Origem: Livro: O Nome Sobre Todo Nome
Parte 4 – Como Unguento Derramado é o Teu Nome
“Como unguento derramado é o Teu nome” (Ct 1:3)
Nesta linguagem é retratada a preciosidade de Cristo (como o Noivo) para a noiva. Isso será imediatamente percebido se o contexto for examinado. “Beije-me Ele”, clama a noiva, “com os beijos de Sua boca; pois, [e agora dirigindo-se diretamente a Ele] Teu amor é melhor do que vinho” (Ct 1:2). Não é tanto o amor em si, mas o gozo do amor, do qual ela fala, e é isso que é “melhor do que o vinho”. Todo coração renovado responderá a essa declaração, pois, embora o amor de Cristo esteja sempre além de todos os nossos pensamentos, infinito e indizível, é apenas à medida que o desfrutamos que, em qualquer medida, entramos nele ou o apreciamos. Mas quando o coração se expande no poder do Espírito para suas influências e constrangimentos benditos, quando ele se abre sem impedir o fluxo de suas poderosas marés, então a alma aprende experimentalmente o caráter maravilhoso do amor de Cristo que excede o entendimento. Outra coisa é igualmente verdadeira; quanto mais provamos do amor de Cristo, mais desejamos dele. Cada experiência gera um anseio ardente por uma medida maior. Assim, se a noiva não conhecesse anteriormente algo do afeto do noivo, ela nunca teria expressado esse desejo apaixonado.
Além disso, é por meio do coração que todo o conhecimento divino é recebido, e, assim, como aqui, a noiva passa da expressão de sua estimativa do gozo do amor do noivo, para uma declaração do efeito de suas excelências e perfeições. O coração dela apreende, por meio do gozo do amor do noivo, o cheiro dos seus “bons unguentos”. Ainda assim, pode-se observar, o que alguém disse, que “por mais fortes que sejam as afeições da noiva, elas não se expandem de acordo com a posição em que as afeições Cristãs, propriamente ditas, são formadas. Elas diferem a esse respeito. Tais afeições não possuem o profundo repouso e doçura de uma afeição que flui de uma relação já formada, conhecida e plenamente apreciada, cujos laços são formados e reconhecidos, que conta com o pleno e constante reconhecimento do relacionamento, e que cada parte desfruta, como uma coisa certa, no coração da outra. O desejo de alguém que ama e está buscando as afeições do objeto amado, não é a afeição doce, completa e estabelecida da esposa, com quem o casamento formou uma união indissolúvel. Para o primeiro caso, o relacionamento é apenas em desejo, a consequência do estado do coração; para o segundo, o estado do coração é a consequência do relacionamento”.
A distinção deve ser bem ponderada e apreendida, pois contém a chave para a interpretação do “Cântico dos cânticos”. Mas ainda é verdade, seja no coração da noiva ou no do Cristão, que o amor é o meio, a capacidade para o conhecimento divino, que, em uma palavra, aquele que mais ama mais sabe. Veja 1 Co 8:1-3; Ef 1:18 – “sendo iluminados os olhos do vosso coração” (AIBB) [“coração” (cf. JND) em vez de “entendimento” (ARC e ACF)]. Maria Madalena é uma ilustração impressionante desse ponto. Pedro e João tinham mais luz do que ela, pois eles (ou certamente João) viram que o sepulcro estava vazio e creram, enquanto ela estava em total escuridão quanto à ressurreição. E, no entanto, foi a Maria que o Senhor Se revelou. Os dois discípulos, tendo se convencido de que o sepulcro estava despojado de sua presa (e João, pelo menos, crendo que o Senhor havia ressuscitado Vitorioso sobre a morte), “tornaram, pois… para casa”. Mas Maria ficou do lado de fora do sepulcro chorando. Envolvida, na intensidade de sua afeição com seu Objeto, ela estava enraizada no local; tendo perdido Cristo, ela havia perdido tudo, e todo o mundo seria apenas um sepulcro para ela se Cristo não estivesse vivo. O estado de seu coração estava certo, embora seu entendimento espiritual não fosse esclarecido; e, por isso, foi que o Senhor pôde vir e Se revelar a ela, e torná-la a alegre mensageira das benditas novas de que dali em diante Ele associou Seus irmãos a Si no céu, diante de Seu Pai e Deus, em Seu próprio lugar e relacionamento.
Se o leitor entendeu os princípios divinos que foram enunciados, ele entenderá facilmente a linguagem da noiva, que agora deve ser considerada. “Para cheirar são bons os teus unguentos”, diz ela, “unguento derramado é o teu nome” (KJV). Os “bons unguentos” representarão para nós a bendita fragrância de Suas excelentes perfeições, como vistas em Sua vida, em Seus atos de ternura e graça, bem como em Suas palavras, e em Sua caminhada de inteira dependência e obediência diante de Deus em Seu caminho ao longo deste mundo. Eles serão, sem dúvida, apreendidos e desfrutados na intimidade de Sua própria presença, em Seus relacionamentos manifestos com a alma, em Seus caminhos e relações pessoais. A noiva, de fato, não poderia ter conhecido o cheiro de Seus bons unguentos de nenhuma outra maneira. E é sempre verdade que quanto mais próximos estamos de Cristo, mais plenamente entramos na experiência do discípulo amado, que foi admitido na intimidade de repousar sobre o peito do Senhor, e mais clara será nossa percepção de Sua beleza e graça. Podemos ficar muito impressionados com o relato e o testemunho, mesmo quando à distância, como a rainha de Sabá; mas é somente quando, como ela, ouvimos e vemos por nós mesmos, que nos perdemos em adoração na presença da fragrância dos bons unguentos. Se, portanto, quisermos ser absorvidos pela percepção de Suas graças e belezas, devemos prosseguir com os dois discípulos, indo em frente por Suas atrações, para o lugar onde Ele habita. Tendo parte com Ele lá, o aroma de Suas excelências constituirá a alegria e regozijo perpétuos da alma.
Antes de prosseguir, deve-se notar que o cheiro suave da vida de Cristo, como pode ser extraído de Levítico 2, era antes de tudo e principalmente para Deus. Os sacerdotes podiam comer da flor de farinha misturada com azeite, da qual a oferta de manjares era composta, mas todo o incenso deveria ser queimado com uma parte da oferta sobre o altar, para ser uma oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. Quão abençoado é conhecer isso! Se não houvesse uma única alma na face da Terra para deleitar-se com o cheiro dos bons unguentos de Cristo, Sua vida não teria sido em vão, na medida em que trouxe glória a Deus e encheu Seu coração de gozo infinito. Não! Nosso bendito Senhor não poderia ter desperdiçado Sua doçura no ar do deserto, porque havia Alguém cujos olhos sempre repousavam sobre Ele com indescritível complacência, observando com gozo a perfeição de cada pensamento, ato, palavra e passo Seus. Foi isso que fez brotar do coração transbordante de Deus as palavras: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”. E quanto mais Cristo era testado – e Ele foi testado de todas as maneiras, mesmo pelo fogo sagrado do próprio altar – mais abundantemente Seu cheiro suave fluía para gratificar o coração de Seu Deus. Chamamos a atenção para isso, porque se a noiva é, se nós mesmos somos, permitidos a participar do gozo do cheiro suave de Sua vida, para nos alimentar das perfeições de toda a Sua devoção à glória de Seu Deus, é apenas porque Deus primeiro teve Sua porção, e porque Ele, em Sua graça inefável, nos chamou para compartilhar de Seus próprios prazeres no caminho e na Pessoa de Seu Filho amado.
Observe também que é por meio do cheiro dos bons unguentos que Seu nome, a revelação de tudo o que Ele é, é espalhado por toda a parte, como o cheiro de unguento derramado. Desta forma, como expresso no hino:
“Como fragrância na brisa, Seu nome está espalhado por toda a parte”.
Ilustrações disso abundam nos evangelhos. “E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, e pregando o evangelho do Reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a Sua fama correu por toda a Síria”. Como lemos em outro lugar: “E, levantando-Se dali, foi para os territórios de Tiro e de Sidom. E, entrando numa casa, queria que ninguém o soubesse, mas não pôde esconder-Se”. Não, bendito Senhor, o cheiro de Teus bons unguentos se espalhou por toda parte, tornando-Te conhecido em todos os lugares, de modo que Teu nome se tornou como o cheiro suave de unguento derramado a todos os que estavam sobrecarregados de angústia e tristeza, às almas cansadas e necessitadas entre Teu povo.
Este é, sem dúvida, apenas um lado desta preciosa verdade, pois o que nossa passagem traz diante de nós é antes o fascínio da alma com a preciosidade de Cristo por meio da apreensão de Suas várias excelências, conforme demonstradas em Si e em Seus caminhos. Ainda assim, é sempre por meio de nossas necessidades que primeiro chegamos a Cristo e aprendemos o que Ele é em Seu amor e graça. Então, quando nossas necessidades têm sido atendidas e satisfeitas, estaremos à vontade, livres de nós mesmos e livres em Sua presença, para contemplar Ele mesmo. O cheiro de Seus bons unguentos, de fato, dificilmente penetra na alma com seu alegre refrigério até que todas as questões que nos afetam e nosso relacionamento com Deus tenham sido resolvidas. Em casos raros, o próprio Cristo pode ser conhecido no início da vida espiritual, mas, em geral, é uma consciência perturbada que deve ser apaziguada, por meio da eficácia do sangue de Cristo, antes de sermos livres para sondar Suas gloriosas perfeições. Então, enquanto estas surpreendem e despertam o deleite da alma, Seu nome, mesmo a própria menção dele, encherá nosso coração com a sensação de sua doçura e fragrância, e produzirá tais emoções que só podem ser expressas em adoração aos Seus pés.
Outra coisa deve ser mencionada. O cheiro dos bons unguentos de Cristo pode fluir por meio da vida santa de Seu povo. Cada traço, cada perfeição exibida por Ele em Sua caminhada por este mundo, pode ser reproduzida naqueles que são Seus. Veja, por exemplo, os preceitos e exortações das epístolas. Cada um deles foi perfeitamente exemplificado em Cristo, e a menos que isso seja lembrado, para que eles possam ser associados a Ele como a Palavra viva, eles se tornarão obrigações duras e legalistas. Cristo em nós, Cristo nossa vida, conforme estabelecido em Colossenses, deve ser seguido pela exibição de Cristo por meio de nós, no poder do Espírito Santo. Para isso, precisamos estar muito em Sua companhia, pois quanto mais estivermos com Ele e ocupados com Ele, mais seremos transformados à Sua semelhança, e mais certamente o cheiro de Seus bons unguentos será espalhado por toda a parte. E este será um poderoso testemunho do que Ele é, pois neste caso Seu nome será, por meio de nós, como unguento derramado; o cheiro suave do nome de Cristo fluirá de nossa caminhada, bem como de nossas palavras. O apóstolo Paulo usa as mesmas palavras ao falar de sua pregação, quando diz: “Porque para Deus somos o bom cheiro de Cristo”; e em um capítulo subsequente (2 Co 4) ele aponta que o testemunho está conectado com a vida, bem como com os lábios. Ao meditarmos sobre isso, podemos dizer: Que privilégio! Que missão, ser enviado ao mundo para tornar conhecido o cheiro dos bons unguentos de Cristo, para que Seu nome possa, por meio de nós, ser como unguento derramado!
O efeito disso ainda não foi notado; “Por isso, as virgens Te amam”. O cheiro do nome de Jesus atrai o coração das virgens – observe que não de todo o povo de Deus, mas apenas o das virgens. Um pensamento muito distinto está conectado na Escritura com a virgem. É caráter, caráter moral, falando da ausência de contaminação, da não contaminação com as influências poluidoras do mundo (veja Apocalipse 14:4). As virgens, portanto, permanecem nessa passagem como aqueles que foram capacitados, pela graça, a manter uma santa separação das contaminações da cena pela qual estão passando, aqueles cujo coração foi mantido fiel a Cristo e guardado em lealdade a Ele pela percepção de Suas reivindicações e de Seu amor. Um coração possuído por Cristo é fortalecido contra os atrativos mais sedutores do mundo. A afeição que absorve é o que sempre distingue a virgem; e essa afeição é sempre intensificada e aprofundada a cada nova descoberta da perfeição de Cristo. Em outras palavras, aqueles que participam do caráter virginal sempre respondem à revelação da preciosidade de Cristo. Sendo Ele o único Objeto do coração, eles estão na condição de alma para entrar e desfrutar de Suas belezas. Eles detectarão a Sua presença, o bendito cheiro de Suas palavras e Seus atos, enquanto outros não observarão nada. Eles vivem em Sua presença, são totalmente para Ele, e, portanto, é o deleite de Cristo revelar-Se a eles de maneiras tão atraentes que aumentam e provocam suas afeições por Ele mesmo.
Segue-se do que foi dito que o estado de nossa alma pode ser discernido pelo efeito que o nome de Jesus produz sobre nós. Se nosso coração é descuidado e insensível quando Ele é o assunto da conversa ou apresentação, não podemos estar em comunhão com o coração de Deus. Ora, até mesmo o nome de um objeto amado na Terra produzirá emoções prazerosas. Quanto mais o nome de Cristo, o Objeto do coração de Deus – e também do nosso se o conhecemos – deveria despertar em nós santos sentimentos de deleite, que só podem ser expressos em louvor e adoração!
