Origem: Livro: Notas sobre Josué

As Passagens do Jordão – Josué 2-4

Nestes capítulos lemos sobre duas travessias do rio Jordão, uma feita pelos espias e outra por todo o arraial. A primeira delas foi feita em sinal de fraqueza. Foi, portanto, uma prova de fé.

Raabe recebe os espias, embora isso tenha sido feito correndo risco de vida, apesar da fraqueza deles, reconhecendo-os como detentores de um título supremo em relação aos direitos de qualquer relacionamento no qual ela se encontrava naquele momento.

Essas três qualidades estão entre as mais nobres da fé do povo de Deus. Certamente elas são fruto da obra do Espírito no santo, de modo que toda a glória pertence a Deus, mas elas brilham intensamente, e ainda mais quando encontradas juntas como aqui. Elas enobrecem grandemente a alma que as ilustra, como fez Raabe, a meretriz de Jericó.

Ela colocou a reivindicação desses estrangeiros, em fraqueza e perigo como estavam, acima da de seu rei e de seu país, pois ela reconheceu Deus neles. “Quem vos recebe, a Mim Me recebe”. Isso era como Abigail, Joel ou Jônatas, que, em seus respectivos dias, deram mais importância às testemunhas de Deus do que ao marido, ao hóspede ou aos pais. Isso era fé, e ela dá a razão da sua fé, assim como a fé sempre precisa dar razão de si mesma. Um relato, notícias do que o Senhor havia feito por Israel, foi a garantia dela. A fé vem pelo ouvir.

A graça, então, mostra-se pronta para responder à fé, como certamente sempre faz. Ela promete segurança a todos que usarem de suas provisões e obtém um sinal seguro; exigindo apenas que haja fidelidade para com eles neste dia de sua fraqueza.

Se observarmos as nobres qualidades da fé demonstradas nas ações de Raabe, certamente tudo isso, nos espias, nos fala dos excelentes caminhos da graça.

A cruz foi deixada neste mundo julgado como o sinal seguro de salvação para todos aqueles que a usarem e se refugiarem sob ela antes que chegue o dia do juízo. Só precisamos ser fiéis a ela, não ter outra confiança, mas nos agarrarmos a ela firmemente, nosso único refúgio e fundamento, até o fim.

Os espias podem ter excedido sua missão. Eles foram enviados por Josué do arraial no deserto para espiar a terra, e não para dar abrigo ao povo. Que assim seja. Mas a graça é “um oceano sem margens”. É “um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro”. Aqueles que conhecem a graça não precisam de ordenação para divulgá-la, e Aquele a Quem ela pertence nunca lhes disse que devem esperar por ordens antes de empenhá-la, juntamente com o fruto dela em vida e justificação, a todos quantos encontrarem na jornada deste mundo, arruinado e condenado como ele está. E então, a certeza e a decisão com que os espias, mesmo em seu dia de fraqueza, prometem e asseguram salvação a Raabe, são verdadeiramente benditas em sua graça e significado. Isso me lembra as palavras do Senhor Jesus: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na Terra poder para perdoar pecados”. Não há um futuro para resolver a grande questão de nossa alma. Isso deve ser resolvido aqui, agora, e a nossa salvação é presente, assim como a de Raabe. “Mais feliz, porém não mais seguro” é a linguagem do crente ao se referir a si mesmo e aos glorificados.

E que força e fraqueza se encontram aqui! Os homens que se escondiam sob feixes de linho para escapar de seus perseguidores, garantem segurança a todos que a quiserem receber deles. O Filho do Homem, o Desprezado da Galileia, Jesus, o Rejeitado, sela o perdão do pecador. Que vislumbres de Cristo encontramos nas frestas e aberturas do Livro de Deus desde o seu princípio!

A fé dessa mulher de Jericó, assim respondida pela graça dos espias do arraial de Deus, também se vale prontamente da promessa de salvação. Ela pendura o fio místico na janela assim que os espias partem; e essa é outra bela qualidade da fé. Ela corre para seu refúgio. Não negocia com probabilidades nem tolera demoras. Conhece que sua segurança está em seu refúgio, mas não a conhece em nenhum outro lugar. Davi teve medo de se mover da eira, onde a misericórdia havia triunfado sobre o juízo e onde Deus havia atentado para a sua oferta. Tudo isso tem caráter em si. E então, por sua fé, Raabe condena o mundo cananeu – pois todos os habitantes daquela terra haviam ouvido o relato do que Deus fizera por meio de Israel, assim como ela; mas somente ela agiu de acordo com isso (veja capítulo 2:9 e Hebreus 11:7).

Não se pode deixar de ser movido pela bondade de nos dar uma narrativa como esta, na abertura de um livro como este. Estamos prestes a testemunhar as obras do Deus do juízo, mas antes de entrarmos nisso, recebemos esta rica e preciosa amostra dos caminhos do Deus de graça. É, por assim dizer, a undécima hora – sim, quase no último minuto dessa hora – mas, como o seu dia ainda não terminou, como o seu Sol ainda não se pôs, a graça permanece ali e continuará a se derramar incansavelmente na grandeza de seus caminhos. Seu momento mais inicial revive aqui, em toda a sua força e frescor, no seu último momento. O capítulo 12 de Êxodo é lido novamente no capítulo 2 de Josué. O sangue é aspergido novamente na verga da porta para a redenção do pecador – a linha escarlate preserva a família da fé na condenada Canaã, assim como a verga aspergida fizera no julgado Egito.

E a obra da graça é realizada com seus próprios atributos e em seu próprio estilo excelente. Toda certeza marca as promessas que ela dá, e elas são cumpridas com um coração pronto.

O momento também confere a esta obra uma atração que nenhuma outra poderia ter exercido. É, como já dissemos, apenas o último instante da undécima hora do seu dia, e ainda assim ela serve e está ativa, demonstrando assim a sua divina incansabilidade.

Certamente, bem podemos apreciar e desfrutar desta história de Raabe, a meretriz de Jericó; apresentada, de certa forma, como a história de Saulo de Tarso, o perseguidor, um exemplo de toda longanimidade na graça do Deus da Salvação. E novamente é bem-aventurado, posso dizer, encontrar uma cena como esta em um livro como este, pois, enquanto os juízos que estamos prestes a presenciar são Sua obra necessária, a graça que aqui testemunhamos é Sua própria obra querida e bem-vinda.

“Sua ira despertada se move lentamente,
Mas Sua misericórdia generosa voa rapidamente.”

A segunda dessas passagens do Jordão é de natureza completamente diferente. É construída com força e repleta de glória. É a “arca da aliança do Senhor de toda a Terra”, que agora atravessa o rio, à frente das hostes do Senhor. A presença divina Se dá a conhecer em majestade. O Senhor está prestes a preparar o Seu trono para o juízo e a assumir o Seu Reino.

Tudo é grandeza. Assim que os pés dos sacerdotes que carregam a arca tocam a borda da água, ela recua. “Que tiveste tu ó Jordão, que voltaste para trás?” A presença de Deus foi sentida. Em calma majestade, sem distração, na consciência de nada menos que força e título divinos, esta passagem é agora realizada. As colinas, até ontem, serviam de esconderijo para os espias, mas agora a própria água se erguerá como um montão a serviço do arraial.

Não há, portanto, apelo à fé agora, como havia antes, nenhuma fraqueza, nenhuma busca por apoio e abrigo, nenhuma degradação aparente, como a de alguém que se esconde no telhado de uma casa nas canas de linho ali colocadas pela mão de uma mulher. Tudo é força, dando retribuição àqueles que foram fiéis; libertando aqueles que receberam a palavra da graça; e julgando aqueles que temeram, mas não agiram de acordo com seus temores. Era o dia da glória, redimindo as promessas que a graça já havia deixado em um mundo julgado. Era o dia do poder e do reino, erguendo um memorial para si mesmo no lugar da herança, que até pouco tempo atrás havia sido o lugar do inimigo.

Essas são as características da segunda passagem do Jordão registrada nestes capítulos. E quando observamos as duas passagens, tão diferentes entre si, não podemos deixar de captar a imagem das duas vindas do Senhor a este nosso mundo julgado: a primeira, dirigindo-se a nós em fraqueza, com fé, e prometendo redenção, também com fé; a segunda, em força, afirmando os direitos do Deus de toda a Terra no juízo de um mundo que já havia enchido a sua medida; concedendo a libertação prometida àqueles que O receberam e confiaram n’Ele em Seu dia de humilhação; e estabelecendo a honra de Seus feitos como por uma coluna de doze pedras, o louvor de todos os Seus santos, no lugar da herança deles.

Quão pleno, quão claro, quão simples! Que Escrituras nos fornecem estes três capítulos! Será que nós, como a meretriz de Jericó, aceitamos de tal forma a graça da primeira vinda, que permanecemos sempre de braços abertos para a glória da segunda? Conhecemos agora o amor perfeito que há n’Ele, de modo que temos ousadia ao pensar no juízo que ainda está por vir?

Mas, ao concluir minhas reflexões sobre estes capítulos, não posso deixar de acrescentar o quanto admiro a ação deste livro ao tomar, como introdução, o relato do livramento de Raabe. Isso nos faz lembrar, de forma marcante, da redenção do herdeiro, justamente quando estamos prestes a entrar no grande ato da redenção da herança.

Nesta história de Raabe em Jericó, temos uma vívida lembrança de Israel no Egito; e repito, é tão belo que tenhamos essa imagem da salvação de um pecador, justamente quando estamos prestes a entrar na cena que nos falará do reino ou da glória! Pois, em princípio, há apenas um passo – assim como as duas passagens do Jordão estavam próximas uma da outra. “Aos que justificou, a estes também glorificou”. Num piscar de olhos, o ladrão crente na cruz tornou-se o santo no paraíso com Cristo.

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