excêntrico (não gozando ele mesmo de meras vantagens por ser culto) dirigiu seus ataques mais perspicazes. Lembro-me de lhe dizer uma vez: ‘Desejar ser rico é absurdo, mas se eu fosse pai de filhos, gostaria de ser rico o suficiente para lhes garantir uma boa educação.’ Ele respondeu: ‘Se eu tivesse filhos, eu preferiria vê-los quebrando pedras na estrada do que qualquer outra coisa, se eu pudesse garantir-lhes o evangelho e a graça de Deus.’ Eu não sabia dizer amém, mas admirava sua consistência inabalável, pois agora, como sempre, tudo o que ele dizia era baseado em textos bem citados e logicamente aplicados. Ele me deixou cada vez mais envergonhado de economia política, filosofia moral e de toda ciência, todas as quais deveriam ser ‘consideradas como escória pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, nosso Senhor’. Pela primeira vez em minha vida, vi um homem transformar seriamente em realidade os princípios que outros professavam apenas com os lábios…
“Nunca antes eu tinha visto um homem tão decidido que nenhuma palavra do Novo Testamento deveria ser letra morta para ele. Uma vez eu disse: ‘Mas você realmente acha que nenhuma parte do Novo Testamento pode ter sido temporária em seu objetivo? Por exemplo — O que teríamos perdido se o apóstolo Paulo nunca tivesse escrito: ‘Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos’ (2 Tm 4:13)? Ele respondeu com a maior prontidão: “Eu teria perdido alguma coisa, pois foi exatamente esse versículo que sozinho me salvou de vender minha pequena biblioteca. Não! Cada palavra, depende dela, é do Espírito e é para serviço eterno.”…
“Apesar da forte repulsa que senti contra algumas das peculiaridades deste homem notável, pela primeira vez na minha vida me encontrei sob o domínio de um superior. Quando me lembro de como mesmo aqueles que ocuparam o lugar de pais de família se curvaram diante dele, mentes talentosas e experientes, deixo de questionar, em retrospectiva, porque ele me prendeu em tal escravidão.”
Tem sido a experiência da maioria dos homens postos em contato pessoal com o Sr. Darby, que a influência exercida sobre eles tem sido quase avassaladora. Seu maravilhoso poder em agarrar os princípios e traçar sua aplicação para seus resultados legítimos; sua piedade simples e inabalável, combinado com o mais maduro conhecimento e habilidade inigualável na exposição da Palavra de Deus, acompanhada de uma generosa apreciação do bom e excelente, fora da esfera eclesiástica em que se movia, o preparou para se tornar, como sem dúvida, um líder reconhecido na Igreja de Deus.
Os polêmicos escritos do Sr. Darby em inglês, francês e alemão são numerosos, cobrem um amplo campo de investigação e são caracterizados por um tratamento íntimo e acadêmico de seus respectivos assuntos.
O Sr. Darby era um argumentador perspicaz e capaz. Sua perspicácia crítica em detectar princípios onde outros, talvez, teriam tratado apenas de detalhes, era verdadeiramente maravilhosa. Esse caráter de mente o levou a perder de vista seu oponente em todos os assuntos controversos tratados e a evitar personalismos, a fim de apresentar o assunto em questão, de maneira ampla, completa e abrangente. A fraqueza de um argumento contrário logo se tornava aparente, e a verdade ficava mais firmemente estabelecida. A força dessa mente consagrada à defesa e manutenção do Cristianismo nunca foi exibida com mais força do que em sua obra “Examination of the Essays and Reviews” e em outros escritos de caráter semelhante.
Na vida privada, ele era gentil e gracioso e caracterizado por uma simplicidade que o tornava querido pelos jovens, e especialmente pelas crianças. Seus hábitos eram simples. Ele era um trabalhador e viajante incansável, e trazia em seu espírito e modos a marca distinta de um estranho aqui. Seu amor pessoal por Cristo era intenso. Mas não é preciso dizer mais nada. Seu registro está no alto.
W. Scott
