Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais

O Pai

João 14-17

“Eu lhes fiz conhecer o Teu nome, e lho farei conhecer mais”. Estas palavras foram ditas ao Pai por Cristo a respeito dos santos. Elas nos dizem que a grande tarefa do Senhor era familiarizar os santos com o Pai, que essa já havia sido a Sua tarefa, e que Ele pretendia que essa fosse ainda a Sua tarefa.

Isto é cheio de bênçãos. Pensar que nossa alma está sob tal instrução! O Filho nutrindo e ampliando em nós a percepção e o entendimento do amor do Pai, e usando Sua diligência para dar ao nosso coração esse gozo e para dá-lo a nós com mais abundância! Podemos ser lentos, e somos lentos, para aprendê-la. Naturalmente suspeitamos de todos os pensamentos felizes de Deus. Cristo precisa usar de diligência e empregar energia para nos ensinar tal lição. “Eu lhes fiz conhecer o Teu nome, e lho farei conhecer mais”. Mas assim é. Esta é a lição da qual Ele é o Mestre, e nossa incapacidade de aprendê-la magnifica Sua graça, pois Ele ainda está nisso, ainda ensinando a mesma lição.

Os capítulos anteriores (João 14-16) nos mostram Cristo declarando o Pai. Eles iniciam com Ele nos dizendo que o Pai abriu a Sua própria casa para nós – não apenas isso, mas que Ele a construiu com referência direta a nós, tendo-a feito uma casa com muitas moradas para nossa recepção (João 14:2).

Ele então, com algum ressentimento pela incredulidade deles, diz-lhes que o Pai já estava Se revelando a eles. “Estou há tanto tempo convosco, e não Me tendes conhecido, Filipe?[5] Quem Me vê a Mim vê o Pai”. Porque as coisas que Ele havia dito e feito, Ele havia dito e feito como Filho do Pai, como Aquele que estava no Pai e em Quem também o Pai estava (João 14:5-14).
[5] A repreensão do Senhor a Filipe não tem aplicação tão direta à incredulidade de Filipe no que diz respeito à Pessoa do Filho, como à sua incredulidade com respeito à revelação do Pai que havia sido feita pelo Filho: a outra está envolvida.

Pois isso era incredulidade natural, a indisposição para aprender a lição do Pai de que falei; e é feliz encontrá-la aqui repreendida pelo Senhor. De fato, é somente a fé que pode se assentar como discípula de Cristo – aquele princípio que apenas escuta. O senso moral do homem se exclui a si mesmo dessa escola.

Jesus, porém, prossegue com a lição apesar dessa lentidão. Ele lhes conta, após essa interrupção, como Ele Se propusera, quando estivesse ausente, a glorificar o Pai nas obras e na experiência deles (João 14:12-14); e então lhes diz que o Consolador, o Espírito de verdade, o Espírito Santo, que estava prestes a vir a eles, viria como o Espírito do Pai, fazendo-os saber que não eram órfãos, mas tinham a vida do Filho neles (João 14:16-20); e novamente Ele diz a eles que a observância de Sua Palavra asseguraria à alma deles a presença e a comunhão do Pai, bem como a Sua, porque a palavra não era Sua, mas do Pai que O havia enviado (João 14:21-24). Essa palavra ou mandamento, que deveria ser guardado para que essa comunhão fosse assegurada à alma, era sobre amor; porque era a palavra trazida pelo Filho do Pai, e não uma palavra trazida de um rei, ou de um juiz, ou de um legislador (veja João 13:34; 15:12, 17).

Em todas essas maneiras verdadeiramente benditas, Ele declara o Pai a nós e usa a Si mesmo apenas como Testemunha ou Servo de tal revelação. Sua própria glória pessoal está implícita em tal serviço; porém esse não é o Seu objeto, mas a declaração do Pai é. E assim também, ao prosseguir neste discurso maravilhoso, Ele declara que o Pai é o Lavrador da videira, deixando-nos saber que o fruto buscado é fruto digno da mão de um Pai, fruto que os filhos, não servos ou súditos, precisam produzir (João 15:1-14). E, novamente, a amizade que Ele lhes apresenta a Si mesmo diz respeito ao Pai, porque eram os segredos do Pai que Ele lhes comunicava na confiança da amizade (João 15:15). E então, no final do mesmo capítulo, Ele apresenta o mundo simplesmente no caráter de ter odiado o Pai, testemunhado no Filho e por meio d’Ele (João 15:23-24).

Como tudo isso confirma a palavra: “Eu lhes fiz conhecer o Teu nome”! Mas, além disso: Ele antecipa o dia do Espírito Santo; mas Ele faz isso em constante lembrança e menção do Pai. O Espírito era o Espírito do Pai, dado por Ele, enviado por Ele (João 14:16, 26; 15:26); e quando Ele veio, seu divino Mestre agora lhes diz que deveriam pedir ao Pai e receber d’Ele, para que este seu gozo como filhos que conhecem o amor e a bênção do Pai fosse completa (João 16:23-24).[6] E Ele ainda lhes diz que naquele dia eles conheceriam claramente sua adoção, ou seu lugar com o Pai (João 15:25).
[6] Não é a coisa recebida que torna seu gozo completo, mas a prova que recebem de que eles têm para si mesmos o coração e os ouvidos do Pai. O Pai, e não o dom, faz isso por eles, completando o gozo deles. Veja João 16:24.

E um pouco além de tudo isso, e como que coroando tudo o que Ele havia dito, Ele lhes diz que Suas orações por eles no céu não deveriam ser entendidas como se eles e o Pai estivessem distantes um do outro, mas que eles deveriam se assegurar de que o amor do Pai repousava imediatamente sobre eles, como no pleno poder do relacionamento que Ele tinha com eles (João 16:26-27).

Assim, era o nome do Pai que Ele lhes declarava ao longo desses maravilhosos capítulos, trazendo o Pai aos pensamentos e regozijos do coração deles. E se o amor e o céu forem valorizados por nós, que comunicações tão bem-vindas serão essas!

Assim, no capítulo final (17), podemos dizer: Nenhuma notícia nossa retorna a Deus de forma tão aceitável como esta: que, pela fé, recebemos estas notícias do Pai. O Filho nos trouxe uma mensagem de amor vinda do seio do Pai, e se Ele agora relatar ao Pai que nós recebemos a mensagem, esta será a resposta mais preciosa junto ao Pai. E tal recebimento desta palavra sobre o Pai também será a nossa mais verdadeira santificação ou separação do mundo, pois o mundo é aquele que se recusa a conhecer o Pai.

Eu poderia expressar isso mais brevemente assim. Em João 14-16, o Senhor propõe colocar nossa alma em comunhão com o Pai. Ele enche a alma com pensamentos sobre o Pai; lembranças, presentes exercícios espirituais e perspectivas são todos conectados por Ele ao Pai. Ele nos diz que é a casa do Pai que nos receberá em breve; foi o Pai Quem esteve operando e falando n’Ele, de modo que o que Ele disse e fez foram as palavras e ações do Pai; que eles logo fariam obras maiores do que Ele havia feito, pois Ele estava indo para o Pai; que o Consolador lhes seria enviado pelo Pai; que sua frutificação surgiria do Pai ser o Lavrador; que o mundo os odiaria, porque não conheceu o Pai nem a Ele; que o próprio Pai os amava, e que eles logo entrariam no senso de seu relacionamento com Ele.

Se o Espírito de verdade, o Consolador, nos fizer perceber essas coisas, podemos selar essa palavra: “vos convém que Eu vá”. Assim, posso dizer, o propósito do Senhor em João 13 é colocar nossa alma em comunhão com Ele mesmo no céu. Ele nos mostra a Si mesmo no céu, como o próprio lar do amor e da glória, porque Ele seria restaurado ao Pai ali, e ter todas as coisas colocadas em Suas mãos por Deus ali; e dessa maneira Ele antecipa o céu como o lar do amor e da glória para Ele.

Mas então Ele nos faz saber que ali Ele permaneceria em Seu amor por nós e em Seu serviço às nossas necessidades – que, embora ali, Ele jamais poderia nos abandonar, nem abandonar nossa necessidade. Assim, Ele busca nos colocar em comunhão com Ele, assim como está agora no céu, assim como depois (em João 14-16), Ele busca nos colocar, como tenho observado, em comunhão com o Pai.

Que esse bendito senso de relacionamento preencha e satisfaça nossa alma mais abundantemente!

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