Origem: Livro: Força que Vem de Deus

Orgulho e Excelência Moral – Ester 3

O Judeu, por mais estranho que pareça, como vimos, torna-se importante para o poder, ou seja, para o persa. Mas, mais do que eu já mencionei, o Judeu é importante tanto para a sua segurança quanto para o seu bem-estar. Afinal Mardoqueu torna-se seu protetor, assim como Ester se tornou sua esposa. Vemos isso no final de Ester 2. O rei é devedor de ambos. Apesar de toda a sua grandeza e de todos os recursos de felicidade e força que a acompanham, ele é devedor dos dispersos de Judá. Eles são importantes para ele. Tanto o seu coração quanto a sua mente, por assim dizer, precisam reconhecer isso.

Mas, se o Judeu é assim estranhamente trazido à condição de pessoa favorecida e aceita, com igual estranheza o inimigo do Judeu é elevado a uma posição alta e honrosa, e colocado exatamente no cargo que lhe permitia satisfazer toda a sua inimizade. Um amalequita ocupa o segundo lugar em dignidade e poder, logo abaixo do rei.

Acima de todos os príncipes da nação, Hamã, o agagita, era o preferido; o motivo, não nos é dito. Nenhuma virtude ou serviço público é registrado a seu respeito. Aparentemente, foi simplesmente o beneplácito real que motivou isso. Ele era um estranho para a nação – um estranho distante; além disso, alguém de uma raça agora quase esquecida; poderíamos dizer, outrora distinta nos primórdios das nações, mas agora praticamente apagada das páginas da história, suplantada por outros muito mais nobres em sua postura do que ele jamais fora. Primeiro o assírio, depois o caldeu e agora o persa. E, no entanto, lá está ele diante de nós, um amalequita sentado ao lado de Assuero, o persa; em dignidade, cargo e poder, Hamã só é inferior a ele.

Reaparecimento repentino 

É realmente estranho, podemos dizer. O grande inimigo de Israel, quando Israel estava no deserto, reaparece aqui com o mesmo caráter, neste dia em que Israel está disperso (veja Êxodo 17). É estranho, um amalequita encontrado tão próximo do trono da Pérsia! O coração do grande monarca daquela época se voltou para ele, colocando-o em condições de agir como o antigo amalequita, desafiando a Deus e demonstrando inimizade contra o Seu povo. Não poderíamos ter esperado tal coisa. O nome Amaleque deveria ser apagado de debaixo dos céus; e, desde os dias de Davi até agora, posso dizer, esse povo não havia sido visto. Mas agora eles reaparecem, mal sabemos como, e logo florescem e se fortalecem, como em um tempo de glória.

Isso, repito, é realmente estranho. Trata-se de alguém em quase ressurreição; de alguém cuja ferida mortal foi curada; de alguém “que era e já não é, mas que virá”.

Presságios da besta 

O agagita se apresenta agora como representante do grande inimigo: o apóstata orgulhoso que resiste a Deus, ao Seu povo e aos Seus propósitos. Sempre houve um assim em cada época; e ele é o prenúncio daquele poderoso apóstata que há de cair no dia do Senhor. Ninrode, nos dias de Gênesis, o representa; Faraó, no Egito; Amaleque, no deserto; Abimeleque, no tempo dos juízes; e Absalão, no tempo dos reis; Hamã, aqui, no dia da dispersão; e Herodes, no Novo Testamento.

Exaltação do “eu”, orgulho incrédulo e desafio ao temor a Deus, com arraigada inimizade contra o Seu povo, são algumas, ou todas, as marcas em cada um deles. Assim como em uma forma plena de apostasia ousada e terrível, tal se manifestará na pessoa da besta que, com seus confederados, cairá na presença do Cavaleiro do cavalo branco, no dia do Senhor, ou no julgamento dos vivos. Profetas falaram de alguém como o rei que “fará segundo a sua vontade”; como a “estrela da manhã (Lúcifer – JND), filho da alva!”; como “o príncipe de Tiro”, podemos dizer; como o insensato que diz em seu coração: “Não há Deus”, e outros. E o Apocalipse do apóstolo nos mostra esse alguém na figura de uma besta cuja imagem foi erguida para adoração e admiração de todo o mundo, e sua marca como um sinal na testa de cada homem; cuja ferida mortal foi curada; que era, e já não é, mas que virá.

Além disso, podemos notar que o propósito, assim como a pessoa do grande adversário, se manifesta neste grande Hamã. Ele precisa ter o sangue de todos os Judeus. Seu coração não se satisfará com a vida daquele que se recusou a lhe prestar reverência. Ele precisa da vida de toda a nação. Ele exala o espírito do inimigo de Israel, que em breve dirá: “Vinde, e desarraiguemo-los para que não sejam nação, nem haja mais memória do nome de Israel” (Salmo 83). O amalequita e seu grupo lançaram a sorte, o Pur, apenas para determinar o dia em que esse ato de extermínio seria cometido. Mas, como sabemos, a sorte pode ser lançada “no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (Pv 16:33). E assim foi aqui. Onze longos meses, do décimo terceiro dia do primeiro mês ao décimo terceiro dia do décimo segundo mês – isto é, do dia em que a sorte foi lançada ao dia em que a sorte decidiu que o massacre da nação deveria ocorrer – são dados para que Deus amadureça os Seus propósitos tanto para com o Seu povo quanto para com os seus adversários.

Isso ressoa em nossos ouvidos com uma voz clara e forte. Não há fala nem linguagem, mas a voz é ouvida. Deus nem sequer é nomeado; mas é obra de Suas mãos e desígnio do Seu seio.

O decreto 

Hamã não encontra resistência por parte do rei, seu senhor. Ele diz ao rei que há um povo disperso por seus domínios, que não lhe convém deixar viver, pois seus costumes são diferentes dos de todos os outros povos – o segredo da inimizade do mundo naquela época e ainda hoje (veja Atos 16:20-21). O decreto, segundo o desejo de Hamã, sai de Susã, o palácio, e se espalha com toda a pressa por todas as partes do mundo: o domínio do grande “peito de prata” persa. Toda a nação, como consequência disso, recebe sobre si a sentença de morte. O decreto teria alcançado tanto os cativos que retornaram quanto os dispersos. Judeia era apenas uma província do poder persa naquela época. Mas eles precisam aprender a confiar n’Aquele que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem e que age neste mundo em poder de ressurreição. O remanescente de Israel deve aprender a trilhar os passos da fé de seu pai Abraão. É a fé que precisa ser exercitada; Pois o Senhor não Se revelará por um tempo, embora pense neles e os proteja sem Se manifestar.

Mardoqueu surge agora como o representante desse remanescente, o possuidor dessa fé semelhante à de Abraão nesta hora terrível.

A piedade deste homem querido e honrado começa a se manifestar em sua recusa em reverenciar o amalequita. O dever comum de adorar somente o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, teria proibido isso. E será que um Judeu se curvaria diante de alguém daquela raça com quem o Deus dos Judeus já havia declarado guerra para todo o sempre? – curvar-se diante de alguém que, em vez de se curvar ao Senhor do céu e da Terra, se apresentou para insultar Sua presença e Sua majestade, sim, e para exterminar Seu povo diante de Sua face? Mardoqueu colocará sua vida em risco com essa recusa. Mas que assim seja. Ele está na mente de seus irmãos Sadraque, Mesaque e Abednego, que disseram a um Hamã anterior: “Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a Quem nós servimos, é que nos pode livrar; Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste”.

Isso é verdadeiramente belo em sua origem, mas ainda mais belo em suas conexões. Pois a combinação constitui a excelência do caráter. Devemos nos portar “varonilmente [como homens – JND], e ainda assim que “todas as vossas coisas sejam feitas com amor”. N’Ele, em Quem estava toda glória moral, como ouvimos de outros, não havia “nada saliente” – tudo tão perfeitamente combinado. E em Mardoqueu vemos isso. Vemos “bondade” e, com ela, “justiça”. Ele era gracioso e terno, criando sua prima órfã como se fosse sua própria filha. Mas agora ele é fiel e inflexível. Ele se comportará como um homem agora, mesmo que antes tenha feito todas as coisas com amor. Ele não se curvará nem prestará reverência ao comando do rei, embora sua vida possa ser o preço.

Compartilhar
Rolar para cima