Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais
O Novo Cântico
Tudo é confusão e perturbação; mas tudo está amadurecendo aquele material rebelado e apóstata, por cujo julgamento o Senhor tomará o reino. “Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; Ele levantou a Sua voz e a Terra se derreteu”.
Como Conquistador, o Senhor tomará Seu reino em breve, ou entrará em Seu segundo sábado. Outrora, o sábado foi o descanso d’Aquele que havia trabalhado; mas o sábado vindouro será o descanso d’Aquele que lutou uma batalha e venceu. Este “repouso” que “resta ainda”, portanto, será adentrado por um caminho mais árduo e difícil do que o anterior; pois será adentrado por meio das aflições e conflitos que o pecado ocasionou, e por meio do julgamento da iniquidade.
O Senhor Deus outrora entrou em Seu descanso ou sábado como Criador. Ele havia completado a obra de seis dias e, no sétimo, descansou e foi revigorado[8].
[8] O Criador descansou: Suas obras estiveram acabadas desde a fundação do mundo (Hb 4); mas posso dizer que isso é tudo. Em outras manifestações de ação graciosa, Deus ainda não descansou. Como Pai, como Cristo, na Pessoa do Espírito Santo, e como Senhor de Israel e de toda a Terra, Deus ainda precisa alcançar o Seu descanso. O descanso é aquele que “resta ainda”, podemos dizer, tanto para Ele quanto para o Seu povo; pois Ele ainda opera com amor e poder, e eles ainda labutam contra o pecado, o mundo e o inimigo. Veja João 5:17; Ef 4. ↑
Sabemos que o sábado foi perturbado e perdido pelo pecado do homem; mas também sabemos de um sábado vindouro, “repouso” que “resta ainda”, como lemos.
Poderíamos perguntar, então: “Em que caráter será adentrado, ou por quem?” E toda a Escritura responde: “Por conquistadores”. Davi abrindo caminho para Salomão é uma figura disso. Salomão era o pacífico – um nome que não implica uma simples vindicação ou abstrato descanso, mas sim um descanso após um conflito ou guerra. Ele indica um descanso que vem de triunfo; algo mais do que a cessação do trabalho.
Assim, o Senhor entra no reino como “O SENHOR forte e poderoso, o SENHOR poderoso na guerra”; como alguém que acaba de obter a vitória, “com vestiduras tintas de escarlate” (veja Sl 24:8; Is 63:1 – AIBB; Ap 19).
Cristo como Conquistador é, no entanto, conhecido em diferentes cenas e épocas, e em diferentes formas e maneiras, antes de entrar no reino.
Assim que Ele entregou o espírito, a vitória de Sua morte foi reconhecida no céu, na Terra e no inferno; pois o véu do templo se rasgou em dois, as pedras se fenderam e os sepulcros foram abertos.
Ao entrar nos céus, Ele foi recebido e assentou-Se como Conquistador. Ele foi imediatamente reconhecido lá como recém-saído de Seu conflito e conquista aqui. Como Aquele que havia vencido, Ele assentou-Se com o Pai em Seu trono. Portanto, agora, em espírito, podemos cantar um novo cântico, ou um cântico de conquista.
Quando Seus santos se levantarem para encontrá-Lo, eles irão, cada um em sua própria pessoa, manifestar a Sua vitória – a vitória que Ele conquistou para eles. O brado deles ascendente e em resposta a proclamará: “Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 15).
Nessas diferentes épocas e formas, o triunfo de Cristo é celebrado antes de Sua entrada no reino. E que verdade animadora e bendita é esta: Jesus subiu ao alto como um Conquistador. Mas nunca, até que Jesus ascendeu, o céu conheceu um Conquistador. Posso dizer que um eco distante de Sua vitória havia chegado ali, quando o véu do templo se rasgou; mas o céu nunca havia sido o lugar de um conquistador até que o Senhor retornasse para lá. O Senhor Deus em Suas glórias esteve lá, o Senhor Deus como Criador e Governante também, e os anjos que se sobressaem em poder lá serviam. Alguns que não guardaram seu primeiro estado lá podem ter sido expulsos, e outros cantaram quando os fundamentos da Terra foram lançados; mas nunca a presença de um conquistador havia adornado e alegrado o céu até que Jesus ascendesse. Mas então foi assim. Ele havia destruído aquele que tinha o poder da morte; Ele havia levado cativo o cativeiro; Ele havia exposto publicamente os principados; Ele havia vencido o mundo; Ele, como o verdadeiro Sansão, havia carregado as portas inimigas até o cume do monte. As vestes mortuárias haviam sido deixadas no sepulcro vazio, como despojos de guerra e troféus de conquista.
E assim, como Conquistador, Jesus ascendeu. O céu já havia conhecido o Deus vivo, mas nunca antes o Deus vivo em vitória; e nossa ascensão após Ele, apenas proclamará, em outras palavras, o triunfo e será mais uma demonstração de uma hoste de conquistadores. Então, no fim, quando o reino for adentrado, ele será adentrado (como já dissemos) por um Conquistador após Seu dia de batalha e guerra de libertação das mãos dos inimigos. O reino assim erguido sobre a ruína do inimigo será inabalável.
Agora, de acordo com tudo isso, creio eu, é o “novo cântico” sobre o qual lemos na Escritura; pois os cânticos ali são cânticos de conquistadores, e são, por assim dizer, prenúncios do cântico do reino. Tal foi o de Moisés e da congregação às margens do Mar Vermelho; tal foi o de Débora; tais foram as declarações, se assim podemos chamar de cânticos, de Ana e de Maria; e tal será o cântico de Apocalipse 15 em seu devido tempo – os harpistas no céu, ali em vitória sobre a besta, e sobre sua imagem, e sobre sua marca, e sobre o número de seu nome.
Isso nos dá um “novo” tema para cantar ou alegrar-nos e, portanto, “o novo cântico”. O antigo cântico, cantado pelas estrelas da manhã sobre os fundamentos da Terra, não era um cântico de conquistador, um cântico que celebrava uma vitória divina, seja pela redenção ou pela vingança dos escolhidos de Deus. Não havia tema de vitória então, pois nenhuma batalha havia sido travada e vencida. Mas o pecado entrou desde então. Uma grande força contrária entrou em ação, e o Senhor teve que sair como “um Homem de guerra”, o Deus das batalhas; e, portanto, no final, um novo cântico, um cântico com um novo tema ou peso, deve ser despertado para celebrá-Lo nessa nova ação ou caráter de glória. O cântico de Moisés era um cântico de conquistador, e assim, era o cântico do Cordeiro. “Cantai ao SENHOR um cântico novo, porque Ele tem feito maravilhas; a Sua destra e o Seu braço santo Lhe alcançaram a vitória” (ARA). O cântico sobre a criação deve dar lugar, em amplitude e melodia, ao cântico sobre os triunfos de Jesus. A primeira “pedra de esquina” foi colocada pelo Criador, e os anjos cantaram (Jó 38:6); a segunda é trazida em vitória, e Israel exclama em brados de júbilo (Sl 118; Zc 4).
Que novas honras, podemos dizer com adoração e gratidão, estão sendo preparadas para Ele através de nossa história, e que novas alegrias para o céu! Pois Suas vitórias têm sido por nós, realizando, como observei, nossa libertação e justificação diante de nossos inimigos. A glória dessas vitórias é d’Ele, o fruto delas é nosso. Cristo não aparece como um Conquistador naquilo que Ele faz diante de Deus por nós, como nosso resgate, ou Resgatador pelo preço de Seu sangue. Em toda essa ação Ele sofre, em vez de conquistar; mas Ele é Conquistador contra o inimigo, redimindo-nos dele ou vingando-nos dele.
E é um pensamento jubiloso que o Senhor entrará em Seu reino vindouro como um Conquistador, tomando o trono de Salomão, o pacífico, após as guerras e vitórias de Davi. Mas esse gozo implica cenas de caráter tremendo. O triunfo, por si só, é uma ideia brilhante, mas está repleto de lembranças de campos de batalha e cenas de derramamento de sangue. E o mesmo acontece com o Senhor Jesus. O gozo de vê-Lo em triunfo e o poder de Seu reino é radiante e reconfortante, mas “o lagar” precisa primeiro ser “pisado”.
E ainda mais – embora isso seja solene – o pisar do lagar, ou a execução do julgamento divino, fala da corrupção anterior ou do amadurecimento da “videira da terra”. Se o Senhor, em juízo, tem que pisar o lagar, o lagar primeiro tem que estar cheio.
E onde estamos realmente situados neste momento? Não na possessão do reino inabalável; não à vista do triunfo que o anunciará, nem na audiência do novo cântico que há de acompanhar esse triunfo; não na visão do campo de Bozra e das vestes salpicadas de sangue, o dia do juízo divino que conduz ao triunfo; mas em certo estágio do amadurecimento da videira de Sodoma, que em breve será lançada no lagar, ou seja, enfrentará o juízo do Senhor.
Ali estamos, e o momento é solene. Cada dia, como o calor do verão, somente amadurece e prepara as uvas de fel ou os cachos de Gomorra. Nossas perspectivas são, portanto, estranhas, terríveis e gloriosas além da imaginação. Esperamos pelo aumento crescente do mal, pelo lagar da ira de Deus para recebê-lo e julgá-lo, e então pelo triunfo e pelo reino de Jesus. Por tais coisas, esperamos, até onde nossos olhos se voltam para a Terra; mas estamos “na encruzilhada, na entrada dos dois caminhos” (ARA). Enoque estava lá antes. Ele olhou para o caminho da Terra, e lá viu o amadurecimento da impiedade, e o Senhor com milhares de Seus santos vindo para executar o juízo; mas ele mesmo foi levado para cima, para o caminho dos céus (Judas 14; Hebreus 11:5). O novo cântico foi cantado por Jesus após Sua ressurreição (Salmo 40:3); ele será cantado pelos santos após sua ressurreição ou ascensão ao céu (Ap 5:9); e então será cantado por Israel no reino que é a sua ressurreição (Sl 98:1).
