Origem: Livro: Breves Meditações sobre os Salmos
Salmos 103-107
Esses Salmos formam os diferentes capítulos de outro pequeno livro. O conteúdo prova isso; reforçado pelo fato de somente o primeiro deles ter um título.
É uma boa celebração do poder da ressurreição de Deus, ou graça restauradora do perdão.
O Salmo 103 celebra essa graça ou poder na própria pessoa do salmista, relatando o perdão de todos os seus pecados e o fato de ter sido guiado para o reino pela mão segura e terna de seu Pai celestial.
O Salmo 104 analisa a Criação sob a mesma luz. A providência de Deus governa tudo mesmo agora; mas no final, Sua força de ressurreição será aplicada à criação, que, portanto, novamente, como antigamente, se tornará objeto de deleite divino, e embora agora geme e sofre de dor, será então libertada.
Os Salmos 105, 106 e 107 celebram a mesma coisa em Israel;
Salmo 105 olhando para Israel bendito de Deus até que eles foram levados para Canaã, e ali colocados sob a lei;
Salmo 106 olhando para tudo isso em seu fracasso, e Israel trazendo ruína e morte sobre si mesmos; e então;
Salmo 107 apresentando a graça da ressurreição e a força de Deus, chamando Israel do lugar da morte para conhecer Sua bondade amorosa e declarar Sua bondade como um povo que estava morto e reviveu, que estava perdido, mas agora foi encontrado.
O Salmo 106 termina com a repetição detalhada dos clamores de Israel, tão frequentemente ouvidos nos dias de sua angústia em todo o Livro dos Juízes (vs. 43-46). O salmista então retoma o mesmo clamor em relação à angústia atual de Israel, e antecipando misericórdia e libertação, bendiz o Deus de Israel (vs. 47-48).
O Salmo 107 dá a resposta de Deus, percebendo essas antecipações de fé.
Este pequeno volume de Salmos pode, portanto, vir com alegria após o Salmo 102, onde ouvimos o clamor d’Aquele que buscou a libertação da morte e foi ouvido, e cuja libertação ou ressurreição é a grande promessa disso a todos a quem Ele lidera; pois “em Cristo todos serão vivificados”. Seu próprio corpo místico, a Igreja, ressuscitará à semelhança de Seu corpo glorioso, Israel e as nações reviverão na Terra, e a própria criação será libertada da corrupção.
É verdade que haverá diferentes ordens e glórias, mas tudo será como na ressurreição ou na nova criação. Quando Jesus pregou, Ele curou. Assim como Seus apóstolos e os discípulos que Ele enviou. Aonde Ele veio a doença se foi, a enfermidade desapareceu e a voz de saúde e ação de graças foi ouvida nas aldeias e cidades de Israel. Como antigamente, quando Ele conduziu Seu povo tirando-os do Egito, era como Deus, seu Curador (Êx 15). Ele os liderou. Os pés deles não incharam por quarenta anos – a força de Calebe era tal como quando ele partiu – o testemunho do que teria sido para toda a congregação se tivessem sido obedientes. E assim, quando o reino vier, os coxos saltarão como um cervo, a língua dos mudos cantará. Essas serão novamente as obras do Filho de Davi (Is 35; Mt 12). Pois o povo terrenal estará então em tabernáculos saudáveis e agradáveis (após a longa lepra, a carne se tornará como a carne de uma criança pequena), enquanto nos lugares celestiais mais elevados, os filhos da ressurreição brilharão em corpos espirituais de glória, de acordo com o poderoso poder de Cristo, pelo qual Ele é capaz de subjugar até mesmo todas as coisas para Si mesmo.
Ressurreição ou Redenção (pois elas são uma só coisa em princípio) tem sido o grande propósito de Deus desde o início. Sem fé na ressurreição, “o poder de Deus” não é conhecido (Mt 22:29), nem o “conhecimento de Deus” é alcançado (1 Co 15:34). A Criação é apenas o caminho ou antessala. A Criação foi para a redenção, e não a redenção foi segundo a Criação. Porque, em conselho, antes da fundação do mundo, tudo deveria permanecer em redenção. A lei do jubileu nos mostra isso (Lv 25). E o homem de Deus, o pecador aceito perdoado, celebra tudo isso nesta magnífica série de Salmos, regozijando-se, como dissemos, no poder de redenção ou ressurreição demonstradas em si mesmo, na criação e em Israel – vendo-as em todos os lugares, enquanto sua alma examina a gloriosa perspectiva[5].
[5] N. do A.: O propósito do Espírito nestes Salmos é moral e não histórico – justificar Jeová em Suas relações com Israel e convencer Israel em suas relações com Jeová – o Salmista, nos Salmos 104 e 106, não dá os eventos, aos quais ele se refere, em ordem estrita ou precisa. Ele fala da praga das trevas, por exemplo, antes da das moscas, e da rebelião de Corá, antes do bezerro de ouro ser feito. Isso é natural, e o que nós mesmos faríamos muito provavelmente, se nosso propósito ao narrar as circunstâncias fosse, como o salmista aqui, moral e não histórico. ↑
Tendo assim visto o conjunto desses Salmos, eles são deixados à consideração dos santos; julgando, no entanto, que uma observação minuciosa de cada um confirmaria essa impressão geral. E uma doce meditação que eles proporcionam à mente renovada. Um pobre pecador, no Salmo 103, permanece, em espírito, diante do altar de ouro (isto é, na plena certeza da salvação) com seu incenso de louvor, e daquele lugar feliz antecipa ou examina os tratamentos passados e futuros do mesmo Senhor, que assim o abençoou em todas as Suas obras e caminhos, seja na própria criação ou no meio de Seu povo. E, de fato, o único poder adequado para interpretar o caminho divino é levar em nossa alma uma amostra dele, como é feito aqui. Para o crente é “como que primícias” (Tg 1). Ele já está na reconciliação, como todos estarão em breve (Cl 1). O caminho de Deus é em graça ou em ressurreição, e o pecador conscientemente perdoado é, portanto, o único profeta pleno de Deus – o único que pode desfrutá-Lo ou declará-Lo plenamente. “Familiariza-te com Deus, se quiseres provar Suas obras.”
É bom acrescentar que partes do Salmo 105 e do Salmo 106 foram cantadas na remoção da arca em 1 Crônicas 16, como já observamos; o Salmo 96 fornece outra parte desse mesmo belo hino composto, pois essa ocasião, figurativamente, estabelece a época do gozo vindouro de Israel; e esses Salmos são cânticos de louvor adequados a essa época.
Ressurreição – o glorioso intérprete dos caminhos e propósitos de Deus, e o testemunho pleno e eterno de Seu amor e poder – sendo, portanto, o tema deste livro, podemos dizer, nas palavras finais dele: “Quem é sábio observe estas coisas e considere atentamente as benignidades do SENHOR”.
NOTA: A quarta divisão dos Salmos, de acordo com os Judeus, termina com o Salmo 106.
